A China metálica

2Todos os meses são meses metal em Pequim e Novembro foi a vez da banda portuguesa Moonspell pisar pela primeira vez os palcos chineses. Este género musical tem pouco mais de 20 anos na China, mas conta já com um grupo de seguidores fiéis que querem um país mais metálico, e mais aberto, e que lutam em várias frentes, a começar contra os estereótipos. 

Catarina Domingues, em Pequim

Na Mao Livehouse, uma sala de espectáculos alternativa, de pósteres e graffitis na parede, na zona dos velhos hutongs da capital. Os Spirit Trace, uma banda de black metal de Pequim, dois sofás vermelhos, e uma conversa a quatro.

– Não posso dissociar o metal da minha vida, diz Ma Ke, o vocalista. Ma Ke prefere o nome Mike.

– É o nosso sangue, interrompe o teclista. Chama-se Liu Hong Liang.

– Quando era novo ouvia Guns N´Roses, ACDC, Metallica, explica Mike, mas depois senti que precisava de música mais forte, comecei a ouvir Led Zeppelin, Sepultura, e quanto mais ouvia, mais necessidade sentia de um ritmo mais duro.

– Tive sorte lá em casa, a minha mãe sempre gostou de punk, diz o baixista, Wang Lei.

– Na China o heavy metal não se desenvolve, praticamente não existe, Mike volta à entrevista, mas recuso-me a desistir, a menos que morra.

– As pessoas perguntam se o meu cabelo é verdadeiro, ironiza Liu, e eu digo, toca!, toca!, vê se é ou não é!

Mike e Liu Hong Liang têm o cabelo longo, e liso, tal e qual e só como a seda quando é negra, e só como o cabelo de um chinês poderia ser, e sem precisar de pentear, e sem precisar de cuidar. Na China, onde o cabelo já foi símbolo de orientação política, Mike e Liu continuam a ser revolucionários. O cabelo curto de Mao Zedong serve como logotipo da Mao Livehouse e tipifica a República que se desfez dos cabelos longos e das tranças dinásticas e que se tornou num símbolo da nova China. Mas esta é uma casa do rock n´roll e aqui os cabelos tanto faz, e as tatuagens também tanto faz, e as baladas revolucionárias também. E o Governo o que pensa da música?

– Mas podemos falar disso?, podemos?, pergunta Mike, a nossa música provoca um choque cultural, mas agora o Governo não interfere, mas também não apoia, e se não pegarmos em temas políticos, então não temos problemas.

Com influência do metal do Médio Oriente, da Escandinávia e de música sinfónica, os Spirit Trace, que comemoraram em 2013 onze anos de existência, preferem levar para o palco deus e a religião, o diabo, e a morte, e a guerra.

Mao Metal

Momentos antes, os Spirit Trace abrem a quarta-feira de heavy metal na Mao Livehouse. Hoje não somos muitos, mas estão felizes?, grita Mike do palco. Simmmm, respondem do lado de cá. Não estão mais do que 20 pessoas a assistir ao primeiro concerto da noite. Yu Bo trabalha para o Governo chinês, em Tianjin, a 120 quilómetros da capital, e Qi Yong é técnico de radiologia num hospital de Pequim. São amigos e gostam de heavy metal.

– A primeira vez que ouvi heavy metal senti poder, diz Yu Bo, e a minha mãe perguntava, e que música é essa?, e por que fazem barulho?, e falam de amor?, e de trabalho?, mas não, eles tocavam em temas sensíveis, como a morte, a angústia, e até questionavam o Governo.

– A essência do metal não existe no pop chinês, mas em geral as pessoas preferem música calma, acrescenta Qi Yong.

Os dois, de cabelo curto, roupas claras, são representativos do público desta quarta à noite.

– Trabalho para o Governo, não posso andar de cabelo comprido e roupas pretas, diz Yu Bo.

– E o metal está dentro de nós, não precisa de estar estampado na cara, acrescenta Qi Yong,

Lá à frente, uma menina de vestido negro, e botins negros, e collants negros, e olhos muito negros também, segura as mãos às grades e movimenta a cabeça de cima para baixo. À entrada, o homem do bar, de permanente acobreada, toca harmónica, quatro homens de boné e casaco de couro navegam na internet ao telemóvel.

A ideia era dar um impulso ao rock chinês e abrir um espaço onde as bandas se encontrassem e pudessem tocar, trabalhar em conjunto e criar um produto de qualidade, explica Yu Jin Long, responsável pela Mao Livehouse, que abriu as portas em 2006. Hoje é uma excepção, diz Yu, às vezes o salão está tão cheio que é difícil chegar à primeira fila.

Esta noite, são 80 yuan de entrada, mas pelo espectáculo de meia hora, os Spirit Trace recebem apenas ajudas de custo. Para além da Mao Livehouse, o grupo também toca em festivais, onde recebe entre dois mil e 50 mil yuans. Todos têm uma segunda profissão, Mike abriu uma loja de guitarras, Wang Lei trabalha em publicidade.

Na China poucos fazem da música metal uma profissão a tempo inteiro, sublinha o responsável pelo espaço, Yu Jin Long. Existem bandas a mais e a qualidade é fraca e, no caso do metal, é importante que haja um trabalho sério para que as pessoas consigam entender este registo. Se a mentalidade mudar, o heavy metal pode vir a ter maior aceitação na China, explica Yu, também músico e compositor.

Da Dinastia Tang até hoje

O heavy metal é filho do rock e teve origem entre os anos 1960 e 1970 no Reino Unido e nos Estados Unidos da América. À China, chegou duas décadas depois pela voz de estudantes de arte e profissionais de música. Não se pode falar de uma metal town chinesa, mas Pequim foi o berço deste género e serviu de inspiração a outras cidades, explica Yang Yu, especialista em música e fundador da Painkiller, uma revista chinesa dedicada ao heavy metal. Yang relembra que, inicialmente, as pessoas chamavam metal a todo o tipo de música com o som de uma guitarra distorcida e músicos de cabelo comprido.

A Tang Dynasty, fundada em 1988, foi a primeira banda heavy metal na China. De acordo com a enciclopédia virtual Rock in China, durante a onda repressiva de Tiananmen, em 1989, o grupo teve de abandonar o projecto mas, um ano depois, em Maio de 1990, voltou a pisar os palcos durante a cerimónia de abertura dos Jogos Asiáticos no Estádio dos Trabalhadores, em Pequim, para tocar para cerca de cem mil pessoas. O Governo chinês esperava que, desta forma, o mundo olhasse para uma China mais aberta, explica a Rock in China.

Foi só ao fechar do século que o metal passou por um maior período de desenvolvimento na China, com a formação de novas bandas e subgéneros, como o trash, o nu ou o black metal.

Em 1996, Yang Yu deixou a Alemanha, onde trabalhava para a AFM Records, uma editora discográfica de música metal, e regressou a Pequim. Uns anos mais tarde, encontrei numa festa aqueles que são hoje os meus parceiros, e eles queriam criar uma revista sobre este género de música, pois não havia informação sobre bandas internacionais, relembra.

A revista Painkiller chegou às bancas chinesas em 2000 e, hoje em dia, é publicada quatro vezes por ano. Antes da epidemia da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa), em 2003, chegámos a ter uma tiragem de 40 mil exemplares, mas hoje, imprimimos entre oito a dez mil exemplares, diz Yang. Além disso, a imprensa tradicional tem tido uma grande queda e é um pequeno milagre que, treze anos depois, uma pequena revista como a nossa continue a existir, explica o especialista, que acredita que a Painkiller já se tornou num projecto sólido, nomeadamente na organização de concertos com bandas chinesas e internacionais.

Características chinesas

Pelo metal, Andrea Giannotti apanha o comboio sempre que tem oportunidade. Esteve em Xangai no concerto da banda sueca Dark Tranquility e outra vez para assistir ao espectáculo dos suíços Eluveitie. Só num dos dias do Festival MIDI, em Pequim, tocaram cerca de dez bandas metal chinesas, explica o arquitecto italiano. Na China, onde vive há dois anos e meio, segue de perto o desenvolvimento musical. A China é um país difícil, mas vê-se uma maior abertura, comenta Giannotti. Nos concertos, tenho visto que o público anda pela casa dos vinte, o que quer dizer que só agora se começou a descobrir o metal.

O italiano, fã metal desde a adolescência em Roma, acredita que a raiva está cá. Penso que as bandas locais têm alguma raiva, e essa é a expressão do metal, porque o lado mau, à semelhança do lado bom do ser humano, existe, e a música metal é uma forma de o absorver, de o compreender e, por fim, de o expressar. Além disso, a contaminação é um valor importante e a mistura com as próprias raízes é um caminho que também muitas bandas chinesas seguem e que tem bons resultados, explica Giannotti, que dá o exemplo dos Nine Treasures, uma banda de folk metal da Mongólia Interior. Tocam instrumentos tradicionais, têm raízes populares e conseguem transmitir o ambiente do deserto e das estepes mongóis, sendo que o imaginário é sempre o negro, acrescenta, sentado numa mesa do Starbucks depois de um dia de trabalho. Andrea veste umas calças de ganga escuras, sapatos cremes de camurça e uma camisola preta da banda brasileira Sepultura.

Apesar de reconhecer esta mistura e influências da tradição nos músicos chineses, o especialista de música metal, Yang Yu, sublinha que não há muito em comum entre a cultura chinesa e o género. Olhamos para a Alemanha, por exemplo, além de ser o maior mercado de música na Europa, existe uma cultura antiga, medieval, de música clássica e com tradições de rock no pós-guerra, relembra. Yang Yu acredita, por isso, que ainda é muito cedo para falar de características chinesas no heavy metal. É um mercado pequeno, em desenvolvimento e que peca pela falta de infra-estruturas, de produção, educação e marketing, aponta o especialista. A este problema junta-se um mercado dominado pela música popular, ou segues esse caminho, ou não tens sucesso, diz Yang.

A falta de apoio governamental acaba por limitar o crescimento e a concorrência com o pop chinês. Yang Yu relembra que, no início estranhavam-se os cabelos compridos, as tatuagens, mas com o tempo este estilo começou a ser visto com maior condescendência e como exemplo de moda a seguir. Apesar da música metal não ser uma das preocupações da classe governativa, existem regulamentos no que diz respeito a produtos culturais e, ainda hoje, as bandas que vêm de fora têm de enviar o alinhamento e as letras para análise de um departamento do governo chinês. Foi o caso dos Moonspell, que tocaram este mês em Pequim.

Moonspell pela primeira vez na China

Esta é uma história romântica, diz o vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, quando tocámos em Nova Iorque houve dois fãs chineses que marcaram férias para nos ver e destacaram-se porque vinham vestidos a rigor, com os olhos pintados. Eu vi a reacção deles no concerto e percebi que os Moonspell eram uma banda que ouviam desde a adolescência. Quando fui falar com eles, contaram-me que havia uma comunidade pequena na China que adorava bandas como a nossa. Nós, que já corremos o mundo, ficámos surpreendidos.

Meses depois, os Moonspell estão em plena luz do dia na Cidade Proibida. Tiraram uma série de fotografias connosco (risos) por causa do cabelo, do ar, dos óculos e da roupa, continua Fernando Ribeiro. O nosso guitarrista Ricardo comentava que viemos a um lugar turístico e histórico e somos nós o foco de atenção.

Novembro de 2013 fica para a história da banda portuguesa de gothic metal. É a primeira vez que os Moonspell estão na China a tocar, depois de uma digressão de quase um mês, que começou em Praga, percorreu 12 cidades russas até Irkutsk, na Sibéria, e terminou na capital chinesa. Em Pequim, fomos recebidos como umas estrelas rock. Sentimos que, nos últimos anos, há uma maior aceitação por parte do público asiático de bandas como a nossa, um heavy metal mais underground.

Mas os Moonspell conhecem as limitações. Ainda hoje em dia vamos tocar a países, como o Líbano, onde os nossos discos são proibidos e os nossos concertos ao vivo são permitidos. Existem estas nuances e nós temos de nos adaptar, diz o vocalista, que em 2010 esteve em Xangai com o projecto Amália Hoje. Nessa altura, notei que havia uma grande abertura e curiosidade por parte do público chinês em descobrir coisas novas. Tem de haver um contexto ideal para irmos tocar e esse contexto finalmente chegou à China e a outros países asiáticos. Fernando Ribeiro diz ainda que, antes da digressão, o alinhamento musical passou por um departamento governamental para aprovação. Aqui a maior preocupação é a crítica social e dos costumes e isso não está presente nas nossas letras, que são profundamente humanas, e que, ao contrário da pop, não vão camuflar nem tornar o mundo cor-de-rosa. Nós chamamo-nos Moonspell, temos o nosso lado lunar, do Homem, as suas aflições, os seus medos, as suas disputas com deus e com a religião.

Noite portuguesa

É domingo e é noite de Moonspell. Fernando Ribeiro entra em palco de máscara, e vestido de preto, botas pesadas, voz pesada, e gutural. ‘Axis Mundi’, do último álbum da banda, abre a noite na sala de espectáculos do Yugong Yishan, em Pequim. ‘One will be enough to suffocate/ The misery this world has turned into/Ergo a cabeça sim mas apenas para sentir/ a lâmina fria que me beija a nuca’. As letras dividem-se entre o inglês e o português, Fernando Ribeiro agradece sempre em inglês, e em português, e em chinês, xie xie, xie xie, e as pessoas respondem, yeaaahhhhh, não são mais do que cem, mas respondem, com as mãos em forma de chifres, e a cabeça em movimento circular, e novo movimento, desta vez de cima para baixo, outra vez, de cima para baixo.

Foi a primeira vez que os vi e foi um espectáculo perfeito, tocam com precisão e consigo sentir no corpo todas as notas, diz o italiano Andrea Giannotti, que acompanha a carreira da banda portuguesa há quinze anos. Sinto uma relação pessoal com a música, e com os músicos, e nos concertos tem de ser assim, se já conheces o grupo, vais aproveitar, se não conheces, vais explorar, diz o arquitecto, que hoje veste uma t-shirt da banda norueguesa Immortal. As camisolas são um factor unificador, começas por falar de música com outras pessoas e acabas por conhecê-las, e isso não se passa em outros concertos, diz Giannotti.

Também os Moonspell entraram na vida do estudante de engenharia mecânica Rong Zhibin desde os exames para a universidade. Tinha sempre música metal nos ouvidos, explica Rong, gosto sobretudo de gothic metal, porque associo a um mundo vampírico, à Idade Média. Já vi muitos concertos na China, Korn, Metallica, os Lacrimosa que conseguiram reunir 400 pessoas, mas nenhum como este, perfeito. Eles têm mais de vinte anos de carreira e hoje foram poucos os álbuns que ficaram de fora, explica Rong, que prefere os primeiros tempos de Moonspell.

Foi o princípio de uma bela amizade, como disse o Kusturica [a citar o filme Casablanca], mas neste caso entre os Moonspell e a China, diz Fernando Ribeiro. Acho que há sempre que começar por algum sítio e sermos honestos com as pessoas, não esteve uma multidão, mas foi um óptimo encerramento da nossa digressão e, acima de tudo, um excelente cartão-de-visita para os Moonspell. Para a próxima, os que vieram vão trazer um amigo ou dez.

Moonspell, Moonspell, Moonspell, gritam deste lado. Depois é a vez de Fernando Ribeiro se despedir, obrigado à Cidade, que por momentos foi Proibida. 

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