Cláudia Aranda
Florbela Espanca, figura de referência da literatura portuguesa do início do século XX, e Brígida, personagem fictícia – duas mulheres separadas no tempo por 82 anos são as protagonistas da novela “As duas faces do dia”, publicada agora pela Chiado Editora. Este é o sexto livro da autoria de Dora Nunes Gago, professora de literatura, língua e cultura portuguesa na Universidade de Macau, cujo ponto de partida é, sobretudo, a vontade de fazer “uma homenagem à figura de Florbela Espanca”, explica a autora.
“Sempre gostei da poesia de Florbela Espanca e sempre me pareceu que ela era uma figura um bocado esquecida no panorama literário português e que, se calhar, merecia um pouco mais de reconhecimento”, explica a escritora.
“As duas faces do dia” é uma história vivida por aquelas duas mulheres “enjauladas na existência”, descreve a professora da Universidade Nova de Lisboa, Teresa Sá Couto, na nota introdutória. A Florbela Espanca “pesam-lhe memórias de perdas”, enquanto Brígida “procura memórias que perdeu”. A 7 de Dezembro de 2012 Brígida desperta amnésica, depois de um acidente que a deixou em coma. A personagem vai lutar pela vida e tentar recuperar a memória, tentando reconstruir o passado. Para Florbela Espanca o 7 de Dezembro de 1930 é o derradeiro dia da sua vida, que a poetisa passa revisitando o passado e reconstituindo alguns dos momentos mais marcantes antes da sua morte, por suicídio, aos 36 anos.
“Este livro acaba por ser uma pequena novela, porque são contos, que poderiam ser separados, mas que estão entrelaçados numa novela”, diz Dora Nunes Gago. “As personagens acabam por se relacionar, na medida em que a Brígida está a fazer a sua tese de doutoramento sobre Florbela Espanca e vai desvendando, também, alguns aspectos da sua vida, à medida que vai recuperando a memória”.
A autora consagra esta obra à poetisa, ao “tentar recriar o último dia de vida de Florbela, com uma parte ficcionada e outra baseada nas cartas que ela deixou e fontes bibliográficas”, explica Dora Nunes Gago.
O resultado é “uma reflexão acerca do próprio valor da vida, acaba por ter muito a ver com a coragem de afirmação pessoal do indivíduo na sociedade, ‘o não ir com o rebanho’”, explica a escritora. “Tem muito a ver com a história da Florbela, que acaba por ser muito criticada socialmente, por ter coragem de fazer coisas que não se faziam naquela época, de divorciar-se e uma série de coisas que nos anos 30 eram muito mal vistas socialmente.”
Uma primeira versão de “As duas faces do dia” recebeu, em 2003, a menção honrosa no Prémio Literário Florbela Espanca. Posteriormente, a autora reformulou a narrativa, que se desenrola em 2012, e cuja versão final foi publicada agora, em 2014.
Florbela Espanca já havia sido abordada numa das obras anteriores de Dora Nunes Gago, “A Sul da Escrita”, que ganhou o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, publicado pela Campo das Letras, em 2007. Este livro de contos homenageava vários escritores do sul de Portugal, entre os quais João de Deus, Fialho de Almeida, Garcia de Resende, António Aleixo e Manuel Teixeira Gomes, com base nas biografias dos vários escritores.
Para além de contos, artigos, ensaios e poemas publicados em revistas, jornais e antologias, a obra da autora inclui poesia, “Planície de Memória”, de 1997, um livro de contos infanto-juvenis “Sete Histórias de Gatos”, de 2004, a obra académica “Imagens do estrangeiro no Diário de Miguel Torga”, da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2008, e o livro de contos “A Oeste do paraíso”, de 2012.