Macau e os primeiros comunistas

O Lon, Ho Yin e O Cheng-peng. São os três ‘camaradas’ afectos a Pequim que garantiram a sobrevivência da administração portuguesa em Macau durante a Guerra Fria, a Revolução Cultural e o fim do império do Estado Novo. O historiador Moisés Silva Fernandes mergulha nas águas profundas e pouco navegadas da célula do Partido Comunista Chinês no território desde o início.

Sónia Nunes

“A história é muito interessante” e não está toda contada, diz-nos o investigador Moisés Silva Fernandes que, a partir de Portugal, partilha o que encontrou nos telegramas secretos, nas cartas urgentes e nas viagens a Pequim da elite chinesa de Macau durante o tempo do Estado Novo. São as peças para compreender a actividade “crucial” do Partido Comunista Chinês (PCC) durante o tempo da administração portuguesa. E que começa antes da fundação da República Popular da China (RPC).

As primeiras referências a actividades comunistas em Macau surgem em 1922, cinco anos depois da Revolução Bolchevique, na Rússia. Há greves e incidentes graves, que forçaram uma intervenção de Cantão e foram também pautados por “muita violência da parte portuguesa”, recua Moisés Silva Fernandes. Esta é uma das partes da história que está ainda por contar. O certo é que “a situação só melhorou quando as elites locais intervieram na questão de Macau” – como, de resto, parece ter acontecido nas principais situações de crise vividas no território.

Há três homens fundamentais na história de Macau entre 1949, o ano do estabelecimento da RPC, e a entrada no novo milénio: O Lon, Ho Yin e O Cheng-peng, que encerram também o papel do partido no território e são os principais intermediários entre os decisores políticos. O Lon era o director clínico do Hospital Kiang Wu desde 1936 e é tido como o primeiro secretário da célula do PCC em Macau. “Foi um homem muito importante em 1949 porque o Salazar tinha concluído que os comunistas iam acabar com Macau”, apresenta Moisés Silva Fernandes, com vasto estudo sobre o papel do território nas relações luso-chinesas.

Portugal e a China tiveram de relações diplomáticas cortadas durante 30 anos e o historiador identifica dois momentos em que o regime de Mao Zedong tentou reatar – um deles foi em 1949, mas o ditador português manteve-se intransigente. “O PCC avançava na China e chegou a Cantão. Era preciso negociar. Salazar não permita a ninguém que tivesse um diálogo com um partido comunista – era a síntese do regime português”, contextualiza Silva Fernandes.

A administração portuguesa em Macau tinha, portanto, um problema por resolver até porque sabia do caso de Xangai: a cidade foi ocupada pelo Exército de Libertação Popular e a comunidade expulsa. O mesmo podia acontecer em Macau. “O governador de Macau, Albano Oliveira, foi um homem inteligente. Começou a falar informalmente com O Lon”, o “grande interlocutor do PCC, o líder natural em Macau”.

“Quando tentam tomar conta dos territórios vizinhos, chamam O Lon, que leva mensagens da administração portuguesa ao governo comunista de Cantão. Os portugueses dizem-lhe: ‘queremos ficar’. Do lado de lá respondem que podem continuar. Assim foi, de 1949 a 1999: 50 anos”, ilustra Moisés Silva Fernandes. O investigador descreve O Lon como uma figura “importantíssima” aos três anos que se seguiram à fundação da RPC. Era ele a ponte, o canal usado pelo regime comunista para dizer aos portugueses que podiam estar tranquilos em Macau, numa altura em que Lisboa mantinha uma distância política de Pequim e o governo britânico já reconhecia a República Popular.

O Lon é destacado para Cantão em 1951, mas tem um irmão: O Cheng-peng, um revolucionário clandestino em Hong Kong que, em Agosto de 1949, está em Macau para fundar a Sociedade Comercial Nam Kwong, consensualmente descrita como um governo sombra da RPC no território à época.

CIA vê “grupo terrorista” na Nam Kwong

Moisés Silva Fernandes não hesita no destaque: “O Cheng-peng (ou Ke Zhengping) foi o homem mais importante de Macau desde 1961/62 até 2005, o ano da sua morte, aos 94 anos. Era o comunista número 1”. Foi, assumidamente, um dos líderes mais destacados da comunidade chinesa que chegou a fazer parte de uma organização rebelde, a East River que, a partir de Macau, fornecia informação e equipamentos militares.

A descrever a actividade das forças pró-comunistas no território em 1950 está um relatório confidencial da CIA, desclassificado em 1998. A Agência Central de Informações norte-Americana dizia que a célula do partido operava sob a capa da empresa Nam Kwong, e que no “gabinete do comissariado comunista” de Macau trabalhava “uma equipa de doze homens”: “Funciona como um grupo terrorista”. “O seu líder, Liang Pei, também conhecido por YANG Ching-ming, é um trabalhador comunista clandestino com experiência” que, segundo a CIA, conseguiu obter licenças de arma das autoridades portuguesas pela porta do cavalo.

“As funções da equipa de operações são levar a cabo actividades terroristas, como bombardeamentos e assassinatos” e assegurar o “transporte de armas” para as Filipinas, Vietnam e Malásia. As autoridades portuguesas, pode ainda ler-se no relatório da CIA, “indicaram, depois de uma investigação, que o assassinato e os incidentes de bombardeamento em Macau em Maio de 1950 resultaram do trabalho desta equipa. A polícia não tomou qualquer acção, no entanto”.

Liang Pei é também o homem que, acrescenta Moisés Silva Fernandes, é escolhido para presidir à delegação de Macau que, em 1967 e durante a Revolução Cultural, assinou um dos dois acordos que garantiram a continuidade da administração portuguesa no território.

Acabou a festa de anos

Uma das razões (talvez a mais forte) para Portugal e a RPC só retomarem as relações diplomáticas em 1979 é a falta de interesse de Pequim. Não era preciso: os interesses das autoridades chinesas estavam mais que assegurados em Macau através das chamadas associações tradicionais. A prioridade do PCC, explica Moisés Silva Fernandes, foi cooptar os grupos com prestígio político, económico e social.

À frente da Associação Comercial de Macau, da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e da Associação de Beneficência Tong Si Tong está Ho Yin, o pai do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho, homenageado por Portugal com o título de comendador. É já rico e famoso quando, situa Silva Fernandes, entre 1952 e 1960/61, começa a dirigir o PCC em Macau, ganhando o cognome de “capitalista vermelho”, o cargo de intermediário entre Lisboa e Pequim e o estatuto de líder da comunidade chinesa, que manteve até ao ano da sua morte, em 1983.

Ho Yin granjeou prestígio também pela capacidade em resolver crises entre Portugal e a RPC, como aconteceu no sangrento conflito militar junto às Portas do Cerco em 1952. O empresário, que dominava o comércio do ouro, consegue um acordo entre os dois governos, com o apoio de Ma Man Kei à época vice-presidente da Associação Comercial. Foi também este o ano em que o ditador soviético José Estaline tenta inteirar-se sobre a situação de Macau e fica a saber pelo primeiro-ministro Zhou Enlai que “Macau continua, como anteriormente, nas mãos de Portugal”. “A escumalha que se situou na própria entrada da China tem de ser eliminada”, respondeu-lhe Estaline. Mas o regime comunista chinês, anticolonialista, estava determinado em manter os portugueses em Macau. E em reunificar o país de forma pacífica.

A RPC, observa Silva Fernandes, raramente assumiu uma posição pública sobre a questão de Macau. Mas houve episódios, como o 4º centenário de Macau, em 1955. Ho Yin era membro da comissão organizadora da celebração do aniversário. “Ninguém gosta, mas a verdade é que as comemorações foram canceladas”, afirma o investigador, que resume mais um episódio dos bastidores das relações entre Portugal e a China. “O governador de Hong Kong, Alexander Grantham, vai até Pequim onde recebe de Zhou Enlai a informação de que a RPC não autoriza Macau a comemorar o aniversário. E o governo português cede”.

É na sequência deste acontecimento que o Diário do Povo, um dos instrumentos de propaganda do regime, declara abertamente que Macau é território chinês: “O povo chinês nunca se esqueceu de Macau, nem se esqueceu que tem direito a exigir a devolução deste território das mãos de Portugal”. É mais uma crise nas relações entre os dois governos e que é superada, com um novo reforço do papel de intermediário assumido pela elite económica chinesa em Macau. Ho Yin, destaca ainda Moisés Silva Fernandes, era também membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês.

A culpa foi do porta-aviões

Carlos da Costa Freitas, dos Assuntos Políticos do Gabinete do Ultramar, coloca a situação vivida em 1962 nestes termos: “Como toda a gente sabe, em Macau há muitos comunistas e pró-comunistas com os quais temos de coexistir”. Entre este grupo, identifica Moisés Silva Fernandes, começa a ganhar destaque O Cheng-peng, que “é o homem da inteira confiança de Pequim” no território e “assume a liderança do PCC em Macau”.

“Ho Yin perde a posição para O Cheng-peng. Por volta de 1961, dá-se uma coisa muito estranha: Ho Yin compra um porta-aviões e leva-o para Cantão. Mas, lá, descobrem que o preço que ele cobrava era enormíssimo, pouco comunista”, aligeira Silva Fernandes. “Em 1962/1963, o governador António Lopes dos Santos, passa a receber duas pessoas no palacete de Santa Sancha: O Cheng-peng, que trazia o que a China Continental tinha a dizer sobre Macau e duas mensagens, uma de Pequim e outra de Cantão, as autoridades que tinham poder sobre Macau; e Ho Yin, que já não tinha ligações específicas ao partido”, descreve. Porta-aviões à parte, as autoridades portuguesas “davam-se melhor” com o pai de Edmund Ho.

Em 1966, o ano da Revolução Cultural, do assassinato de O Lon e do incidente 1-2-3 em Macau,  é O Cheng-peng que, defende Silva Fernandes, “vai salvar a situação” do território. “É o negociador entre a China e a administração portuguesa que, praticamente não havia, estava a zeros a 3 de Dezembro”, quando um grupo de chineses, muitos pró-comunistas, derrubaram a estátua do Coronel Mesquita e a administração portuguesa declarou a lei marcial.

Vivem-se tempos difíceis em Macau, com a prostração da comunidade macaense e dos britânicos a residirem em Macau. “Em Agosto de 1968, o director adjunto da Xinhua em Hong Kong veio a Macau, com ordens de Zhou Enlai, para acabar com a revolução em Macau e dizer: existem dois princípios. Na China Continental, vigora o sistema socialista; os dois territórios, Macau e Hong Kong, o capitalista”, abrevia Moisés Silva Fernandes, numa referência histórica anterior a Deng Xiaoping.

“A história verdadeira [da década de 60] é contada por O Cheng-peng, que deve ter um espólio tremendo, e por Roque Choi que lhe fazia a tradução nos encontros no palácio”, diz, entusiasmado, Moisés Silva Fernandes. É ainda O Cheng-peng que vai representar a parte chinesa no Grupo de Ligação, que negociou a entrega de Macau à República Popular em 1999. Foi membro da Assembleia Popular Nacional e fez parte da comissão de redacção da Lei Básica.

“A PSP, que era em simultâneo a PIDE, sabia que O Cheng-peng fazia comunicações diárias com Cantão e Pequim. Era do conhecimento das autoridades portuguesas”, diz Silva Fernandes, num remate ao período entre a década de 1950 e o final da presença da administração portuguesa em Macau. É o tempo em que é possível identificar quem comanda o quê.

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