Derrota democrática

IMG_1847Uma pequena multidão acotovelou-se ontem na sede da Associação Novo Macau para acompanhar os resultados eleitorais. Mas a noite reservou desilusões aos pró-democratas: Chan Wai Chi perdeu o lugar na Assembleia e Jason Chao não ficou sequer entre os 20 mais votados.

Inês Santinhos Gonçalves

As esperanças eram muitas e o ambiente festivo, mas com o avançar da noite a sede da Associação Novo Macau (ANM) viu os sorrisos transformados em lágrimas. A lista de Jason Chao conseguiu pouco mais de três mil votos (de acordo com resultados preliminares) e Chan Wai Chi perdeu o assento na Assembleia Legislativa. A ANM entra agora em fase de reflexão.

Pelas 22h de ontem já não havia onde sentar na sede da ANM. Candidatos e apoiantes oscilavam entre o entusiasmo e o nervosismo. Os mais optimistas acreditavam que era possível conquistar cinco lugares; os cautelosos apontavam a redução do actual número de deputados como uma derrota. O pior verificou-se: Ng Kuok Cheong assegurou a eleição com quase 11 mil votos, seguido de Au Kam San, que se aproximou dos nove mil, mas Chan Wai Chi ficou de fora, separado do último deputado a ser eleito por mais de um milhar de votos.

A lista de Jason Chao, Liberais da Nova Macau, ficou aquém das expectativas – nunca chegou a estar sequer entre os 20 mais votados. Melhores resultados conseguiu o número dois de Au Kam San, Sulu Sou, que com quase 4500 votos, se posicionou em 20º lugar.

Sou, de 22 anos, era o mais jovem candidato às legislativas. Uma hora depois das assembleias de voto fecharem, o número dois da Associação de Novo Macau Democrático lamentava o pouco envolvimento dos jovens: “São mais activos na Internet que na vida real. Não estão interessados em política. Quando distribuímos os panfletos os jovens não os aceitaram”. Ainda assim, Sou contava com os votos “da classe mais baixa”, tradicionalmente apoiante de Au.

Jason Chao chegou um pouco mais tarde à Calçada de Santo Agostinho. A noite tinha sido passada a criar a página de Internet que deu, em primeira mão, os resultados eleitorais. Apesar de não serem definitivos, os números da Novo Macau – que se fez valer de membros em cada assembleia de voto que reportavam os dados aos colegas na sede – chegaram muito antes dos oficiais e foram, até ao inicio da madrugada, utilizados pelos meios de comunicação.

“Estou ansioso”, confessava antes dos primeiros resultados. Chao admitia que a estratégia das três listas trazia riscos: “Todos têm de arriscar. O importante para nós é ter uma lista separada, uma plataforma. Não estou à procura de um emprego”. Pouco depois destas declarações, o programa da ANM contabilizava os primeiros números, vindos de Coloane. Os Liberais arrecadaram apenas 18 votos.

Scott Chiang, número dois da lista, não deu sinais de desânimo. “É uma posição boa. Os resultados são melhores que antes.” Chiang voa hoje para Taipé, onde estuda, com a certeza que não terá de fazer as malas à pressa – ainda não é desta que há um lugar no hemiciclo à sua espera.

A anunciar os resultados a par e passo esteve Gino Lei, número três de Au Kam San. Às 23h45, apesar de “nervoso e cansado” mantinha esperança. “Cinco é difícil, mas quatro acho bastante possível. Se elegermos menos de três quer dizer que não nos apoiam tanto ou que esta foi uma má estratégia”, comentou.

 

“Vamos assumir esta responsabilidade”

 

À medida que os resultados evidenciavam a má prestação da ANM, o ambiente eufórico na sede dos pró-democratas foi sendo substituído por consternação. A sala abarrotava de gente, mas poucas vozes se sobrepunham à de Gino Lei, que anunciava os votos por assembleia.

De olhos presos ao ecrã do computador, Jason Chao foi ficando sem cor. “Vamos perder Chan Wai Chi”, comentou, visivelmente desiludido. Mais tarde, os resultados oficiais confirmaram uma diminuição de 16 por cento nos votos cedidos à Novo Macau.

Dividir a associação em três listas foi uma má estratégia? “É muito difícil estimar que factores influenciaram os resultados. Eu e Chan Wai Chi vamos assumir esta responsabilidade. Mas como activista, vou manter-me no caminho, vou continuar a ser liberal e progressista. Achamos que é importante que um grupo de jovens concorra à Assembleia Legislativa, com uma plataforma que nós criámos, com questões que nos preocupam.”

Sozinho num pequeno quarto silencioso e debaixo de um ar condicionado de temperaturas terrivelmente baixas, o mais polémico dos cabeças de lista da ANM não recuou nas convicções: “Queremos uma ANM mais diversa. Em alguns assuntos, como as questões LGBT ou dos trabalhadores migrantes, não concordamos e por isso fez sentido concorrermos separados. Se pudesse voltar a escolher, faria o mesmo”.

Apesar das palavras, Chao mal levanta os olhos do chão. “Respeitamos a escolha das pessoas. Vamos rever a forma como trabalhamos”, comentou. O seu lugar como presidente da ANM deve manter-se até Junho de 2014, quando o mandato chega ao fim – e que, de qualquer maneira, não poderia voltar ser renovado. Chao prometeu consequências para estes resultados mas não concretizou.

“Acreditamos que as questões que levantámos vão ajudar Macau a ser mais progressista. Queremos o melhor para Macau. Não vou mudar drasticamente a forma como trabalho”, garantiu.

 

“Uma lição para os mais novos”

 

Se Jason Chao viu frustrado o sonho de conquistar um lugar no hemiciclo, Chan Wai Chi perdeu, efectivamente, a cadeira que assegurou em 2009. “Fico desiludido com a descida de votos na ANM. Pessoalmente, perco a eleição mas respeito a decisão dos eleitores”, reagiu.

Chan não atribui o mau resultado à divisão em três listas. “Não conseguimos satisfazer os eleitores, não fizemos o suficiente por eles”, lamentou.

Quanto à nova composição da Assembleia Legislativa, onde o sector empresarial está agora mais presente, bem como as ligações ao Continente, Chan acredita que não se manterá assim por muito tempo: “Daqui a quatro anos há mais uma mudança. Quando as pessoas virem o trabalho desta Assembleia vão acordar”.

Tal como Chao, o pró-democrata assume responsabilidade pelos resultados eleitorais, mas manifesta-se tranquilo. “Vou seguir o meu caminho. Sou católico. Deus deu-me estes quatro anos e vai dar-me agora uma nova missão. Fico à espera do Seu chamamento”, assumiu.

Menos sereno estava Ng Kuok Cheong. Apesar de ter mantido o seu assento, o deputado chamou a atenção para a necessidade de reflexão. Olhando apenas para os números, dividir a associação em três listas “foi um erro”, admitiu. “Mas não acho que fizemos mal. Devemos dar lugar aos mais novos para que tragam novas questões”, ressalvou. “Acho que fizeram bem em concorrer e trabalharam muito. Mas temos de aprender com a realidade. Foi uma lição para os mais novos”, frisou.

Ng apontou o dedo às listas que “ofereceram benefícios materiais” em troca de votos mas salientou que esse é um caminho que não dará frutos “a longo prazo”.

No final de uma noite eleitoral com expectativas frustradas, Ng falou de um novo rumo a seguir: “Temos de pensar como combinar a nossa ideologia com a realidade de Macau”.

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