Os mitos da colonização

1Padrão_dos_DescobrimentosOs investigadores Nuno Domingos e Elsa Peralta são os coordenadores de um livro que analisa as sociedades coloniais do antigo império português e propõe-se a desmistificar a ideia de que Portugal foi diferente. Fala-se de trabalho forçado, desigualdade e racismo.

Os coordenadores de uma investigação sobre as sociedades coloniais do antigo império português consideram que ainda hoje a história recente é encarada através de “mitos” muito afastados da realidade.

O livro “Cidade e Império – Dinâmicas Coloniais e Reconfigurações Pós-Coloniais”, lançado recentemente, recolhe textos de investigadores de várias áreas e coordenados por Nuno Domingos e Elsa Peralta que desmontam “as mitificações” do passado colonial e da história recente de Portugal.

“Há um mito que perdurou. Hoje faz-se muito a mitificação do passado, de que nós fomos diferentes dos franceses e dos britânicos. É evidente que falar das coisas más não é bom para quem quer fazer negócios actualmente”, disse à Lusa Nuno Domingos, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

“Olhar para o caso português como se fosse uma coisa do outro mundo foi uma coisa que sempre nos fez confusão. Portugal não tinha o mesmo poder a nível de infra-estruturas que outros países tinham. Não tinha o mesmo nível de desenvolvimento económico e as estratégias de poder tinham de ser necessariamente diferentes. As alianças tinham de ser diferentes, os níveis de exploração muitas vezes até mais atrasados no modo bárbaro da exploração e que tinham que ver com o atraso estrutural e com a falta de um capitalismo mais moderno”, diz Nuno Domingos.

Para o investigador, as questões laborais foram fundamentais para a investigação porque, explica, o poder português assenta ainda nos discursos que preferem falar sobre a cultura e sobre a língua mas, “na verdade”, Portugal esteve no terreno através de formas de exploração laboral, “muitas vezes brutais”.

“Houve trabalho forçado até muito tarde e com inspecções das Nações Unidas até aos anos 1960 sobre o modo como Portugal mantinha formas de exploração no trabalho. Noutros métodos fomos semelhantes aos outros colonialismos, com lógicas raciais que para nós foi um conceito importante”, salienta.

“É evidente que houve casos de mistura mas também houve casos de brutal segregação racial e esses também eram instigados institucionalmente, pelas instâncias estatais”, diz o coordenador do livro “Cidade e Império – Dinâmicas Coloniais e Reconfigurações Pós-Coloniais”.

Para os coordenadores do trabalho é preciso continuar a estudar a forma como o Estado português tratava as populações do império, porque até 1961 as pessoas eram categorizadas através de um sistema de indigenato, sobretudo em Angola em Moçambique e na Guiné-Bissau em que havia os indígenas, os civilizados e “depois aquela categoria intermédia que eram os assimilados”.

Na investigação, “a desigualdade como legado da cidade colonial: racismo e reprodução de mão-de-obra em Lourenço Marques”, Nuno Domingos cita descrições que apresentam a cidade como “moderna, cosmopolita cruzando-se nas ruas negros, brancos, amarelos, pardos, mistos, sempre visitada por muitos estrangeiros”.

Mas na prática, no caso de Lourenço Marques a separação social manteve-se “operativa”, apesar das repercussões de um conjunto de dinâmicas que distinguiram o chamado “colonialismo tardio”.

O livro não se limita ao passado africano e estuda igualmente os “desdobramentos coloniais”, sobretudo em Lisboa: o fenómeno das barracas pós-coloniais; o bairro de Arroios e a governança da diversidade cultural na cidade pós colonial.

“Nós tentamos lidar com tempos diferentes e isso introduz um elemento de novidade: perceber as sociedades coloniais e perceber de que forma determinadas características das sociedades coloniais se sentiam por exemplo na metrópole colonial (Lisboa) e depois no período pós-colonial”, explica o coordenador do trabalho.

Para o antropólogo Eduardo Ascensão, a “barraca pós-colonial” na zona da Grande Lisboa é um “fantasma” que teve como configuração principal o instituir de uma “distância e invisibilidade” em relação a outras populações em processo de urbanização informal que são “mais vistas” como fazendo parte do jogo político regular, “isto é, enquanto eleitores”.

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