A escolha de Pequim

2840-1Os resultados eleitorais deste domingo trouxeram uma viragem histórica no campo pró-Governo. A tradicional ala de Macau alinhada com o Partido Comunista Chinês perdeu terreno para as novas forças empresariais com influência no Continente. Qual das duas frentes vai ter o apoio de Pequim? É a pergunta por responder nestas eleições, na análise dos politólogos Eilo Yu e Bill Chou.

Sónia Nunes

O jogo de poder entre as forças pró-sistema era um dos pontos de maior interesse destas legislativas. Os observadores políticos esperavam uma concorrência apertada entre a histórica ala pró-Pequim e as associações de conterrâneos do Continente, com forte pendor empresarial, por mais um lugar na Assembleia Legislativa (AL). Chan Meng Kam e Mak Soi Kun são a face visível desta segunda frente e ganharam a luta nas urnas, com uma margem de vantagem esmagadora – para surpresa dos analistas, que admitem o início de uma nova relação entre o Governo Central e as elites locais.

O empresário Chan Meng Kam, cabeça de lista da Associação dos Cidadãos Unidos de Macau e líder incontestável da comunidade de Fujian em Macau, conseguiu o impensável: elegeu o terceiro candidato. “Nem ele estava à espera de conseguir três lugares”, diz o politólogo Eilo Yu, professor no Departamento de Governo e Administração Pública da Universidade de Macau.

Chan Meng Kam garantiu a reeleição e deu a volta ao actual sistema de apuramento eleitoral ao conseguir o espectacular resultado de 26.385 votos nas urnas. Foram mais de dez mil votos em relação ao segundo candidato mais votado – Mak Soi Kun, vice-presidente da Associação de Conterrâneos de Jiangmen e cabeça de lista da União Macau-Guangdong. O deputado foi reeleito com 16.248 votos e conseguiu eleger o número dois.

O que significam estes resultados? “Houve uma mudança no campo pró-Governo. A viragem deu-se da ala tradicional pró-Pequim para o campo pró-empresarial, que consolidou o poder político junto das forças locais”, observa Eilo Yu. No campo pró-sistema, a grande derrotada foi Kwan Tsui Hang, cabeça de lista da UPD e dirigente da Associação Geral dos Operários de Macau, um dos históricos satélites do Partido Comunista Chinês em Macau e que, nestas eleições, perdeu um deputado.

Com estes resultados, entende Eilo Yu, “Pequim deverá reconsiderar a situação de Macau”. O académico explica: “Embora as forças pró-Governo continuem representadas na AL, assistimos à emergência de empresários pró-sistema, que têm uma influência pessoal. Podem ter ligações com os governos locais e líderes do Partido, mas não estão ligados ao Partido”. Pequim poderá ser forçado a “ajustar a relação com o campo tradicional para manter a influência em Macau” e “pressioná-los para reforçarem o trabalho e recuperarem o apoio”. Mas também poderá optar por “negociar” com a frente que saiu reforçada das urnas.

“Estes resultados tiveram um enorme impacto no campo tradicional”, concorda Bill Chou, também da Universidade de Macau. A derrota de Kwan Tsui Hang (a candidata mais votada em 2009) “afectou o estatuto e a influência política das associações tradicionais aos olhos de Pequim”, destaca. O académico, próximo do campo pró-democracia, deixa uma sugestão: “Vão ter de rever a estratégia. Kwan Tsui Hang perdeu a popularidade e o carisma que tinha. Os Operários terão de fazer mais pela defesa dos trabalhadores e corresponderem também às expectativas da classe média para conseguirem recuperar”.

Período de reflexão

Além de bater o campo tradicional pró-Pequim, Chan Meng Kam mostrou como vencer o regime eleitoral, destaca Eric Sautedé, da Universidade de São José. “Com uma boa organização e bolsos cheios é possível virar o sistema a favor do candidato”, resume o politólogo, ao destacar a força mobilizadora da lista da Associação dos Cidadãos Unidos de Macau.

“Chan Meng Kam foi uma enorme surpresa. Conseguiu não só os votos de Fujian, mas o apoio de junkets e de importantes interesses económicos locais”, refere o politólogo. Mais: Chan Meng Kam “é um político. Durante a campanha mostrou que sabe chegar às pessoas. É um homem do povo”.

“A estratégia de campanha e a engrenagem do campo pró-empresarial foi mais profissional e forte”, concorda Eilo Yu. “Fizeram um trabalho de mobilização espantoso”, adita Bill Chou. Foi o que terá faltado aos candidatos do campo pró-democracia, sob o chapéu da Associação Novo Macau – a outra grande derrotada nestas eleições ao perder também um deputado.

“Não conseguiram organizar-se e, pela primeira vez desde 1999, não foram a força mais votada”, aponta Eric Sautedé. “Decidiram avançar com três listas, sem os eleitores perceberem muito bem porquê e, sabendo que era arriscado, não deram quaisquer indicações de voto ao eleitorado”. “Nem a estratégia eleitoral, nem a mensagem da Novo Macau foi clara desta vez”, critica.

O académico diz que os candidatos devem “assumir responsabilidades” pelos resultados e “pensar no que levou os eleitores a apoiarem a associação em 2009”. Bill Chou também aconselha o campo pró-democracia a entrar num período de reflexão. “A estratégia eleitoral da Novo Macau foi um desastre. Os votos de Ng Kuok Cheong baixaram muito. Acredito que, nestas eleições, muitos eleitores da classe média optaram por não votar”, observa. O académico explica que o voto na Novo Macau é, por tradição, um “voto de protesto contra o Governo”, que terá tido mais força em 2009 – nas primeiras eleições após o escândalo de corrupção que envolveu o ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas Ao Man Long.

Já para Eilo Yu, a queda nos resultados da Novo Macau, revela que a juventude de Macau “tem interpretações diferentes sobre o que devem ser as forças pró-democracia”. Uma “abordagem mais radical”, como a que é seguida pelo líder da Novo Macau Jason Chao, “não parece ser muito convincente para atrair a nova geração” – sobretudo quando posta em contraste com o tom político da plataforma de Agnes Lam que, nestas legislativas e sem o apoio das forças tradicionais, conseguiu mais de cinco mil votos, destacam os analistas.

Para fechar a nova composição da Assembleia Legislativa, faltam distribuir sete lugares. São os assentos por nomeação do Chefe do Executivo. Chui Sai On tentará aqui equilibrar as forças dentro da câmara? Bill Chou e Eric Sautedé dizem que não. “Gosto de pensar que sim, tendo em conta a baixa taxa de participação nas eleições, que o sufrágio indirecto não é bem uma eleição e a para justificar a decisão de manter os deputados nomeados com a reforma do sistema político. Mas a verdade é que isto foi feito para não haver conflitos e garantir uma maioria pró-Governo na AL”. Já Eilo Yu admite que Chui opte por nomear mais representantes das associações tradicionais pró-Pequim.

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