Andam à procura das “raízes da arquitectura” e esperam encontrá-las deste lado do mundo. Sérgio Andrade e António Duarte partiram, em Março, de Portugal e vão estar até Agosto a viajar pela Ásia. No regresso, esperam transformar o seu projecto, o Infinisterra, não apenas num gabinete de arquitectura, mas num think-tank para pensar o mundo.
Inês Santinhos Gonçalves
Queriam encontrar a essência da arquitectura e vão no bom caminho – Sérgio Andrade e António Duarte chegaram à Ásia em Março e já contam com “700 gigas de informação”. Desiludidos com o rumo da arquitectura ocidental, despediram-se e começaram a planear uma viagem que quase se pode dizer de investigação. Procuram “ver outras coisas, ter outras experiências” e, com elas, contribuir para um modelo onde a arquitectura se concretize como “um serviço social”. Ontem passaram por Macau.
“Isto surgiu da desilusão com o caminho que o mundo da arquitectura está a seguir. É um mundo em que se pensa mais em números que nas pessoas. Decidimos voltar às raízes da arquitectura. Na Europa não estudamos muito a Ásia e é aqui que está a base de muitas civilizações. Para fazermos alguma coisa original temos de ir à origem. Quanto mais para trás formos, mais armas temos para transformar o futuro”, explica Sérgio Andrade.
Para este arquitecto de 27 anos, os profissionais mais jovens estão a cometer um erro ao buscarem inspiração apenas nos arquitectos mais velhos. “O que acaba por acontecer é que nunca vão às bases da arquitectura e da arte”, aponta.
A viagem começou em Veneza – e não escondem a curiosidade para verem a reprodução que por cá se fez – mas daí saltou para a Rússia, Mongólia e China. Daqui partem para o Nepal, Índia e Sri Lanka. Por onde passam escrevem, filmam, fotografam e gravam som. “Queremos guardar estas memórias para servirem de influência. Temos armas muito boas para transformar o que recolhemos. A informação que recolhemos é original, não é processada de outra informação”, refere Sérgio.
Ao regresso esperam conseguir transformar o Infinisterra – já marca registada – em algo palpável. “Já temos algumas exposições apalavradas. O interessante era conseguirmos publicar alguma coisa e fazer um documentário com uma visão crítica do que é a Ásia hoje. Sobre quais são as ligações invisíveis entre a Ásia e o Ocidente”, avança António Duarte. “O Infinisterra vai acabar por ser um gabinete de arquitectura, mas queremos que seja mais que isso, que se torne um centro para as pessoas se encontrarem e partilharem experiências. Uma espécie de think-tank, uma plataforma de conhecimento”, especifica Sérgio.
Nesta viagem pela Ásia, os dois amigos buscam ideias “para melhorar a vida das pessoas”, uma função que, apesar de esquecida, sempre esteve associada à arquitectura, garantem. “A arquitectura é um serviço social. Fazemos parte de uma disciplina tão antiga como o Homem e que sempre foi feita para servir a sociedade. Agora está-se tudo a borrifar para isso, claro, querem é fazer dinheiro. Mas o que temos visto, estes arranha-céus, é uma mentira, isto não é arquitectura. A arquitectura serve para resolver problemas urbanos e sociais. Acreditamos que a arquitectura tem capacidade para resolver muitos problemas da humanidade”, afirma António.
E é com isto em mente que têm estado atentos aos que os rodeia, matutando em formas simples de solucionar problemas. Uma dificuldade que prendeu a sua atenção é a do transporte de mercadorias, com recurso a pequenos veículos a pedais, que muitas vezes implicam grande esforço por parte de quem os conduz. “Se calhar podia ser mais fácil, se tivessem um design diferente. Podia arranjar-se uma maneira para que o riquexó fosse mais bem utilizado”, exemplifica Sérgio.
Contra a Macau instantânea
Chegados a Macau, depois de cerca de um mês na China Continental, a dupla critica o “descontrolo” arquitectónico e lembra que há consequências para esta forma de ocupar o espaço. “As fábricas, por exemplo, estão super mal situadas, vimos rios e campos de cultivo poluídos, do interior até às grandes cidades. E estão a emular todas as coisas más do Ocidente: a ostentação dos carros, da roupa, o gastar dinheiro de maneira estúpida”, aponta António.
A dupla acusa alguma desilusão com o grau de influência – negativa – do Ocidente, em especial ao chegarem ao sul da China. “Quando chegámos a Hong Kong, apaixonámo-nos pela cidade e pela monstruosidade de algumas coisas, por aquele cenário futurista que é muito inspirador. Mas duas horas depois detestámos a cidade. Fomos sair à noite e vimos que Hong Kong está cheio de ocidentais – e os ocidentais que ali estão são a Europa de que fugimos”, lamenta Sérgio.
Ao início da tarde de ontem, António e Sérgio não tinham ainda uma ideia formada sobre Macau. As pré-concepções não eram as melhores, mas esperavam encontrar algo que as contradissesse – a Macau fora do jogo. “Temos uma ideia pré-concebida de Macau, de que é uma cidade instantânea, onde tudo é rápido, a Macau dos casinos, um sítio de passagem que não é buscado por motivos culturais”, aponta Sérgio. A cidade, diz o arquitecto, deve saber proteger-se.
A magia das malhas antigas
E perante uma Ásia em constante, e por vezes agressiva, mudança, como preservar a identidade urbana? “Tudo o que se conseguir agarrar do passado de uma cidade para transportar para outras gerações, é de valorizar. As cidades modernas estão a perder a magia das malhas antigas”, alerta António.
Os dois arquitectos alertam para o perigo da ‘modernização’, lembrando que as avenidas largas e os espaços octogonais devem existir quando há base histórica para tal – caso contrário são traços impostos.
“O Le Corbusier dizia que temos de encontrar uma nova liberdade, mas as pessoas encontraram foi maneiras de se prenderem. Se isto não for travado e não se começar a dar um contexto maior à formação das pessoas, vai parecer que estamos sempre dentro de um centro comercial de aeroporto”, avisa.
Sobre a reabilitação de zonas antigas – como os pátios dos bairros tradicionais de Macau – o arquitecto de 29 anos sugere que seja feita de forma integrada. Ou seja, podem ser reconvertidos em novos espaços habitacionais ou em zonas destinadas às chamadas indústrias criativas, desde que isso não se faça em exclusividade. “Deve ser tudo misturado. Uma coisa que se percebeu com o racionalismo é que o zoneamento dentro das cidades não funciona. Ter-se uma zona cultural, uma zona de habitação, uma de serviços, não funciona. As coisas têm de ser sempre misturadas”, explica.
Essas reconversões devem também ter em conta a população original, não subvertendo a sua essência: “Acho bem que se criem zonas culturais mas não é para virem os betinhos tomarem cafés a três euros num bairro onde vivam chineses que vendiam as suas coisas. Se querem fazer espaços culturais, arranjem condições para que as pessoas continuem a vender os produtos delas com mais condições. Isto está a acontecer em todo o lado e é uma desgraça, mais vale deixar as coisas como estavam”.
