É da relação imaginada com o Oriente que nasceram os 31 quadros que integram “Viagem ao Império do Meio”, do pintor Guilherme Parente. A Macau liga-o um tio, de quem guarda o espólio, e as memórias da última visita, em 1995. Parente, que faz “pintura-pintura”, não dispensa as telas, as tintas, os cavaletes, mas aceita que as novas técnicas são “a continuação”. Pintará, conta-nos, até ao fim, porque “a reforma é a pior coisa que existe”. “Viagem ao Império do Meio” inaugura hoje, às 18h30, na Casa Garden.
Inês Santinhos Gonçalves
– O que nos traz neste regresso a Macau?
Guilherme Parente – Esta é a segunda exposição que faço em Macau. Fiz uma em 1995, também na Casa Garden. E agora, tinha uma colecção que achei que tinha relação [com Macau] e vim. São 31 trabalhos, alguns de grandes dimensões. Os quadros estão muito ligados ao título da exposição, “Viagem ao Império do Meio”. Tive sempre uma relação com o Oriente, mais imaginada do que real. O real é diferente, mas o imaginário para mim é muito interessante.
– São trabalhos novos?
G.P. – São. Os que trouxe da outra vez já não são meus há muito tempo. Em Portugal, sou dos pintores mais antigos, dos que vivem da pintura. Comecei a fazer integralmente vida da pintura quando tive uma bolsa e fui para a Slade School, em Londres, em 1968. Sempre fiz pintura, desde pequenino, mas tive sempre o sentido de que gostaria de a seguir como vida. Tive sorte porque consegui, apesar de muitas dificuldades.
– Nunca parou de pintar, até agora?
G.P. – Não. Tive já vários ateliers e agora tenho um no Palácio da Azambuja, na zona do Chiado, mesmo na esquina do elevador da Bica. Tenho lá dois andares grandes há mais de 20 anos.
– Sempre teve este interesse pelo Oriente?
G.P. – Sim, isso acompanhou-se sempre. Tinha, aliás, um tio macaense que era director da sociedade nacional de Belas Artes. Ele era pintor e eu herdei o espólio dele.
– Os seus quadros incluem sempre elementos que remetem para um universo fantástico, de sonho.
G.P. – Não tenho explicação para isso. As coisas vão acontecendo. Tive sempre muita liberdade na pintura. Tive um grande mestre, Roberto Araújo, que me acompanhou e me deu sentidos interessantes para a libertação da pintura.
– Conseguiu viver sempre da pintura. É hoje mais difícil fazê-lo do que há 30 anos?
G.P. – Actualmente há uma certa quebra, mas acho que as coisas vão melhorar. Lembro-me que quando comecei era dificílimo. Havia certos nomes, um grupo muito restrito. Eu era muito jovem. Contavam-se pelos dedos os que iam às exposições. Havia um grande entusiasmo, as exposições eram em espaços devolutos, sem condições, os catálogos eram folhetos, mas aquilo era importante, para mim e para todos. Nesse grupo, 12 ou 13 pessoas viviam da pintura, estabelecidas. E depois havia um grupo de gente mais nova que não estava enfeudada à arte que o Estado iria encomendar, um grupo bastante independente e era a esse que pertencia. Lembro-me de, nessa altura, quando vim de Inglaterra, ter feito uma lista de entidades a quem vender. Desse grupo todo, ninguém comprou. Mas depois surgiram outros que compraram, que não eram desse grupo estabelecido. Nesse período tive um certo sucesso. Mas depois aconteceu o 25 de Abril e houve uma quebra bastante grande, foi um período difícil, já tinha três filhos. Mas fui sempre vendendo, nunca foi uma quebra absoluta.
– É preciso manter sempre os olhos no estrangeiro?
G.P. – Eu tive sempre interesse, em toda a minha vida. E agora tenho mais facilidade em fazê-lo.
– Essas experiências são reflectidas no seu trabalho?
G.P. – Com certeza que reflicto. Tudo o que vejo está lá. Posso é não fazer o boneco. Por exemplo, as Ruínas de São Paulo aparecem, mas de outra maneira. Na cor, em tudo.
– Macau está, então, presente?
G.P. – Está. Já da outra vez ficou com presença. Mas não é uma presença através da pintura que reproduz o natural. Na minha pintura há muita paisagem mas não pode ser legível como sendo aquilo. Esse barco não é um barco, e o mar é o mar à minha maneira. É a transformação do que eu vi e do que tenho visto. Já apanhei tantas teorias pelo caminho, mas faço sempre o que vou pensando, não posso fazê-lo de outra maneira. Nunca fui de modas. Primeiro era a pop-art, depois a arte pobre, depois a arte não-sei-quê. Eram tudo ciclos que muitos pintores meus amigos iam apanhando e iam criando conforme as evoluções. Claro que recebi influências, assisti essas evoluções, ia sempre ver. Mas tinha uma coisa que depois me passou. É que, às vezes, íamos ver determinados artistas que estavam na nossa mente como casos excepcionais e quando ia ver essas exposições ficava quase obrigado a ver aquilo como um caso de grande pintura. Depois comecei a sentir que aquilo já não tinha que ver comigo. E agora tenho liberdade total, seja qual for o grande pintor que esteja nos píncaros, de achar que não me interessa nada. Foi uma coisa muito boa que aprendi na vida. Naquela altura era complicado, toda a gente a fazer uma vénia e eu sentir que não gostava muito.
– Essa capacidade é uma coisa que chega com a idade?
G.P. – Não. Há pessoas muito novas que conseguem ter uma visão excepcional. Eu não sou excepcional por isso demorou muito tempo.
– Como é que olha para o trabalho que está agora a ser feito pelas universidades, por exemplo, pela Faculdade de Belas Artes?
G.P. – Há uma grande diferença nos meios. Eu uso sempre a tela, a madeira, o que for. As tintas, os pincéis, cavaletes. Faço pintura-pintura. Ou se é pintor ou se é artista plástico. Mas agora já não há as tintas, nem os pincéis nem os cavaletes, é quase tudo em computador.
– Afastaram-se do essencial?
G.P. – Não estou contra nada. Faço o que quero. Ali é uma outra coisa, é uma arte plástica, que terá o mesmo valor, com certeza. É diferente, a tinta é escolhida por computador, não é preciso ter tubos. Não quero voltar para trás. Se há esses meios eles devem ser utilizados, só assim é que se transformam as coisas. O pintor é normalmente esse que pinta, em que a mão está ligada ao pincel, ou à espátula ou ao dedo. Mas é tudo discutível, podia ter aqui ao lado uma pessoa que contrariasse o que estou a dizer. É uma continuidade. Para mim, isto não tem qualquer interesse. O meu método chega-me totalmente. É como o conceito de ‘artista contemporâneo’, é uma confusão completa. Eu sou um artista contemporâneo e serei enquanto estiver vivo, só deixo de ser quando morrer. Não é por fazer umas coisas consideradas modernas ou não modernas que sou um artista contemporâneo. A minha linguagem é com certeza contemporânea. Nunca fiz parte de conselhos técnicos para escolhas de artistas. Fui convidado muitas vezes mas nunca quis. Dizer ‘esta arte é boa, ou é má’, nunca poderei falar nisso. Não julgo os outros artistas. Cada um faz com sentimento. Eu gosto ou não gosto.
– Mas não há arte boa ou arte má? Ou arte e não-arte?
G.P. – Não posso dizer isso. As pessoas que a fazem é que podem dar uma resposta. Eu não posso. Tenho esta maneira.
– Pensa em deixar de pintar?
G.P. – Não há reformas, enquanto puder pintarei sempre. Reforma é a pior coisa que existe. Se a pessoa gostar do seu trabalho, claro.
– Pinta que com frequência?
G.P. – Não tenho frequência. Vou todos os dias ao atelier. Porque pintar não é só estar a pintar, é estar com os amigos e estar ligado a estas coisas, falar sobre isto, discutir, ter grupos, ir a exposições. É tudo, é viver. A pintura é viver. Às vezes perguntam ‘quanto tempo demoraste a fazer este quadro?’, eu sei lá quanto tempo, tenho quadros que comecei há muito tempo, depois guardo-os e de repente pego neles, e uns que não gostava nada passam a ser os que gosto mais. Mas tenho bastantes quadros. Tenho muita pintura e tenho vendido muito. Mas acho muito importante um pintor ter a sua obra, ir guardando, quando pode.
