Nuno Soares modera hoje, no Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF, na sigla inglesa), uma sessão sobre “smart buildings”. Um conceito que, segundo o arquitecto, deveria ser mais implementado no território.
Pedro Galinha
O nome diz tudo. “Smart buildings” – em português, edifícios inteligentes – são construções que conseguem aliar a poupança energética à financeira. Poderiam ser uma opção válida em Macau? O arquitecto Nuno Soares acredita que sim, não só porque o ambiente e a carteira agradecem, mas também devido às características específicas do território, um consumidor de energia em larga escala.
Talvez por isso, a discussão do tema dentro das fronteiras da RAEM ganha especial importância, estando hoje em destaque, a partir das 9h30, no Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF), que decorre no centro de convenções do Venetian.
Ao todo, participam na sessão dedicada aos “smart buildings” quatro especialistas estrangeiros. A moderação está a cargo de Soares, em representação da Associação de Arquitectos de Macau.
– Em Macau, o conceito de “smart building” ainda não é muito alargado?
Nuno Soares – Por isso é que é interessante ser discutido neste contexto. Normalmente, o conceito de “smart buildings” é entendido como dispositivos de automatização capazes de gerir os vários sistemas eléctricos, de iluminação, de ar condicionado, de segurança, de comunicações dentro dos edifícios. Estas coisas estão, por vezes, associadas – como acontece com os “green buildings” – a elementos de marketing e a remendos para os problemas que os edifícios têm. Eu, como arquitecto, penso que estas coisas não devem ser vistas como adições, mas sim como parte integrante da concepção arquitectónica. Deve ser considerado todo o sistema do edifício, de uma forma integrada e sustentada, desde a concepção à utilização, até à posterior demolição.
– Isso obriga a grandes investimentos?
N. S. – Depende de que sistemas estamos a falar e da dimensão do edifício. Numa primeira fase de implementação, é sempre mais dispendioso, sobretudo quando não existem muitas práticas no meio das empresas projectistas e construtoras. Portanto, envolve sempre mais esforço. Quando se tratam de edifícios grandes, o retorno consegue ser mais rápido porque há poupanças energéticas e racionalizações que se podem fazer. Estas coisas, no entanto, têm de ser estudadas caso a caso. E quando são implementadas, as melhorias revelam-se no ambiente, na economia e mesmo na arquitectura porque pode ser um motor para a inovação. No fim, são os cidadãos que vão usufruir de espaços mais sustentáveis e agradáveis.
– Por cá, já podemos ver alguns casos?
N. S. – Como em outras áreas, Macau não está no pelotão da frente. É uma cidade pequena, mas acho que já estão a ser aplicadas estas estratégias em alguns empreendimentos. Mas não é uma prática corrente e que esteja disseminada na construção em geral. Estes edifícios utilizam a energia e os recursos de forma mais sábia e vemos que são criadas zonas de sombras nas fachadas para que não aqueçam tanto. Promovem também a circulação transversal nos edifícios. Estas não são questões novas na arquitectura. A arquitectura sempre foi feita com os materiais do local, feita para um local. A minha visão das coisas passa muito pelos contextos onde estamos, para quem concebemos os espaços e que utilização lhes será dada.
– Faz sentido, portanto, aplicar tudo isto em Macau?
N. S. – Em Macau, por via do clima e da cultura da cidade, usa-se muito o ar condicionado. Além disso, o índice luminoso é muito elevado. Estas são duas questões que estão muito enraizadas. Como os edifícios têm um dispêndio energético muito elevado, isto é bastante pertinente em Macau.
– Deveria também de haver uma maior aposta na qualidade da construção dos edifícios?
N. S. – De facto, não é muito pensada no longo prazo. É mais perspectivada no curto prazo. Quando falamos em “smart buildings” é importante pensar no ciclo todo do edifício, desde o momento em que é concebido até, anos mais tarde, quando é demolido. Em Macau, na arquitectura corrente, são tidas em consideração questões de curto prazo. Como é que se pode fazer um edifício rapidamente e barato? Este esquema mental não é muito propenso a pensar e a projectar a eficiência energética do edifício no longo prazo. É necessário fazer uma mudança de paradigma. Ou seja, além do custo inicial, é necessário ponderar o custo do edifício no seu ciclo de vida total.
– Tem, em mãos, projectos com estas características?
Em todos os projectos que fiz, esta questão da utilização dos materiais reciclados ou adequados ao local é sempre uma preocupação que tenho. Portanto, não a vejo como facultativa. Vejo-a, sim, como essencial à concepção arquitectónica. Em qualquer projecto de arquitectura, interiores ou mobiliário, esta questão da sustentabilidade e do ciclo de vida do produto é uma coisa que me preocupa desde sempre.