No Norte há uma camarada que sabe voar

É preciso ver “Comrade Kim Goes Flying” para acreditar que este filme existe. Chamam-lhe a primeira comédia romântica de sempre filmada na Coreia do Norte. Pode ser, mas é também um filme de propaganda política como já não havia memória. O co-realizador Nick Bonner diz que não houve qualquer interferência governamental.

Hélder Beja, em Busan

A camarada Yong Mi tem um sonho. A camarada Yong Mi, que é a melhor mineira lá da terra dela, longe da capital Pyongyang, quer voar. Desde pequenina que a camarada Yong Mi quer voar. Em “Comrade Kim Goes Flying”, a camarada Yong Mi transforma o sonho em realidade.

Bem-vindos ao filme mais inesperado do ano: uma comédia romântica com aquela pitada de drama que nunca falta, com uma sufocante história de amor e outra não menos arrebatadora história de vida. Seria tudo demasiado banal, se o filme não nos chegasse da Coreia do Norte.

“Comrade Kim Goes Flying”, dirigido a três por Gwang Hun, Nicholas Bonner e Anja Daelemans, e produzido a três por Coreia do Norte, Reino Unido e Bélgica, é um filme de propaganda que só visto. Yong Mi (que é interpretada pela artista de circo Han Jong Sim) é uma ‘underdog’ à antiga, uma mineira  muito notável da região de Jongdong que faz capa de revista e que, prémio dos prémios, é destacada para uma equipa de construção civil na sonhada Pyongyang.

Só que Yong Ming tem a cabeça no ar e gosta de ter os pés também. Adora o circo e vai a uma audição com os melhores acrobatas do país. Faz feio, passa vergonha, mas é lá que conhece o jovem Jang Phil (o também artista circense Pak Chung Gul), que a humilha e, ao mesmo tempo, a faz ter toda a vontade de provar que um mineiro pode voar.

A partir daqui “Comrade Kim Goes Flying” começa uma ode aos méritos da classe operária, à igualdade de oportunidades e à lógica do esforço-recompensa. Na Coreia do Norte tudo funciona bem, os patrões são compreensivos, os trabalhadores andam extremamente felizes a acartar baldes de massa e tijolo, e a vida segue prazenteira.

Depois de muito esforço, a camarada Yong Min lá vai honrar a classe operária e o povão, mostrar de que matéria é feita a gente de braço e, acima de tudo, a gente de braço norte-coreana.

Sem mão do Governo

O filme estreou recentemente no Festival Internacional de Cinema de Pyongyang e foi um sucesso junto da audiência – como, adivinha-se, será um sucesso mundo fora, por ser tão inesperado.

O co-realizador Nick Bonner disse em Busan estar satisfeito por ter ajudado a fazer “um novo tipo de filme” na Coreia do Norte. Antes de conseguirem filmar esta história de uma mulher que, curiosamente, não é uma mulher de família mas uma mulher a investir em si e no reconhecimento pessoal, a produção de “Comrade Kim Goes Flying” viu a autorização de filmagem ser rejeitada durante seis anos.

“Quando finalmente completámos o guião, o problema foi não conseguirmos encontrar um estúdio na Coreia do Norte que estivesse preparado para fazer o filme, porque era diferente de tudo o que tinham feito até então”, conta Bonner.

O co-realizador garante que a equipa de produção do filme “nunca esteve envolvida com o Governo enquanto fazia o filme”. Do produtor Ryom Mi-hwa aos argumentistas, a produção rodeou-se de profissionais locais. “O que não queríamos de todo era que houvesse uma influência europeia no filme e que acabasse sendo uma mistura estranha. Queríamos fazer um filme norte-coreano, juntamente com os norte-coreanos – um filme que é puro entretenimento.”

Dizer que “Comrade Kim Goes Flying” é puro entretenimento é ignorar todas as leituras que dele podem extrair-se. Ao mesmo tempo que é um hino ao Estado norte-coreano e aos seus líderes, raras vezes mencionados mas sempre presentes de alguma maneira, o filme é também uma sátira ao país.

A artista de circo Han Jong Sim, protagonista e rosto desta obra, tem um peso tremendo na narrativa. O seu desempenho, tão plástico e tão verdadeiro ao mesmo tempo, “fez a audiência rir e chorar em Pyongyiang”, conta o cineasta. O resto do mundo cinéfilo não ficará certamente indiferente a este objecto que pode muito bem tornar-se de culto.

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