Sob o céu de Manila

Há vivos que coabitam com a morte nos cemitérios públicos, onde encontraram um melhor telhado. Chun Wai, fotojornalista de Hong Kong, registou a miséria da capital filipina e encontrou dignidade e perseverança.

Stephanie Lai

Entre pequenas esculturas de anjos dos cemitérios públicos de Manila, há crianças de igual estatura que correm e brincam junto às suas casas, erguidas acima das campas. São os vivos, de entre os mais pobres, que há anos coabitam com os mortos sob o mesmo céu e partilhando com eles a mesma terra. Chun Wai, fotógrafo documental natural de Hong Kong, vagueou por estes lugares das Filipinas e neles registou imagens que vão ser exibidas no Armazém do Boi, sob o nome “Debaixo do Céu”.

O encontro com o cenário de pobreza extrema de Manila remonta aos anos de 2003 e 2004, quando Chun, enquanto fotojornalista ao serviço de uma agência com sede em Hong Kong, se envolveu num projecto paralelo à actividade que desempenhava nas Filipinas. O projecto consistiu em documentar as povoações construídas ao longo das linhas de caminho-de-ferro da capital filipina, cujos habitantes lutam diariamente pela sobrevivência.

Ao longo da linha que atravessa Manila, as barracas erguidas albergam uma população de cerca de 200 mil pessoas. As imagens de Chu Wai recordam um quotidiano de banhos, de lavagem de roupa, de gente que dorme e crianças que correm ao lado do comboio.

No final de 2007, por ocasião da renovação da rede ferroviária, estas habitações precárias tiveram de ser demolidas. A população que ali vivia teve de ser deslocada para áreas a duas e três horas de distância.

“Tentei encontrar alguns amigos que viviam junto à linha, mas nunca mais os vi”, conta o fotógrafo ao PONTO FINAL. “Houve quem me aconselhasse a procurá-los por baixo das pontes, na beira das estradas e nos cemitérios”, recorda.

Foi assim que Chun Wai acabou por encontrar o caminho que o levou às habitações que existem em cemitérios de Manila, onde ainda hoje as podemos encontrar. Uma parte considerável dos moradores provém de aldeias rurais de zonas agrárias e não tem meios pagar renda ou de pedir um empréstimo para compra de casa.

O primeiro contacto de Chun com a pobreza extrema dos cemitérios públicos da capital filipina, como os do Norte e de Bagbag, deixou-o em “choque” e, depois, “triste”. O fotógrafo passou dois anos a registar as imagens dos vivos que dormem e comem sobre a terra que acomoda caixões e por cima da qual se erguem pavilhões de estilo hispânico com telhados em chapa de zinco – alguns são casa para três diferentes gerações de uma família.

As condições sanitárias destas zonas de habitação estão muito longe de ser boas: não há abastecimento de água potável, que tem de ser adquirida fora; a promiscuidade dos alojamentos propaga rapidamente doenças de pele como sarna e os moradores raramente têm dinheiro que lhe permita comprar o tratamento necessário.

Para o seu primeiro trabalho, “Railway Village”, Chun Wai registou os subúrbios ferroviários de Manila em vídeo digital. “Under Heaven”, ou “Debaixo do Céu”, é já um acervo de fotografia a cores e a preto e branco.

“O documentário é um fio de histórias que se projectam numa sequência de tempo. Não há no entanto muitas oportunidades para que as pessoas o vejam. As imagens fotográficas, por outro lado, podem ser vistas a qualquer momento, permitindo às pessoas ponderarem sobre os problemas da vida”, explica sobre o trabalho que exibe no Armazém do Boi.

Durante a recolha das imagens, Chun diz ter imposto a si próprio o princípio de não estar “em busca da novidade” ou “a explorar o sofrimento alheio”. Sobre a experiência que o ocupou em 2007 e 2008, refere que os cemitérios são melhor casa do que qualquer bairro de lata. As habitações, diz o fotógrafo, são mais sossegadas e espaçosas, além de não ser exigido pagamento de renda aos seus moradores.

No entanto, à medida que prosseguem as privatizações de cemitérios nas Filipinas, estas populações tornam a enfrentar um desafio e em breve poderão ter de mudar para outro local.

Chun Wai lembra a reforma agrária levada à cabo no país, sem que tenha produzido quaisquer resultados. As populações rurais vivem, na sua maioria, na miséria. Mas nas imagens recolhidas, destaca, exibem a sua dignidade, fortes valores familiares, afabilidade e perseverança.