O universo quase abstracto da pintura chinesa

0 Rui Rasquinho - Foto Claudia Aranda
Foto de Cláudia Aranda

O artista plástico português Rui Rasquinho é o autor dos desenhos que reinventam a pintura, o universo e a iconografia tradicional chinesa e ilustram a obra “Quinhentos Poemas Chineses”. A antologia de poemas reúne pela primeira vez num livro trinta séculos de poesia traduzida para português. O lançamento da obra pela editora Livros do Meio com apoio da Casa de Portugal foi o pretexto para entrevistar um dos ilustradores e pintores de Macau com maior visibilidade na imprensa local.

Cláudia Aranda

– Qual é o ponto de partida para as ilustrações deste livro, “Quinhentos Poemas Chineses”?

Rui Rasquinho – Estas ilustrações têm uma sequência, fazem parte de uma série já muito vasta. Conceptualmente estas ilustrações são a continuação do trabalho que tem sido desenvolvido para o jornal Hoje Macau desde há quatro ou cinco anos. Os desenhos serviram para ilustrar traduções para português de textos filosóficos antigos chineses. A série começou com [A Arte da Guerra de] Sun Pin [alegado descendente de Sun Tzu, estratega militar chinês que viveu entre 544 e 496 antes de Cristo]. Esta é uma segunda versão de “A Arte da Guerra”. É uma série que tem vindo a ser depurada, tem evoluído, não é a mesma coisa mas parte do mesmo princípio. Há uma influência marcadamente da pintura tradicional chinesa, mas não só. A tradição chinesa é o universo principal, é uma espécie de atmosfera, a referência visual, mas depois há outras influências. Estas ilustrações vêm na sequência desse trabalho todo de ilustração. Quando o Carlos Morais José me convidou para ilustrar o livro achei que fazia sentido continuar nesse estilo.

– Como começa a relação com a literatura e pintura chinesas?

R.R. – No caso das ilustrações dos textos filosóficos, tive de ler os textos para poder ilustrá-los. A partir daí criei uma relação, comecei a investigar. O que aconteceu, de uma forma periférica, foi que comecei a investigar textos sobre a história, a cultura chinesa, sobre a parte pictórica, a pintura tradicional chinesa, a tinta-da-china sobre papel de arroz.

– Em que aspecto as tuas ilustrações revelam essa influência, na técnica?

R.R. – Revelam-se na técnica e não só. Também no universo iconográfico, as montanhas, as paisagens…A técnica é só um ponto de partida, depois eu uso outras formas completamente diferentes. A pintura chinesa tem uma qualidade abstracta ou poderá ter uma qualidade abstracta muito interessante. Mas, nunca assumida, pelo menos na vertente tradicional. Tem uma vertente quase abstracta que eu às vezes exploro. Também com influências trazidas de outros estilos, de práticas da cultura ocidental. Não é bem o caso neste livro, porque este livro é uma colecção de 500 poemas. Mas, nas séries anteriores, há temas contemporâneos como a Primavera Árabe, a Guerra do Golfo, há temas e aspectos figurativos relacionados com isso. Uso esta qualidade [abstracta] da pintura chinesa, mas depois os temas são contemporâneos.

– Onde é que começa e termina o figurativo e o abstracto nos teus desenhos?

R.R. – Gosto de jogar com as expectativas que se criam quando se olha para uma representação abstracta e um desenho figurativo. No figurativo identifica-se o que é. Em algumas das ilustrações com referências a acontecimentos da actualidade existem essas duas qualidades, pode ser uma coisa quase abstracta mas com referências figurativas porque havia uma intenção de ser reconhecido.

– Há uma tendência mais para o abstracto?

R.R. – Acho que o abstracto para mim não chega, tenho de encontrar mais qualquer coisa. Mas o processo de encontrar o meio termo, uma intersecção, isso é o que dá muita pica.

– As ilustrações do livro estão nessa linha?

R.R. – Sim, sim. Isso tem que ver com a pintura tradicional chinesa, a pintura a tinta-da-china e a caligrafia, aliás a pintura chinesa deriva da caligrafia. Os chineses depuraram a arte de tal forma que a pintura tende a parecer uma representação gestual. Há uma certa abstracção, a forma como retratam as paisagens, como depuram e representam o figurativo, às vezes fazem-no de uma forma bastante estilizada, quase abstracta.

– Há artistas chineses contemporâneos a usarem as mesmas técnicas de pintura tradicional?

R.R .– Ultimamente os artistas chineses reinventaram o suporte tradicional, o papel de arroz, a pintura, a tinta-da-china todo esse universo iconográfico está a ser reinventado, há coisas incríveis, mesmo com ferramentas digitais. Agora, não é a mesma coisa, aqui de facto há uma mistura, de referências ocidentais e outras, com este universo clássico chinês, mas a comparação é essa. Mas, sei que na China, nos últimos dez anos ou menos tem havido uma preocupação em actualizar essa tradição, não só a reproduzir, mas há artistas a reinventar essa técnica.

– Também fazes ilustrações com uma crítica política, social?

R.R. – Há sempre uma intenção, um comentário, pode não ser logo perceptível para as pessoas que estão a ver mas eu tento sempre jogar com os significados.

– O teu percurso inclui uso de formas artísticas e de expressão muito variadas, já fizeste cinema de animação, vídeo, pintura, ilustração, no caso deste livro dos 500 poemas a técnica usada é ilustração, também consideras desenhar cartoons?

R.R. – Cartoon faço muito esporadicamente, não é a minha especialidade, é preciso investir tempo para ser-se consistente, não me considero um cartoonista. Mas, de vez em quando, vou lá. É uma linguagem de que eu gosto, tem a ver com banda desenhada. De vez em quando vou lá, mas não sou um cartoonista. Para sê-lo teria de dedicar-me inteiramente a isso, faço-o de vez em quando.

– Qual é a forma de expressão com que te identificas mais ou à qual te tens dedicado mais?

R.R. – Não posso dizer só uma, porque gosto de várias áreas. Por questões práticas a ilustração tem sido o compromisso. Porque paga-me o bife e tem que ver imediatamente com o que eu gosto de fazer. O que eu gosto essencialmente é de desenhar. É o nível zero da coisa. Obviamente o desenho pode funcionar por si próprio ou pode servir como suporte para outras coisas. Para pintura, para ilustração. E o desenho é a base de tudo, é mesmo o nível zero da expressão. A ilustração é uma abordagem que me dá imenso gozo, sobretudo agora que houve uma espécie de renascimento, não exactamente agora, mas já há uns anos, a ilustração voltou à moda. Foi moda nos início do século XX, depois veio a fotografia, que reinou durante muito tempo e agora nos últimos 10 anos a ilustração voltou. E o que tem piada na ilustração é que usa-se todas as linguagens possíveis, usa-se a linguagem fotográfica, a pintura. Pode usar-se qualquer técnica das artes plásticas para fazer uma ilustração. Pode ser um simples desenho a lápis ou uma aguarela. Acho que a ilustração tem que ver com o contexto onde ela é apresentada e não com a abordagem artística. E a ilustração que eu gosto muito de fazer – eu gosto de não me cingir só a um estilo – por isso é que estas falsas pinturas chinesas que eu faço me dão muito gozo porque funcionam um bocado como uma espécie de antídoto às outras ilustrações que eu faço que são um bocado mais comerciais.

– No caso das ilustrações ditas mais comerciais ou das encomendas, qual é o grau de liberdade?

R.R. – Aí tenho um pretexto, ou melhor um pré-texto, tenho um texto e tenho de respeitar o sentido desse texto tenho que o ilustrar mas fica por aí. Em termos estilísticos em geral em Macau para os jornais e para as revistas tenho liberdade em termos de estilo e de interpretação. Agora, a mensagem já existe, o sentido já existe. Depois a forma como eu apresento, aí já é livre, tenho liberdade. Agora, nestas ilustrações do livro, que advêm das outras, a liberdade é total.

– Alguma vez sentiste condicionalismos impostos pela sociedade, pelas pessoas que te rodeiam, já fizeste auto-censura ou sentes-te sempre totalmente livre?

R.R.- Não, há sempre uma auto-censura moderada. Há coisas que não se podem fazer porque a ilustração tem uma função muito clara que é ilustrar uma notícia ou uma reportagem e isso tem de ser cumprido. Mas claro que há alguma auto-censura. O que tento fazer, quando é possível, são jogos de significado às vezes com alguma crítica, mas o mais velados possível.

– Que é o caso do Panda-Panda [tiras humorísticas publicadas online]?

R.R. – Não o Panda-Panda é suposto ser selvagem. É um projecto pessoal, aí posso ser um bocado mais selvagem. Este projecto nunca foi publicado, mas está online. Aí é diversão pura e total.

– Numa situação em que te seja dada liberdade total para trabalhar, qual é o caminho que segues?

R.R. – Depende do contexto, mas aí seria outra coisa. Porque no caso da ilustração há sempre um ponto de partida que não é meu. Mesmo nestas ilustrações chinesas do livro, tenho liberdade, mas tenho sempre um ponto de partida, nem que seja um ambiente, um universo.

– Voltando aos teus projectos pessoais e aos teus personagens, o El Jéco, é um projecto terminado?

R.R. – O El Jéco acaba por reincidir sempre, volta sempre, aliás o Panda-Panda é um subproduto do El Jéco. O El Jéco quando começou não tinha qualquer tipo de auto-censura, era suposto chocar. O Panda-Panda apesar de tudo tem alguma auto-censura. Há coisas que eu não mostro e tenho de dar a volta. Mas, são personagens recorrentes. Mesmo que não seja o El Jéco ele mesmo, o Panda-Panda é da família, faz parte do panteão do El Jéco. Isso tem que ver com uma necessidade minha. É uma espécie de antídoto para o resto, não é uma encomenda, não é um programa, é uma necessidade. Quando há tempo ou quando há uma necessidade voltam sempre.

– Em que ponto está o projecto 049 [filme de ficção co-realizado com António Nuno Júnior que relata uma história passada em 2049]?

R.R. –O projecto 049 é um filme de ficção, mais experimentalista, passado em 2049. É uma experiência de estilo. Conseguimos o financiamento para rodar o filme, terminámos.. O filme é essencialmente fotografado. Tem partes filmadas mas é sobretudo fotografado. O projecto está a ser reformulado, não vai ser apenas um filme, vai ter uma vertente online também, mais interactiva. Não vai seguir o esquema clássico de distribuição de filmes para as salas de cinema. Vai haver uma projecção quando estiver terminado e depois passa a estar online.

– Viver 16 anos em Macau e na Ásia fez-te mais oriental em termos artísticos e de fontes de inspiração?

R.R. – Isso é uma mistura. A questão é que eu não vivi sempre em Portugal. Mais de metade da minha vida foi passada fora. Praticamente nasci em Cabo Verde, aliás, a minha língua-mãe é o crioulo. Dos seis aos 11 anos estive em Portugal. Fui para Angola durante quatro anos, até aos 15, estes anos foram uma parte essencial da minha formação. Depois estive dos 15 aos 26 anos em Portugal, em Lisboa e no Porto. E, depois, vim para Macau.  Quando cheguei sei que já existia uma identidade mista, que já não era só portuguesa. Aliás, por causa dessa experiência de vida, eu acho que formular uma identidade muito fixa não faz sentido nenhum, pelo contrário, em vez de uma identidade muito fixa e forte, a identidade dilui-se um bocado. Dizer que estou mais oriental também não é verdade, mas obviamente que há influências. Eu sigo artistas e leio sobre isso, mas de uma forma global, tal como sigo outros artistas de outros lugares. Obviamente, eu vivo aqui, gosto de Macau, há um interesse mas que não se sobrepõe, acho que complementa-se, a piada é essa.

– Para onde é que te diriges em termos artísticos, tens objectivos grandiosos como pintar um mural ou o tecto de uma capela?

R.R. – A minha formação é pintura, estudei pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto. Quero voltar à pintura, lentamente, quero voltar a pintar e a estes projectos de cinema. Mas as áreas são essas. Não tenciono deixar a ilustração, é um médium bastante rico, dá para usar várias linguagens, dá para brincar imenso, tem uma exposição imediata, o que é muito bom. Mas gostava de ter projectos pessoais, que dependam só de mim, como a pintura e o cinema.

“500 poemas, uma gota de água na literatura chinesa”

O livro “Quinhentos Poemas Chineses” traduzidos em português foi lançado na semana passada pela editora Livros do Meio, de Carlos Morais José, com o apoio da Casa de Portugal para comemorar os 500 anos do encontro entre Portugal e a China. Este é um “dos trabalhos mais importantes que a editora já fez”, afirma Carlos Morais José, tendo em conta a dimensão e a abrangência da obra. “Claro que me senti feliz quando a obra nasceu, mas agora é preciso continuar. A literatura chinesa é imensa e este livro é só uma gota de água dentro da poesia chinesa. Cada um daqueles poetas tem uma obra e nós só incluímos três ou quatro poemas de cada um”, acrescenta o jornalista e editor.

Entretanto, já está em preparação uma antologia dos “500 poemas portugueses em chinês”. O projecto “está em andamento” e, em princípio, poderá ser lançado no próximo ano, afirma Carlos Morais José. A antologia vai incluir “700 a 800 anos de poesia”, desde a poesia medieval portuguesa à actualidade. É possível que venham a ser incluídos poetas brasileiros, “ainda não está totalmente definido, estamos na fase de fazer essa recolha”. Portugal tem “uma poesia muito rica, portanto ainda não sei, as hipóteses ainda estão em aberto”.

A antologia “Quinhentos Poemas Chineses”, agora lançada, tenciona dar a conhecer o que de mais importante produziu a arte poética chinesa ao longo de trinta séculos até aos nosso dias, explica Carlos Morais José, escritor, editor, tradutor que coordena esta obra em conjunto com o também autor e tradutor António Graça de Abreu. Para a escolha dos escritores contemporâneos, foi considerada a “proximidade dos autores chineses à literatura portuguesa”, explica o editor. No que diz respeito aos autores das traduções, os coordenadores da antologia pretenderam dar “um painel da relação que tem havido entre a língua portuguesa e a língua chinesa”, incluindo o Brasil. “Quem de alguma forma olhar para este livro fica a conhecer a história das relações literárias entre Portugal e a China ou entre a cultura portuguesa e a cultura chinesa”, conclui o editor Carlos Morais José.

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