Macau vai dar um susto de documentário

Suspense, terror, mitos urbanos, fantasmas e histórias mal explicadas. É este o léxico do documentário que António Caetano Faria e Rui Borges estão a preparar para o próximo Macau Indies. A jornalista Emily Siu é o pilar da história.

Hélder Beja

António Caetano Faria e Rui Borges (Ruca) são os realizadores de “We Don’t Know”, documentário já em rodagem que trata sobre fantasmas, mitos urbanos e outras histórias mais ou menos arrepiantes cá da terra. Os dois portugueses conseguiram o apoio do Centro Cultural de Macau na categoria Avançada (90 mil patacas) do programa Local View Power e vão apresentar o filme no próximo Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Macau.

À conversa com o PONTO FINAL, Faria a Ruca falam de como Macau é um território místico, contam o que estão a filmar e apresentam o motor da narrativa: a jornalista Emily Siu, que andará por aí a investigar histórias do outro mundo.

– Que filme é este que vão fazer?

António Caetano Faria – Vamos tentar documentar alguns mitos urbanos que existem em Macau. Histórias sobre fantasmas, espíritos, casas assombradas, histórias de pessoas mais idosas e de pessoas mais jovens, que têm experiências um bocado paranormais.

Ruca – Queremos ir buscar o misticismo que existe em Macau. Estamos numa sociedade que vive nesta fronteira. Em Agosto tivemos o festival dos Espíritos Esfomeados, em que se vê as pessoas a queimarem dinheiro e fazerem oferendas aos espíritos no meio da rua; há ainda o Ano Novo Chinês, em que se rebentam panchões para afugentar os maus espíritos. É uma cultura que vive neste limiar, sempre em contacto com um outro mundo, mas que ao mesmo tempo não o reflecte no seu dia-a-dia. Esta é a nossa tentativa de ir buscar um bocadinho mais desta cultura, saber quem são as pessoas desta cultura.

– Como é que esta ideia vos apareceu?

A.C.F. – Não sou crente, não acredito em fantasmas, não acredito que exista um deus. Mas como o Ruca estava a dizer, Macau e a Ásia têm uma componente religiosa e espiritual forte, vê-se nas ruas, com as festividades. Nós não queremos registar essas festividades mas sim as histórias que estão por trás desses misticismos. São coisas corriqueiras do dia-a-dia, como quando sais de um filme de terror e ficas a falar sobre fantasmas e espíritos. Queremos ter as pessoas de Macau a falar disto, a documentar isto. São coisas estranhas como ‘esta noite uma porta bateu e não sei explicar porquê; alguém tocou à campainha, fui lá rápido e não estava ninguém’. Coisas deste género, que não sabemos explicar.

Ruca – Eu já há algum tempo que andava interessado neste formato, no suspense mais do que no terror. Tinha dito ao António que queria fazer uma curta ou uma longa-metragem deste género. Depois, em conversa, acabou por surgir a ideia de fazer um documentário sobre isto, com alguma investigação.

A.C.F. – Para mim esto pode ser o primeiro passo para tentarmos ter histórias suficientes para depois fazermos várias curtas de terror ou uma longa-metragem. O cinema asiático vive muito do terror. Coreia, Japão e mesmo Hong Kong têm vários filmes de terror. Acho interessante nós ocidentais termos uma abordagem a este género, já que vivemos cá.

– Já têm mitos urbanos e histórias para trabalhar?

Ruca – Temos alguns. Estamos no processo de investigação e de aprofundar alguns mitos. Acho que se não houver alguma investigação não estamos a credibilizar o documentário. Então estamos agora a fazer um levantamento de alguns desses mitos.

– A ideia é fazer qualquer coisa que cruze documentário com ficção?

A.C.F. – Ainda não sabemos bem, mas temos um caminho. Na reunião com o Centro Cultural de Macau (CCM) e com o júri [do Local View Power] foi-nos feita essa mesma pergunta. Não iremos fazer reconstruções desses mitos por incompatibilidade com o CCM, porque é um documentário e a fronteira entre documentário e ficção é ténue – e neste tópico é ainda mais ténue. Temos de ter cuidado com as construções ficcionais. Já imaginámos os links da personagem principal, que está escolhida, está o contrato assinado (risos).

– É jornalista da TDM Emily Siu, certo?

A.C.F. – Sim. Ela vai fazer o link entre as histórias e um pouco de investigação, porque é também essa a realidade da profissão dela.

– Era óbvio para vocês que a personagem central fosse chinesa?

A.C.F. – Não era óbvio mas, como quisemos fazer um documentário todo falado em cantonês, esta é uma mais-valia. Para o público e para nós, que aprendemos um pouco mais da língua. Gostava de continuar a trabalhar em cantonês ou mandarim, porque estou cá, estou na China.

Ruca – Se queres ter um documentário que seja minimamente visto por alguém, tens de abraçar a língua e fazer uma coisa que seja apetecível para a audiência.

– O que é que vos chamou a atenção na Emily Siu? Como é que souberam que era ela a escolha certa?

A.C.F. – Eu não conhecia a Emily, só do telejornal. O obreiro disto foi o Ruca, que puxou a Emily para o projecto e achou interessante ter alguém que investigasse e fosse jornalista. Ela começou a mostrar algumas fotografias no Facebook, de festas que mostram que ela simpatiza com esse tema [o terror], e a partir daí o Ruca tratou de puxá-la para nós.

Ruca – Há já muito tempo que gostava de fazer alguma coisa com a Emily. É uma grande jornalista, uma pessoa aplicada e que tem presença em câmara. Eu gostava de explorar o lado menos jornalístico dela. Além de ter boa presença em câmara, ela é despachada, consegue resolver as situações. Normalmente quando estás a filmar documentário precisas de ter alguém que, como nós não falamos a língua, faça isso por nós. Aí ela tem dado mais do que alguma vez eu pensei que poderia dar. Ela tem gosto pela área, gosto pelo tópico em que estamos a trabalhar e ainda por cima tem uma necessidade própria de investigar as coisas. Sem dúvida por ser uma pessoa multicultural, e por ter bastante presença, era das pessoas mais óbvias para fazer este projecto.

– Quando começam as filmagens?

A.C.F. – Já começámos. Não sabemos se o que estamos a filmar agora entrará no documentário, mas é uma primeira investigação de personagens. A Emily já lá está e faz dela própria – isto é documentário. Vamos apanhar um pouco da rotina dela e depois apanhar as rotinas de várias pessoas que têm essas histórias, que são pessoas diferentes, que acreditam noutro tipo de mundo.

Ruca – Ao princípio tínhamos dificuldade em colher histórias, por causa da barreira da língua. Ouvíamos uma história mas não tínhamos maneira de investigá-la, morria ali. Estas filmagens que a gente tem feito agora servem também para fazer um levantamento, quer do estilo, quer dessas histórias.

A.C.F. – E não tiro a hipótese de que esta construção faça também parte do filme, porque dá mais credibilidade ao que existe. Estamos a fazer várias entrevistas de rua e a depararmo-nos com pessoas que têm qualquer coisa para dizer, mas não vão dizer. Isso significa que existe alguma coisa (risos), já é um ponto de partida interessante. Esta é a nossa principal barreira, mas é também a principal força que nos faz querer sentir e presenciar coisas estranhas que espero que apareçam (risos). Não temos receio delas, eu e o Ruca, mas acho que a Emily tem. Também queremos capturar isso, perceber como é que psicologicamente a Emily reage ao documentário.

– Trabalham juntos na Icon Communications. Como é fazer agora este projecto diferente a dois?

A.C.F. – Este é um trabalho independente, vamos estar a trabalhar fora das horas de trabalho. Mas teremos um apoio da Icon. Acho que de resto é uma aventura. Nunca trabalhei com o Ruca directamente a nível de realização. Trabalhamos regularmente como câmaras…

Ruca – Aliás, este exercício das primeiras filmagens foi fenomenal, porque a gente deparou-se com situações em que um dizia ‘não era esta ideia que eu tinha’. Começámos a debater tudo e acho que agora já estamos na mesma página.

A.C.F. – Já tivemos, como é óbvio, as nossas lutas, mas temos a amizade e o respeito um pelo outro que nos faz continuar. É um processo normal: nós chatearmo-nos para que as coisas corram bem. Isto é um trabalho praticamente a três. Existe co-realização minha e do Ruca, mas a Emily tem um poder dentro do documentário que às vezes eu penso que ela nem imagina, porque é ela, a vida dela, o mundo dela. Estamos aqui para orientar esse caminho.

“Rutz” tenta estreia no Festival Sundance

O filme “Rutz”, realizado por António Caetano Faria e centrado no fenómeno dos viajantes ‘backpackers’, está praticamente pronto e o cineasta quer estreá-lo no Festival Sundance, nos EUA, um dos mais relevantes festivais do circuito independente mundial. “Estamos a tentar inscrever-nos no  Sundance, a fazer os possíveis para ir à pré-selecção e ter a ‘premiere’  do filme lá”, conta Faria. “Esse é o nosso objectivo, porque é um festival importantíssimo ao nível do documentário e traz-nos outras garantias em termos de distribuição.” O realizador gostava de ver o filme distribuído por todo o mundo e Ruca, produtor da obra, está a fazer por isso. “O Ruca está a trabalhar em várias plataformas, para tentar distribuir o ‘Rutz’ ao máximo. Só faz sentido distribuí-lo desta forma global. Gostaria que estivesse nos cinco continentes”, diz Faria.

“A CTM é um entrave ao nosso desenvolvimento criativo”

António Caetano Faria não está com meias palavras quando fala daquele que diz ser um dos maiores problemas em Macau para quem trabalha em vídeo e noutras áreas em que é preciso usar a Internet de forma eficiente. “Não há serviço de fibra óptica para empresas, apenas para privados. Fazer upload de vídeos é um grande problema, pode levar dias.” Rui Borges lamenta que o serviço de Internet fornecido pela CTM “nem sequer cumpra as velocidades de donwnload e upload que supostamente deveria ter, de acordo com o que é divulgado pela empresa”. Quer a nível pessoal, quer no que toca à empresa Icon Communications, “que não aposta mais em clientes internacionais por não ter uma Internet que sirva”, Faria não tem dúvidas: “A CTM é um entrave ao nosso desenvolvimento criativo”.

 

 

 

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