China “de igual para igual” com África

A investigadora Carmen Mendes destaca o discurso de não-interferência da China como uma das razões de sucesso das relações do país com o continente africano. A parceria tem permitido a Pequim exportar a sua economia para lá de fronteiras.

O investimento da China em África permite resolver problemas como a exportação de produtos e mão-de-obra em excesso, continuando a desenvolver a economia chinesa fora da China, considera a especialista nas relações sino-africanas Carmen Mendes.

O volume de negócios entre a China e o continente africano, o seu principal parceiro comercial, estava, no final do ano passado, à beira dos 200 biliões de dólares, representando uma subida anual de quase 20 por cento, de acordo com o Livro Branco das relações entre a China e África, divulgado em Outubro pelo Governo chinês.

Para a China, as vantagens são evidentes: a relação com África “permite-lhe exportar o excesso de mão-de-obra contendo a instabilidade social decorrente do desemprego, permite-lhe exportar os materiais de construção, uma vez que tudo é levado da China, até a comida para os trabalhadores. Ou seja, é uma forma de continuar a desenvolver a economia chinesa fora da China, numa lógica bem mais rentável do que a das cidades fantasma que se foram construindo pelo interior da China e estão completamente vazias”, explicou, em entrevista à Lusa, a professora de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra e autora do livro “Portugal, China and the Macau Negotiations”, que chegará às livrarias ainda este ano.

Para Carmen Mendes, um dos segredos do sucesso chinês em África prende-se com a vertente diplomática: “o facto de usar um discurso de não-interferência e de falar ‘de igual para igual’ atrai muito as elites africanas, que estão verdadeiramente saturadas do discurso paternalista dos ocidentais, ainda para mais porque consideram que esta abordagem está cheia de hipocrisia. Este espírito missionário que sempre caracterizou o relacionamento do Ocidente com o resto do mundo, primeiro numa tentativa de exportar a religião e agora de impor a democracia e os direitos humanos como o modelo universal, colide com a actuação de muitos governos e empresas ocidentais que fecham os olhos a tudo isto quando há muitos interesses em jogo”.

Para as elites africanas, acrescenta, a diferença é simples: “sentem que o que toda a gente quer são os recursos deles e pelo menos a China não esconde isso e ainda pergunta o que é que eles querem em troca, deixando alguma ‘obra feita’ em vez de se limitar a encher os bolsos a alguns ditadores”.

A co-organizadora da próxima conferência da Associação Europeia de Estudos Chineses afirma que “a componente económica desta relação não seria tão eficaz se não fosse apoiada por uma fortíssima dimensão política que caracteriza o relacionamento bilateral e multilateral da China com estes países” e admite que “há divergências sobre qual destas duas dimensões tem maior peso no relacionamento”, mas conclui que “predomina a ideia de que a diplomacia económica só tem o peso que tem porque é complementada, ou mesmo arrastada, por um diálogo político já muito antigo e uma série de iniciativas noutras áreas”.

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