Junkets são o ás de trunfo

Um gestor de casino, um gestor de crédito VIP e um consultor protagonizaram ontem nas conferências da Expo Gaming um raro momento de jogo aberto sobre o maior trunfo da indústria: os junkets. Eles é que dão cartas no mundo paralelo das salas VIP; são os verdadeiros ases que fazem voar os lucros.

Paulo Rego

O gestor do casino integrado na Ponte 16, Hoffman Ma, é claro sobre o modelo junket, criado nos anos 50 por Stanley Ho, e ainda hoje crucial nos bastidores do jogo. “Sem eles seria muito difícil; não só em Macau como em toda a Ásia. No início era um privilégio dos amigos ricos e importante; hoje é um negócio no qual há muita gente envolvida”, revela.

Qual é então a fatia do bolo que cabe aos junkets? “É difícil saber a comissão que realmente arrecadam. Alguns admitem percentagens entre os 17 e os 20 por cento da massa angariada; outros garantem que chega a 30 por cento. Penso que a verdade estará algures nesse intervalo”, arrisca Shaun McCamley, fundador da consultora IgamiX Management.

Consensual é a noção de que junkets estão envolvidos em todas as fases do negócio VIP – o de maior rendimento em Macau. Primeiro, porque emprestam dinheiro aos jogadores, com juros que atingem os 30 por cento; depois, porque ganham parte dos lucros obtidos pelos casinos – 40 por cento da receita bruta em Macau vai para impostos directos e indirectos; os outros 60 por cento serão divididos entre operadores e junkets. Por fim, esses agentes e intermediários são muitas vezes accionistas das próprias salas VIP. Ou seja; os operadores investem em infra-estruturas, gestão, custos operacionais e de pessoal; os junkets assumem despesas de angariação e gerem o risco de crédito.

E como é que se garante a cobrança? Risos na mesa… São conhecidos os relatos de sequestros, suicídios, corpos que bóiam no Delta… Mas afinal, esse mundo também se vai sofisticando. “Depende de cada jurisdição. Mas até na China já é possível emprestar dinheiro a particulares, ao abrigo da lei de crédito pessoal; e em Hong Kong também há formas de o fazer com contratos legais e regulados”, explica Tony Tong, director comercial da Tak Chung Finance, assumindo-se como profissional num negócio que “tem de ser discreto”; no qual “nunca se revelam pormenores” e “muito menos o nome dos clientes”.

Certo é que os junkets “garantem não só a angariação de jogadores como também a concessão de crédito, para além do controlo do risco”, admite Hoffman Ma, que os considera “essenciais” para a indústria. Tony Tong secunda-o: “Ninguém pode vir jogar trazendo milhões no bolso”; logo, o negócio depende da relação entre jogadores VIP e junkets”, esclarece: “A maior parte das vezes”, continua Tong, “os junkets são accionistas das salas VIP e concedem também eles crédito a quem vem jogar. Como accionistas das empresas que operam nesse mercado correm poucos riscos, pois o crédito é gerido à parte”. Ou seja; fazem-no depois como agentes individuais – ou agiotas, na linguagem comum. “Eles é que conhecem os clientes e o seu património; e muitas vezes fazem contractos paralelos noutras jurisdições. Nos países de origem dos jogadores, fazem-se muitas vezes contractos individuais de empréstimo, hipotecas, e outros acordos.” O resultado, conclui Tony Tong, é que “o verdadeiro risco de crédito está concentrado nesses agentes; para os casinos, o risco é muito pequeno”.

A própria liquidez do sistema, confirma Hoffman Ma, depende do crédito concedido pelos junkets, pois “os operadores dos casinos não têm essa capacidade; nem do ponto da massa financeira necessária, nem depois na especificidade das cobranças”. E no actual contexto de crise internacional, e consequente desaceleração do crescimento na China, a importância deste modelo torna-se cada vez mais óbvia. “A banca internacional empresta dinheiro com sete por cento de juros, mas não tem nesta altura liquidez; a média dos empréstimos privados é de 28 por cento, mas há sempre dinheiro para pôr a circular”, argumenta Tony Tong.

“Os problemas de liquidez vão necessariamente ter impacto em Macau”, admite Hoffman Ma, “mas há ainda muito dinheiro, e cada vez há mais negócio”, ressalva, “também por via dos junkets”, considera. Em Maio deste ano “sentiu-se um pequeno decréscimo, mas depois o negócio voltou a subir. Apesar da desaceleração na China, continua a haver muita gente com muito dinheiro – cada vez mais”, conclui Ma.

Pau de dois bicos

Se os junkets são o factor essencial do sucesso, é também neles que reside o risco de uma eventual queda das receitas, caso os junkets tenham motivos para desviar o mercado VIP para outras paragens, onde a concorrência se esforça para ser cada vez mais atractiva.

A “fiscalidade pesada” em Macau é nesse contexto apontada como um factor negativo. “Por exemplo em Singapura, os impostos são substancialmente mais baixos”, alerta Hoffman Ma, considerando que uma “baixa fiscal” permitiria “comissões mais altas para os agentes”, defende Ma, secundado por Tony Tong: “É verdade que uma política favorável nessa área permitiria melhores comissões para os junkets e, com isso, tornaria Macau mais atractivo”, conclui.

Por outro lado, “a restrição de vistos” mantida pelo Governo Central é vista como mais um factor prejudicial: “Um jogador chinês pode cá vir de três em três meses – e só uma semana. Nesse intervalo, “é muitas vezes preciso levá-lo para outras jurisdições, tais como Singapura e Filipinas”, aponta Tony Tong.

A verdade é que a decisão tomada por agentes e jogadores leva em linha de conta “um vasto leque de condições”, explica Shaun McCamley, que elege a segurança como outra questão decisiva: “É uma das mais importantes. Muitas vezes, antes de decidirem onde vão jogar, perguntam pelas condições de segurança que lhes são oferecidas”, revela.

A decisão final, essa, depende de um leque variável de factores: “O que atrai os jogadores VIP é um vasto conjunto de coisas; desde os modelos de financiamento à qualidade dos hotéis; da comida; da companhia… tudo conta”, sintetiza Hoffman Ma.

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“Mais fácil levar um Mercedes do que o dinheiro”

Nem sempre ganha o casino. E quando a sorte está do lado dos jogadores, resta-lhes resolver um dilema: receber o dinheiro e levá-lo para o país de origem, pagando impostos, ou investi-lo em bens com potencial de lucro e transporte discreto. E esse, admitem os três conferencistas, será o contexto favorável à especulação imobiliária, mas também o crescimento exponencial do comércio a retalho. “Muitas vezes é mais fácil atravessar a fronteira com um Mercedes novo do que transferir o dinheiro”, comenta Hoffman Ma, que considera “muito difícil” saber que percentagem dos ganhos fica e qual é a que levam. “Talvez uns 30 por cento volte com eles. O resto é investido em coisas que garantam valor acrescentado aos ganhos obtidos.”

Bancas paralelas

À volta dos casinos prolifera um negócio paralelo, com expositores de relógios e de joalharia, muitas vezes vocacionados sobretudo para emprestarem dinheiro aos jogadores. “Este modelo garante uma liquidez tremenda aos operadores, pois há sempre dinheiro imediatamente disponível. Esse negócio está a crescer e a competição é feroz. É inacreditavelmente difícil alugar um espaço destes nos casinos”, revela Shaun McCamley.

No caso do comércio a retalho, nos centros comerciais e mesmo fora dos casinos, Hoffman Ma acredita existirem duas situações distintas: “Se é uma loja de luxo, com bons expositores e bem posicionada, provavelmente está mesmo a fazer negócio; se é uma loja de vão de escada, pequena e escondida, provavelmente a transacção é falsa. Mas é muito difícil saber quais as percentagens atribuíveis a cada  um desses modelos. A verdade é que é muito difícil tirar o dinheiro daqui e levá-lo, sobretudo para a China. Veja-se o sucesso de Hong Kong, sobretudo no imobiliário, nos relógios e na joalharia. Macau está a fazer o mesmo; oferece os mesmos produtos, e os comerciantes beneficiam de rendas substancialmente mais baixas”, conclui Ma.

 

 

Apostas paralelas incontroláveis e ilimitadas

“Há duas formas de jogar com apostas paralelas: uma delas é medida pela multiplicação do valor das fichas jogadas no casino” Ou seja, o jogador aposta dez mil em fichas e, ao mesmo tempo, está a apostar dez ou vinte vezes esse valor contra  o junket. “O outro esquema tem por base a diferença cambial entre as fichas apostadas e a moeda combinada com o junket. Um jogador pode estar a apostar 1 milhão de patacas com o casino e ter combinado com o agente um jogo paralelo, no qual essa aposta um milhão de dólares”.

Ben Lee, sócio gerente da consultora IGamingX Management e moderador da conferência, explica assim um dos esquemas “mais difíceis de controlar” por parte de reguladores e casinos.

“A questão é simples. “É impossível saber o que se passa nos bastidores das apostas paralelas. Se há uma combinação privada, entre jogador e junket, não há nada a fazer”, remata Shaun McCamley, sobre jogadas que parecem não ter limites: “Ouço falar em apostas que vão de oito a 25 vezes o valor real das fichas. É esse o nível a que uns e outros estão dispostos a ir para jogar por fora das regras do casino e sem impostos”, comenta Shaun McCamley.

Milhões apostados ao telefone por telefone

Há já um código nos casinos para as apostas feitas ao telefone. O jogador está no Continente, ou noutro ponto qualquer do mundo; e aposta através de alguém que vai ao casino. O jogador senta-se e avisa o croupier: aposta CTM. “Sempre me espantou como pode um jogador ter prazer nessas apostas, sem sequer lá estar. Mas vi com os próprios olhos, num karaoke privado, fazerem essas apostas por telefone e divertiam-se mesmo; a adrenalina estava lá, quase como se estivessem no casino”, relata  Shaun McCamley, sobre um negócio que “está a crescer”. Há mesas, diz,  em que só podem entrar com um milhão de dólares; e a aposta mínima é de dez mil. Penso que haja nesta altura cerca de 500 jogadores em Macau que andam pelos casinos a apostar por alguém, que está com ele ao telefone”, remata.

“Muitos jogadores não podem vir todos os dias jogar; por isso, jogam por telefone. Por outro lado, assim podem fazê-lo com menos stress, de forma mais relaxados, sem com isso perder o prazer do jogo”, explica Hoffman Ma.

Nas Filipinas as apostas por telefone são neste momento as mais importantes; estão disponíveis em todo o lado e devem representar cerca de 90 por cento das receitas totais”, vaticina Tony Tong, lembrando que há já “aplicações próprias para iPhone, concebidas para um jogador poder tranquilamente jogar e acompanhar tudo o que se passa ao telefone. A verdade é que não têm qualquer problema em apostar milhões, sem sequer irem aos casinos”, remata.

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