Macau corre riscos de enfrentar um surto de dengue este ano. O alerta é dado pelo médico Lam Chong, do Centro de Prevenção e Controlo de Doença, que confirmou ontem o aumento do número de casos de três para cinco, num espaço de dias.
Sónia Nunes
Lam Chong é médico, faz parte do Centro de Prevenção e Controlo da Doença e está a tentar evitar um novo surto de febre da dengue em Macau. Os Serviços de Saúde confirmaram ontem mais dois casos de doentes infectados com o vírus e espera-se que o número suba para 20, pelo menos, nas próximas duas semanas. O mosquito transmissor está localizado na Areia Preta, a zona da cidade com maior densidade populacional. O contágio, avisa Lam Chong, “pode ser muito rápido” e preocupa as autoridades de saúde pública.
– Estão confirmados três casos de febre da dengue este ano, em Macau. Há mais?
Lam Chong – Hoje [ontem] foram confirmados mais dois casos de febre da dengue. Ou seja, até ao momento, estão confirmados cinco. Estão todos localizados na zona das Portas do Certo: quatro doentes vivem lá e um permaneceu nesta área durante o dia. Têm idades compreendidas entre os 27 e 65 anos. Acreditamos o vírus está a ser transmitido nesta zona da Areia Preta. Um mosquito portador da dengue tem um período médio de vida de 30 dias durante o qual pode picar muitas pessoas, 30 ou mais. O Aedes albopictus [a espécie de mosquito da dengue autóctone de Macau] tende a picar durante a manhã e a noite, e precisa de muito sangue para se reproduzir. Durante o dia, como as pessoas estão a acordadas e a andar de um lado para o outro, o mosquito vai picar mais gente porque precisa do sangue. A transmissão pode, portanto, ser muito rápida.
– Parece ser o caso. Os últimos quatro casos foram detectados num espaço de quatro dias. Há riscos de uma epidemia?
L.C. – A situação é séria. A área onde acreditamos que o mosquito está localizado tem uma elevada densidade populacional, as temperaturas estão ainda muito quentes, pelo que a transmissão pode ser muito rápida. Não posso dizer quantas pessoas vão ser infectadas com o vírus da dengue, vai depender da nossa capacidade de controlar a doença – não falo apenas do Governo, mas sobretudo da capacidade de resposta da população a este risco de transmissão. Se as pessoas estiveram em estado de alerta e se protegerem – isto é, se eliminarem as fontes de reprodução do mosquito – o controlo será muito mais fácil.
– Desde 2007 que não havia registos de febre da dengue em Macau.
L.C. – Posso dar alguns números para referência. Em 2001 registámos um total de 1418 casos [num espaço dois meses. Foi o primeiro surto de febre de dengue na RAEM]. Em 2003, foram 28 e conseguimos controlar a situação em duas semanas – mas a transmissão só começou em finais de Outubro, inícios de Novembro, já com temperaturas frias. Com estas condições é mais fácil controlar a doença. E em 2007 enfrentamos outro pequeno surto, com nove casos, localizados perto da central eléctrica da Taipa. Eram zonas com baixa densidade populacional. Hoje enfrentamos outra situação, mais séria: podemos ter, pelo menos, mais 20 casos, nas próximas duas semanas. Se depois destas duas semanas, conseguirmos controlar a situação, não haverá problemas. Se não, haverá certamente mais casos.
– O risco é maior porque, desta vez, o mosquito está a atacar numa zona com elevada densidade populacional. Vão ser reforçadas as medidas de prevenção na Areia Preta?
L.C. – Além da quantidade de pessoas que vivem nesta zona, os edifícios são velhos e há muitas pessoas que atravessam a fronteira para Zhuhai…
… Quantos casos estão confirmados em Zhuhai? Sabe-se que há, pelo menos, um.
L.C. – Compete às autoridades de Zhuhai fornecer esses dados. O vírus não se transmite directamente entre humanos, apenas através de mosquitos. O mais importante a fazer [na zona da Areia Preta] é eliminar as fontes de reprodução de mosquitos e larvas. Recipientes pequenos com água estagnada, como latas, vasos, pratos para flores, devem ser limpos pelo menos uma vez por semana. Não basta mudar a água, é preciso lavar bem: os mosquitos podem ficar agarrados ao recipiente. Isto é das medidas preventivas mais importante, mas também o mais difícil porque estas fontes de propagação estão dentro das casas das pessoas. Nós apenas podemos intervir nos espaços públicos, onde espalhamos insecticida. [O produto] é bastante seguro para a saúde humana.
– Quantas pessoas foram enviadas pelo Centro para eliminar mosquitos na Areia Preta?
L.C. – O que fazemos é ir à casas das pessoas – vamos casa a casa – para explicar o que devem fazer para prevenir a febre da dengue. Espalhamos insecticida em zonas críticas [como terraços ou varandas com flores] e temos laboratórios móveis para fazer consultas e testes de sangue, que são depois enviados para análise. Desde o primeiro caso confirmado [em Agosto] que 11 pessoas recorreram a este serviço – um doente com febre da dengue foi detectado desta forma. Os restantes quatro foram descobertos no hospital.
– A Areia Preta é, neste momento, uma zona a ser evitada?
L.C. – Não, não. As pessoas devem sim proteger-se: usar mangas compridas e colocar repelente contra mosquitos.
– Apesar do aumento de casos, as medidas preventivas são as mesmas?
L.C. – Basicamente, sim. Esperamos que surjam mais casos porque o período de incubação do vírus da dengue pode ser duas semanas.
– É possível que o mosquito transmissor do vírus passe da Areia Preta para outras zonas da cidade?
L.C. – É, claro. Mas se acontecer, não é rapidamente. Não há razão para preocupações. Acontece, mas não é frequente. Por norma, um mosquito voa numa área de 100 metros. Mas amanhã pode aparecer um caso na Taipa porque uma pessoa que foi infectada numa área da cidade foi picada por outro mosquito noutra zona. Mas, em regra, Macau não é uma zona endémica da dengue: os casos são, por norma, importados. As pessoas trazem o vírus para Macau.
– A situação está controlada?
L.C. – Não sabemos. Só saberemos daqui a duas semanas. As pessoas devem estar em estado de alerta, ainda que, no geral, os casos de contágio não sejam graves. A recuperação pode implicar o internamento no hospital mas é bastante boa. A taxa de mortalidade é de um caso por cada mil.
– Acredita que vai ser possível criar uma vacina contra a dengue?
L.C. – Há quem esteja a tentar. O problema é que há quatro tipo de vírus da dengue. Um doente pode ficar imune a um tipo, mas pode ser infectado por outro e, neste caso, as consequências podem ser muito graves. A vacina precisa de ser testada para garantir que quem a recebe não corre mais riscos do que quem não a recebe. Não é uma hipótese que estejamos a considerar agora.
