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Comer bem é viver mais e melhor

Dezembro 19, 2012

Maria-Isabel-Toulson-002Maria Isabel Toulson, portuguesa nascida em Angola, vive à 35 anos no Brasil, impondo-se em Minas Gerais como uma cirurgiã de renome. Mas foi nos estudos revolucionários sobre nutricionismo hospitalar que se tornou uma referência mundial. Ensina os doentes hospitalares a alimentarem-se correctamente, aumentando a taxa de sobrevivência e diminuindo os custos do tratamento. Passou por Macau, vinda da China, onde desde 2002 dá palestras num país que acelera brutalmente o conhecimento científico. A medicina tradicional chinesa, diz, tem um grande valor, sobretudo na relação próxima entre médico e paciente, que se perdeu no Ocidente. Nada tem contra a fusão dos dois mundos, mas deixa o alerta aos naturistas e amantes da homeopatia: “Quando estamos seriamente doentes, temos mesmo é de nos tratar”. Porque aí, o poder da mente, dos pós ou das ervas, já de nada nos serve.

Paulo Rego

- Porque é que uma cirurgiã de créditos firmados focou os seus estudos no nutricionismo?

Maria Isabel Toulson - Sou professora catedrática de cirurgia, mas a minha linha de pesquisa é a nutrição. Porque a nutrição artificial, que não é feita por meio de comida, seja ela por um cateter no nariz ou no intestino – entérica -, seja por via intravenosa – parentérica – foi desenvolvida precisamente porque os pacientes não podem ou não conseguem comer o que precisam.

- É isso que chamamos estar a soro?

M.I.T. - É diferente. O soro é só água e alguns minerais. E esta nutrição oferece praticamente tudo. E isso é muito importante porque, para além da desnutrição provocada pela doença, há ainda aquela que é gerada pela sociedade, porque as pessoas comem muito e mal. Já não vemos muito aquelas pessoas muito magrinhas, tipicamente desnutridas. Vemos agora os obesos, que têm excesso de gordura e falta de nutrientes essenciais como vitaminas, as proteínas e os minerais. Como cirurgiã, os meus pacientes precisam desse equilíbrio; por isso enveredei pela terapia nutricional.

 

- Só em ambiente hospitalar?

M.I.T. – Não, o campo foi sendo muito alargado. Trabalho em projectos de extensão, na Universidade de Minas Gerais, que vão desde ajudar crianças a comerem em creches, a ensinar os pais a prepararem a comida, passando por exemplo por projectos em asilo. As universidades no Brasil são muito estimuladas a criarem esses projectos, porque temos o nosso papel social.

 

- É também uma questão de saúde pública…

M.I.T. – Sabemos hoje que a falta de comida ou o excesso de comida está relacionada com muitas doenças, como os diabetes, a obesidade, a pressão alta (de forma indirecta, pois piora em quem não souber comer), os cancros (o cancro de mama depois da menopausa tem a ver com a obesidade, o cancro do intestino está relacionado com a comida)…

- É verdade que a má nutrição cria também sociedades mais depressivas ou mais  stressadas?

M.I.T. –Isso é um grande exagero. A nutrição não é milagrosa, faz parte de um equilíbrio; e o comportamento faz parte também desse equilíbrio. Salvo raríssimas excepções em que não foram diagnosticadas doenças que dificultam a digestão de alguns componentes alimentares, os desvios de comportamentos têm outras explicações.

- O excesso de glúten não afecta o comportamento das crianças?

M.I.T. – Isso é muito folclórico. Há uma linha de tratamento da obesidade que se baseia na retirada do glúten. Claro que a pessoa emagrece, mas porque lhe são retiradas as farinhas, os cereais, as massas e o arroz, que é onde está o glúten. Bem, se lhe tiram todos os carboidratos claro que vai emagrecer, mas não é porque lhe tirarem o glúten.

- Comportamentos aparte, as sociedades são mais doentes se comerem mal?

M.I.T. – Claro! A má nutrição tem o papel importante no equilíbrio de uma sociedade, que vai da a fome, por total ausência de comida, até à obesidade, por absoluto excesso.

- O mundo continua dividido entre a fome e o excesso?

M.I.T. – O excesso hoje começa a predominar, mesmo nos países em desenvolvimento.

- Já há problemas de obesidade na China?

M.I.T. –Não tenha dúvidas! Mas também há Brasil. Cheguei lá há 35 anos e quando andava pela praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, achava os corpos daquelas mulheres simplesmente esculturais. Há dois anos atrás estava a observá-las e pensei: Caramba! Os corpos esculturais foram embora; o que tenho aqui são gordinhas. No relatório que li no Brasil verificou-se uma taxa de obesidade de cerca de 30 por cento e uma taxa de obesidade em excesso que já rondava os 15 por cento. É interessante verificar que os extractos sociais onde há mais obesidade estão nas classes mais baixas.

- Como é que isso se explica?

M.I.T. – Primeiro, houve uma mudança de poder aquisitivo nos últimos anos, e os maus hábitos alimentares difundiram-se; depois, não há o culto da prática do desporto. Mas há uma terceira explicação científica, que é o paradoxo da obesidade em crianças que, intra-útero, e na infância, foram desnutridas. Está demonstrado que quem passou fome no início da vida tem mais tendência para sofrer de obesidade. É a chamada síndrome metabólica.

- Como é que explica, em poucas palavras, o que é comer bem?

M.I.T. – Respeitando a diversidade de hábitos alimentares em toso o mundo, precisamos de ter aquilo a que chamo um prato colorido e o mais natural possível: salada de alface, tomate, pepino, cenoura… e pelo menos três frutas frescas por dia, que têm de ser variadas. Aliás, a variedade é o conceito básico da boa alimentação.

- Os legumes não têm o mesmo efeito?

M.I.T. – São importantes, sobretudo os legumes acima da terra, como as couves e os bróculos. E de preferência cozidos no vapor, porque quando são cozidos em água perdem muitas propriedades.

- E a carne?

M.I.T. – Depois um pedaço de 100 a 150 gramas de peixe ou de carne, que pode  ser de vaca, de porco, de pato ou de frango…

 

- É um mito dizer que a carne vermelha faz mal?

M.I.T. – Nós precisamos de carne vermelha, porque é onde está a vitamina B12. Já tratei pacientes vegetarianos que me chegam fracos e cansados. Antes das análises e de dosar as vitaminas já sei logo que há deficiência de vitamina B12. O problema da carne vermelha é a gordura; logo, como tudo na vida, é o preciso saber doseá-la e não abusar, mas ela é essencial numa boa alimentação.

- Saladas, peixe e carne sempre a variar… E que mais?

M.I.T. – Depois vêm os creiais, o arroz, as batatas e as massas. Aí, a quantidade tem de ser menor. Ainda que tenham algum valor, porque dão alguma sustentação, são os mais pobres, compostos essencialmente por calorias.

- Há muito o hábito dos cereais de manhã, inclusivamente para as crianças. É um erro?

M.I.T. – A maioria dos cereais industrializados são vazios do ponto de vista nutricional; têm sobretudo muito açúcar e muitos hidratos. O ideal ainda são os cereais integrais, como o farelo e o gérmen de trigo.

- Se calhar variar, dando cereais num dia e fruta no outro?

M.I.T. – A fruta é muito mais importante. Há uns cerrais, como eu estava a dizer, que são ricos em fibras e são mais complexos. Os outros, industriais, elevam rapidamente o pico da glicose no sangue, o pâncreas produz insulina rapidamente e os alimentos são logo digeridos. Ou seja, vou ter fome mais cedo. É o chamado índice glicémico dos alimentos: quando mais alto é, maior é o pico de insulina e a probabilidade das pessoas tenderem a ser obesas.

- Esse índice glicémico é fácil explicar às pessoas?

M.I.T. – Para um leigo, ensino assim: coma alimentos naturais, porque o índice é geralmente baixo. Mesmo algumas frutas, que têm um índice glicémico alto, se forem comidas com casca isso é anulado, porque as fibras das cascas baixam os níveis de absorção.

- Podemos resumir o que é uma boa refeição?

M.I.T. – Um prato cheio de salada, uns 150 gramas de carne, três frutas frescas por dia, de preferência comidas com cascas, meia chávena de cereais integrais e, por último, no topo da pirâmide alimentar, os doces e os cereais, o arroz, as massas, o pão. Antigamente esses alimentos estavam na base da pirâmide, mas ela tem de ser invertida.

- Hoje quase toda a gente come mais que isso ao longo de um dia.

M.I.T. – Estou a falar de quantidades mínimas por dia, mas o problema não está só na quantidade. As pessoas misturam muitas variedades de carne; misturam arroz, massa e batata; depois comem reboçados, chocolates, bolachinhas… É tudo supérfluo e um forte factor da obesidade.

- Pata além da gula, a comida também é festa e sociabilização. Pode-se abusar de vez em quando?

M.I.T. –  Não descuro a socialização através da comida. Sou contrária àqueles que estão numa festa e não comem porque a comida é gorda. O que importa é equilíbrio. À segunda-feira temos de trabalhar, acordar cedo, levar as crianças à escola… Temos uma vida regrada e, de segunda a sexta-feira, a nossa alimentação e a prática de desporto devem também ser regrados. Sábado e domingo são dias internacionais da preguiça e da comilança. Não pode é ser todos os dias.

 

 

 “A China vive uma explosão científica”

 

 

 

- Como é surge o seu interesse pela China e o interesse da China pelos seus estudos?

M.I.T. – Eu trabalho muito com a chamada desnutrição hospitalar. Basta termos uma gripe e não queremos comer; agora imagine uma pessoa com cancro. Esse emagrecimento, que numa pessoa obesa é óptimo, numa pessoa doente aumenta as complicações. Uma pessoa desnutrida tem quase o dobro de infecções, a taxa de mortalidade é três vezes mais, fica no hospital 50 por cento mais tempo e custa ao sistema muito mais.

- Foram as suas teses nessa área que a trouxeram à China.

M.I.T. – Em 2001 publiquei o meu primeiro trabalho sobre desnutrição hospitalar; depois, em 2003 demonstrei que, considerando o hospital apenas como um hotel – sem ter em conta o pessoal hospitalar, os medicamentos, a maquinaria… o paciente desnutrido custa ao sistema mais 67 por cento do que um nutrido, porque fica lá muito mais tempo. Comecei então a ser convidada para ir a todo o lado e explicar a minha experiência nessa área. O que aconteceu na China, é que quando somos convidados uma vez e as pessoas gostam da nossa prestação, acabamos por ser convidados novamente. Na conferência que dei  agora em Cantão, disseram-me logo que me querem de volta para o ano, no congresso médico que vai ter lugar em Xian. Estou a divulgar os conceitos da desnutrição hospitalar; como se previne, o seu diagnóstico, o seu combate, como se trata… Esta última viagem foi promovida por uma companhia que acabou de lançar na China um produto que combate a desnutrição.

- Propaganda médica?

M.I.T. – Eu não falo sobre produtos, falo do problema. E também trabalho com alguns nutrientes específicos que nos ajudam a modular o estado imunológico do paciente, para que ele esteja melhor preparado para a operação.

- Qual é o interesse dos chineses por estas áreas?

M.I.T. – É muito grande! Aliás esta é uma área de interesse mundial. Qualquer trabalho que possa reduzir complicações, aumentar a taxa de sucesso em cirurgias, e diminuir os custos, é de interesse generalizado. E eu tenho uma linha experimental na qual trabalho muito com animais. Por isso sou muito convidada a falar sobre isso, também na China.

- Quando foi a primeira vez que foi convidada para dar palestras na China?

M.I.T. – Em 2002

- Dez anos depois, encontra a mesma China?

M.I.T. – É outra China! A primeira cidade que visitei nessa altura, ainda em turismo, foi Pequim. Aí ainda revejo um pouco dos hábitos das pessoas e da arquitectura. A segunda cidade a que fui foi Cantão. E hoje, quando lá volto, pergunto que cidade é aquela, que já não conheço. Já nem sei fazer o caminho para Macau e Cantão, que conhecia tão bem.

- A minha pergunta ia mais no sentido médico e científico…

M.I.T. – Estão a crescer um horror! Atenção que é um termo positivo. Sou editora de uma revista científica  norte-americana (Nutrition) e recebo um bombardeio incrível de trabalhos chineses. A China vive uma explosão científica enorme e o dinheiro está a aparecer de tudo quanto é lugar. No Brasil já publicávamos antes da China, mas continuamos com muitas dificuldades em publicar trabalhos de ponta. Os chinesas publicam muitas coisas de ponta, como os americanos.

- Os colegas que encontra são formados na China ou no estrangeiro?

M.I.T. –Os mais velhos formados na China e os mais novos já muito lá fora. Um dos problemas para perceber o que se passa na China continua a ser o grande complicador que é lmicos ﷽﷽﷽﷽ ées um problema de di..m relaçital e, pelo menos um amigo, que a polas de ponta. Os chinesas publicam coisas de pontaíngua. Mesmo aqueles que já saíram e voltaram, têm uma tremenda dificuldade em explicar detalhes. Tentei por exemplo saber de onde vinham as verbas para as publicações… Mas não consegui.

- Não será antes uma questão de discrição política?

M.I.T. – Não, não acho; é mesmo um problema de língua. Conversámos sobre a liberdade de imprensa, a corrupção… E até onde conseguem explicar, explicam. O problema é que as pessoas mais jovens, que falam melhor inglês, estão mais ligadas ao marketing do que à área médica. Por isso sinto essa barreira da língua com os meus colegas.

- Tem alguma noção dos hábitos alimentares e  médicos em Macau?

M.I.T. – Não consigo, porque passo por cá sempre muito rapidamente, e no ambiente viciado da casa de um amigo. Não tenho contacto com as pessoas de Macau. Estive uma vez no hospital e, pelo menos à época, achei tudo muito primitivo em relação àquilo que eu já tinha num país em desenvolvimento como era o Brasil.

 

- Qual é a sua ideia sobre a Medicina Tradicional Chinesa?

M.I.T. – Acho que funciona muito bem, porque há conversa entre o médico e o paciente, que é uma coisa que se perdeu na medicina ocidental. Sobretudo nos Estados Unidos, que é uma medicina com base tecnológica e totalmente impessoal, que é a pior medicina que se pode fazer. Mas não sei neste momento como é que a China evolui na relação entre medicina tradicional e a convencional.

- Fala-se numa tentativa de fusão…

M.I.T. – Não vejo mal nisso. Eu sou alopata; ou seja, acredito em remédios. Acho que a homeopatia funciona muito bem, mas só para sintomas. Costumo dizer que os clínicos resolvem tudo mas não sabem nada; e os cirurgiões não sabem nada mas resolvem tudo. Brincadeiras aparte, há lugar para as duas coisas e não nos podemos esquecer desse lado humano da relação entre médico e paciente que se mantém forte na medicina tradicional.

 

- Ervas, os pós, chás, plantas… não lhe dizem nada?

M.I.T. – A cocaína é uma droga, que vem de uma folha. Já mastiguei folhas de coca e, quando se chega a Cuzco, Peru, a mais de 3 mil metros de altitude, dão-nos folha de coca para mascar, porque dão energia e reequilibram. Qual é a diferença entre a coca natural e a industrializada? A concentração em laboratório. Nas drogas que usamos na medicina alopática, os princípios vêm maioritariamente da natureza e são concentrados em laboratório. Por isso não há razão para dizer que a homeopatia não tem qualquer efeito. Mas acho mais importante a relação de proximidade que se constrói entre o médico e o paciente.

- Acreditar que estamos a ser tratados também ajuda?

M.I.T. –  Esse é o chamado efeito placebo. Dou-lhe um tratamento e digo que aquilo faz muito bem; depois dou-lhe um pílula vazia e digo que também faz muito bem. Claro que quem toma o medicamento sente um efeito muito maior. Mas algumas pessoas que não tomaram nada vão reportar também efeitos positivos. Nós somos influenciáveis, senão não haveria marketing.

- E o nosso corpo tem também capacidades próprias de cura?

M.I.T. –   O organismo tem capacidade para se defender de agressões. Por isso que é preciso estar bem nutrido, porque o nossos sistema imunológico, em pessoas desnutridas, está lá em baixo. Agora, quando estamos doentes a sério, a cabeça já não faz nada. O Steve Jobs morreu com um cancro porque não se quis tratar; não conseguia assimilar que alguém  lhe penetrasse o corpo. Era todo naturalista; tinha fases em que só comia frutas, noutras só comia vegetais… Mas quando foi diagnosticado, se tivesse sido operado teria provavelmente escapado. Sei disso, porque me contou um amigo que teve acesso ao tratamento dele. O que é que eu quero dizer com isto? Quando estamos doentes, temos de ser tratados.

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