O caso aconteceu no passado dia 14. Uma residente, com experiência profissional em cuidados veterinários, tentou prestar socorro a um gato. Um agente da polícia impediu-a, ao abrigo de normas internas de serviço, justifica a PSP.
Maria Caetano
Uma residente alega ter sido impedida por uma agente da Polícia de Segurança Pública de prestar socorro a um animal doméstico, um gato que acabaria por morrer sem qualquer cuidado veterinário depois de uma longa discussão. Vai ser apresentada queixa do caso, através da ANIMA – Sociedade Protectora dos Animais de Macau.
Na discussão, com início cerca das 20h, de acordo com esclarecimentos da queixosa e da PSP, o polícia entendia que o animal estava morto e devia ser recolhido por técnicos do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), enquanto a mulher, com experiência profissional na área da medicina veterinária, insistia que o gato estava vivo e precisava de assistência médica.
O caso acabou na esquadra já passava da 1h do passado dia 14. A residente, Deborah Costa, conta ter sido deixada na rua com um cadáver animal nas mãos tanto pelo agente da PSP como por dois técnicos do IACM que chegaram tarde demais ao local.
“A partir do momento em que há alguém a tentar ajudar um animal vivo, não faz sentido haver um polícia a tentar impedi-lo e a fazer tudo o que está ao seu alcance para impedir que se salve uma vida”, alega Deborah Costa. “Se a conduta da polícia é forçar que um animal fique a sofrer até morrer, estamos mal. Há que repensar toda esta sociedade”, desabafa.
Segundo esta residente, antiga voluntária da ANIMA e assistente numa clínica de veterinária local, “o agente tinha enfiado na cabeça que o animal estava morto”. Não estava. E constatar o facto não bastou para que permitisse o socorro. Foi preciso aguardar pela chegada de dois funcionários do IACM, um homem e uma mulher.
“Perguntei se a funcionária era médica, ela disse que não. Portanto, disse que tinha de levar o animal a um médico e que assumia a responsabilidade, que o animal era meu”, conta Deborah Costa. Foi impedida.
“Não me deixou arrancar com o carro. Não deixou os táxis pararem, até ao ponto em que o animal me morreu nos braços. E, no final desta actuação, que é o mais contraditório, vai-se embora a polícia, vai-se embora o IACM, e deixam-me com um cadáver nas mãos”, descreve.
Seguir os procedimentos
A versão da PSP não nega o impedimento à prestação de socorro, mas a corporação defende que o agente estava a cumprir normas de serviço internas. De acordo com estas, “os agentes são aconselhados a transferir este tipo de casos para os serviços competentes (IACM) para acompanhamento, uma vez que são responsáveis e profissionais no tratamento de animais doentes e em lidar com animais mortos cujo dono está ausente. Assim, neste caso, o agente em causa seguiu efectivamente os procedimentos estabelecidos, até a mulher revelar que era dona do gato”, informa a polícia em resposta a este jornal.
Segundo a PSP, “o agente explicou à mulher que o pessoal do IACM estava a caminho para lidar com o gato, sendo ela por isso impedida de o levar”.
“O cumprir das normas faria sentido se o animal fosse um cadáver, que não era”, entende a residente. “Depois, no final, quando o animal se transforma num cadáver, vão-se embora. É incrível”.
A descoberta do animal em agonia foi feita pela polícia às 20h do passado dia 14, numa rua próxima do Pátio da Cordoaria, nas traseiras do Leal Senados. Após a altercação, a morte do animal, e ter sido deixado sozinha com o cadáver, Deborah Costa chegou à conclusão que não poderia ser ela a dispor do cadáver do gato de acordo com a lei. Foi então que se deslocou à esquadra da PSP.
“Já depois da 1h, voltei a polícia e levei o animal. Perguntaram-me o que é que eu queria fazer. Disse-lhes que era ilegal eu ir enterrar um animal. Aí, concordaram. Expliquei-lhes que era preciso telefonar para o IACM. Voltaram lá os mesmos trabalhadores, aos quais pedi que se identificassem. Tive de bater o pé quase uma hora para ter a identificação”, alega. Na resposta ao PONTO FINAL, a PSP não comenta este ponto.