Pequim a duas linhas

Nos hutongs, os bairros tradicionais da velha Pequim, encontramos dois tipos de pessoas: as que enaltecem o 18º Congresso do PCC ainda que não tenham ouvido uma palavra de Hu Jintao e as que criticam o regime. É a cidade de Liu, uma senhora de 70 anos que pelo partido está preparada para resolver zaragatas entre civis, e de mais “alguém” que quer democracia e liberdade de expressão.

Sónia Nunes, em Pequim

No Inverno Pequim é uma janela. A cidade assoalha-se num rectângulo de formato 16 por nove, a viseira possível na nesga de espaço que sobra entre o gorro atarraxado até às orelhas e a serpente de lã que agasalha o pescoço. Os polícias são os únicos que parecem estar quentinhos, sossegados nos seus chapéus de pelo que facilitam a apertada ronda pela 11 Fuxin Road – a  avenida da antiga sede da CCTV, a maior estação nacional de televisão, e onde, num prédio ao lado, falava Wang Jingqin, vice-ministro do Departamento da Organização do Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC). A tudo respondia: “Socialismo com características chinesas”.

Wang Jingqin fazia doutrina do princípio repetido por mais de 50 vezes pelo Presidente da RPC Hu Jintao no relatório político que depositou em Xi Jinping, o mais que provável sucessor. Durante o 18º Congresso do PCC, o ideal “socialismo com características chinesas” torna-se um fluxo de pensamento, um mantra vermelho por compreender e que nos vem ao espírito assim que descansamos a cabeça na janela do metro. É a frase que aparece a granel na mente quando ficamos sozinhos no meio da multidão que sobreviveu à apocalíptica linha um em hora de ponta.

Entramos nas catacumbas de Pequim pela estação do Museu Militar da Revolução do Povo Chinês, onde à entrada os ‘voluntários do partido’ identificados com uma braçadeira vermelha (são mais de um milhão, espalhados por toda a capital para manter a ordem pública) não chegam para evitar corpos comprimidos entre pastas de mão e pesados sacalhões vermelhos às riscas brancas e azuis, que emergem num mar de cabeças. No detector de metais atulham-se molhos de couves, paus de madeira e malas de senhora iguais às das revistas. Com audácia e uma certa dose de instinto de sobrevivência, os bens chegam às mãos do proprietário do lado de lá da passadeira e alinham-se, por fim, em carreira. Avançamos nas estações da linha um do metro e o puzzle humano que segue em pé na carruagem começa a desfazer-se para revelar ecrãs de televisão onde passam imagens das reuniões à porta fechada que decorrem no Grande Palácio do Povo, na monumental Praça de Tiananmen. De novo, absortos no fluxo de pensamento: “Socialismo com características chinesas”.

O que é, pedimos que nos expliquem. Respondem-nos amiúde com risos, ali entre o embaraço e o consentimento, que conseguimos situar dias depois na deliciosa e concorrida livraria Bookworm, em Sanlitun. Abrimos um livro do autor maldito Wang Shuo, “Please don’t call me human”, escrito em 1989: há um gabinete, o Chinese and Foreign Free-style Elimination Wrestling Competition Organizing Committee, que está a ver um vídeo de um lutador de boxe ocidental a malhar no adversário, oriental.

O que pode fazer a nação para salvar a face? A primeira coisa é (obviamente) mudar o nome do comité para MobCom. “Manter a ambiguidade tem duas vantagens distintas. Primeiro, faz com que seja mais difícil para os que estão de fora descobrirem qual é a nossa cena. Em segundo, abre todo o tipo de possibilidades uma vez que, virtualmente, tudo aquilo que quisermos cabe neste chapéu. Isso, por sua vez, vai unir as pessoas de todas as classes”, lemos, numa tradução livre. Mas a sátira literária é uma leitura oblíqua dos homens e do seu tempo. E esta tem 23 anos. É chegada a altura de nos enfiarmos pelos hutongs, os bairros tradicionais da velha Pequim.

“Demasiado velhos” para ter opinião

Já escureceu em Shichahai, no centro de Pequim e a poucos minutos das torres do Sino e do Tambor que chegaram a alertar a população em tempos de guerra e hoje emolduram um grupo sincronizado de pessoas que dançam em fila, ao som daquilo que se convencionou por música de carrinhos de choque. No espelho dos lagos Houhai, nadam à superfície riscos difusos trazidos pelos neons vermelhos que fazem publicidade a restaurantes, cafés e bares. Estamos noutra margem, afastados do Grande Palácio do Povo e prestes a quebrar a crosta de secura que o frio forma nos lábios para fazer das míseras palavras que sabemos em mandarim – Ni hao (olá) e Shi Ba Da (18º Congresso) – conversa.
Da polifonia dos karaokes que se afunilam na rua saem quatro raparigas de braços entrelaçados. São estudantes da província de Fujian de passagem pela capital. Não sabem o que o Presidente Hu Jintao prometeu para a China nos próximos dez anos (estavam em viagem) mas trocam ideias entre si. A da frente assume o papel de porta-voz, ainda que seja tímida demais para revelar o nome. “Sabemos que é provável que Xi Jinping seja o próximo presidente da China”, diz, de dedo apontado ao ar e sem mais informação a acrescentar sobre o vice-presidente em franca ascensão no país. De regresso à consulta com as amigas, despede-se com votos sinceros para a futura liderança da República Popular: “Esperamos que haja mais abertura, mais transparência e mais humanidade”. E recua: “Ah, e que os políticos saibam do que estão a falar”.

Para traz, as raparigas de Fujian deixam o lazer de final de tarde e um casal, entre os 58 e os 60 anos, que contorna o lago de braços atrás das costas, protegidas por um blusão de penas. São de Pequim. Cui, o marido, não está para muitas conversas: “Vi o que Hu Jintao disse no jornal. Não tenho nenhuma opinião”. A mulher encara-o e diz-lhe ao ouvido “Xi Jinping”. “O congresso não me interessa muito. Dou mais importância ao que acontece em Março”, acrescenta Cui, referindo-se às reuniões magnas da Assembleia Popular Nacional e que este ano deverão confirmar Xi Jinping como Presidente da RPC. “Todos dizem que é ele o próximo”, remata a mulher, antes de descrever uma vida “muito boa e melhor” em Pequim, onde há pessoas que, como eles, são “demasiado velhos” para dizer o que falta fazer.

Distribuição da riqueza à esquina

Cui e a mulher estão curtos anos acima de três trabalhadores migrantes, entre os 57 e 59 anos, que também procuram entretenimento nos movimentados lagos Houhai. Dois são da província de Shandong e um da de Heibei. Estão felizes: “O país está muito bem. A China vai melhorar depois do Congresso. A nossa vida vai ser melhor”, diz, expansivo e confiante, Wei, num sorriso aberto a denunciar uma linha de dentes encavalitados. É porque sabe que o Presidente Hu Jintao disse que os salários vão duplicar até 2020?

Não. Wei não ouviu o discurso, nem está a acompanhar o Congresso do PCC, mas é um dos trabalhadores de carne e osso de que se fala na China. Não precisa de ligar a televisão para estar informado: “Nem todas as pessoas na China são ricas. Nem toda a gente tem o mesmo estilo de vida. Se todas as pessoas ganharem um bom salario, a China será uma grande economia”. Wei é o discurso na primeira pessoa do debatido fosso entre ricos e pobres no país e um dos rostos sem nome por detrás da revisão da política de distribuição de riqueza anunciada por Hu Jintao, assumida como o centro de tensões sociais, que atinge já a classe média.

Wei e os dois amigos trabalham no metro de Pequim. Ganham cerca de três mil yuan por mês, sem dias de descanso. “Se folgarmos, não há dinheiro”, explica. O salário chega para os gastos diários e sobra para enviar um pé-de-meia para casa, graças a um “patrão” que “paga as despesas de saúde” e oferece um ordenado “muito bom”.

À esquina, na saída de Shichahai, dois publicitários estão de trela na mão e tentam separar um husky branco de um caniche que lhe dá pelas pernas, enfeitado com uma camisa aos quadrados. “Não acho que haja um grande fosso entre ricos e pobres na China”, corrige-nos Wong, 24 anos, alheio às reuniões que estão a decorrer no Palácio do Povo e confortável num sobretudo cinzento que lhe cobre a boca.  Wong e Zheng apontam para outra das críticas feitas em Pequim: o preço das casas.

“Os apartamentos estão muito caros. Pedem dois mil yan por um e é muito pequeno”, diz um. “Os preços têm de baixar”, termina o outro. Ainda que não saibam que Hu Jintao prometeu mais habitação, Wong e Zheng projectam uma Pequim com mais arranha-céus e mais linhas de metro, enquanto ainda tentam desembaraçar as trelas dos cães. Nada parece mais importante do que separar o husky do caniche.

A manter a ordem aos 70 anos

Shichahai é uma porta a vários hutongs, que se ramificam a partir dos lagos Houhai. Estamos na entrada de Baochao, agora mais escondido pelo cair da noite. “Muito bom, muito bom”, é o que tem a dizer Liu, uma senhora que ajeita o cabelo branco cortado à rapaz para manifestar um caloroso orgulho no 18º Congresso do PCC. “Hu Jintao falou muito sobre a vida das pessoas. Vai ser melhor”, adita, minutos antes de ser levada a admitir que não ouviu o que o Presidente disse no Palácio do Povo. Apressada, justifica-se: “Não estive em Pequim”.

Liu sabe o que se passa no Congresso pelo marido. É “membro do PCC” o que a deixa “muito feliz”. Aos 70 anos é um dos milhares de voluntários do partido, apesar de já não estar com a braçadeira vermelha enfiada na manga do casaco de penas lilás. Cedeu em explicar-nos o que faz: “O meu trabalho é andar por aqui. Verificar se está tudo calmo. Se, por exemplo, duas pessoas começarem a brigar eu vou lá e separo. Evito que haja problemas”.

Há inúmeros idosos que também foram destacados para manter a ordem nas ruas durante o Congresso do partido. Alguns ficam em cruzamentos de olho no trânsito; outros parados em vielas, encolhidos no frio. No microblogue Weibo, o equivalente chinês do Twitter, contam-se histórias de voluntários da terceira idade que morreram por não conseguir resistir às baixas temperaturas de Pequim. Liu não quer falar mais, está com pressa. Destaca-se entre os ‘voluntários do partido’ que aceitaram falar ao PONTO FINAL: sob anonimato, ouvimos também outros civis que dizem que não tiveram outra opção a não ser usar a braçadeira vermelha e vigiar a “manutenção da estabilidade”.

“É um grande partido”, confirma uns metros à frente, noutra viela, um homem de boné preto e cigarro ao peito, fumado pela metade. “O Congresso está a decidir o rumo que o país vai seguir nos próximos dez anos. Estão a discutir como é que podem melhorar a vida das pessoas, como proteger o país e torna-lo mais poderoso, sem deixar que outros o ataquem”, diz. E prossegue: “A China vai seguir a via do desenvolvimento pacífico e ter boas-relações com os Estados Unidos”. A declaração fica suspensa, sem tempo para falar de política internacional, nem dizer nomes.

“Tretas. Mais nada”

Atrás do senhor de boné preto e cigarro ao peito, está um homem encostado a uma árvore, de copo de cerveja na mão. Abana a cabeça, não concorda com o que está a ouvir. É “apenas alguém” e não acredita que alguma coisa venha a mudar na China nos próximos dez anos, com ou sem um novo Presidente. “Vai ficar tudo na mesma. Não se pode confiar neles, nem no que eles dizem. O que é que o Obama disse à nação quando foi reeleito? O que é que o Hu Jintao disse? São só tretas. Tretas. Mais nada”, dispara.

As metas de crescimento para o país, as centenas de milhares que saíram da pobreza nos últimos dez anos, o título de segunda maior economia mundial não abrandam as críticas. O efeito contrário é galopante: “O que serve ter mais dinheiro? O que é que isso faz pelas nossas mentes? Não somos animais. Somos pessoas. Precisamos de pensar. Não quero falar só de dinheiro. Quero usar a cabeça, contribuir para o país”.

Falamos com “apenas alguém” que se queixa da censura, da falta de uma imprensa livre, que quer ir ao Facebook e diz que o Weibo “é só uma forma de mostrar que há abertura, que as pessoas podem falar”. “Quando acham que estão a ir longe de mais, vão lá e apagam”, acusa. É num hutong da velha Pequim que ouvimos uma pessoa defender “uma verdadeira reforma política”, rumo à democracia. A comparação foi imediata: “Taiwan é China, temos o mesmo pai fundador. Se eles podem, nós também podemos”.

“Não, não vai mudar nada. O Congresso não é útil. Falam que vão mudar, mas tudo fica como dantes e as pessoas continuam a ter muitas dificuldades nas suas vidas”, diz-nos numa outra viela um homem de gorro preto, que pede para não ser identificado. Trabalha para o Governo, explica-nos. “O problema deste país é que as pessoas não têm religião. Acreditam que precisam de ter dinheiro para ter alguma coisa e que é o Governo quem lhes pode dar isso”, defende. Mostra-se também céptico em relação ao aumento para o dobro do Produto Interno Bruto em 2020. “Os salários podem subir um bocadinho. Mas há dinheiro para ir ao médico? Fico-me por aqui”, despede-se, entre um obrigado e pedidos de desculpa.

A noite aproxima-se e o frio de Novembro forma uma camada de geada entre uns colchões puídos, armados ao relento e protegidos por um cão rafeiro. Estamos a pisar a casa de alguém, um sem-abrigo. Nas notícias, preparam-nos para dias de chuva, com probabilidades de neve. Somos recebidos com um “ni hao” de boca aberta, a mostrar uma caverna negra onde está ainda suspenso um dente. Talvez seja mais do que um, não deu tempo – o sorriso fechou-se num rosto sério, moldado por densas ripas de rugas.

“Não quero falar sobre o Congresso. Mas tenho uma coisa para dizer: Não podemos lutar, não podemos entrar em guerra com o Japão pelas Ilhas Diaoyu. Será a terceira Guerra Mundial”, avisa, antes de prosseguir caminho. Pode ser que pelos intricados hutongs de Pequim encontre um senhor de boné preto e cigarro ao peito que lhe fale da via do “desenvolvimento pacifico” que o Governo Central escolheu traçar na próxima década.

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