Não são só as apostas dos jogadores de Hong Kong que estão a subir. Há também mais casos de compulsão do outro lado do Delta, num problema com origem nos casinos de Macau. O Centro de Reabilitação de Jogadores Patológicos de Hong Kong está preocupado com a situação e o Governo da região aposta na sensibilização.
Alexandra Lages
Há cerca de duas semanas, um reformado perdeu 700 mil dólares de Hong Kong nas mesas de jogo de Macau, nada mais, nada menos do que as poupanças de uma vida inteira. Este residente de Hong Kong recebeu o montante do fundo de pensões, juntou-se a um grupo de amigos e decidiu tentar a sorte no jogo. Teve azar.
A história é contada ao PONTO FINAL pelo reverendo Jimmy Tan do Centro de Reabilitação de Jogadores Patológicos de Hong Kong. “Há cada vez mais casos de idosos que vêm a Macau perder dinheiro nos casinos”, diz o assistente social.
Com a reforma, os idosos ficam com demasiado tempo livre e muito dinheiro nas mãos. “As suas vidas deixam de fazer sentido”, explica o religioso.
Deste lado, há todo um mundo excitante de jogos, diferentes dos dias rotineiros. A viagem é curta. É apenas uma hora de distância. Juntam-se com amigos e partem, numa tentativa escapar ao marasmo.
No mesmo barco, estão os jovens de Hong Kong, que também estão a sucumbir à tentação do dinheiro fácil. Segundo o centro de reabilitação, os números de jovens e idosos com problemas de jogo em casinos estão a aumentar cerca de 40 por cento.
Um relatório recentemente divulgado pelo Instituto Politécnico de Hong Kong descobriu que os residentes do território vizinho estão a apostar três vezes mais nos casinos de Macau em comparação com 2008.
O estudo encomendado pelo Governo de Hong Kong, sobre a participação de pessoas da região vizinha em jogos de fortuna e azar, revela que no ano passado os residentes da RAEHK gastaram uma média mensal de mais de 11 mil patacas nos casinos de Macau, um valor que triplicou comparando com as cerca de 3400 patacas registadas no estudo anterior, em 2008.
Por outro lado, o número de entrevistados que participaram em jogos de fortuna e azar sofreu uma queda significativa. Apenas dois terços das pessoas afirmaram ter apostado em casinos, muito menos do que os 71,3 por cento registados em 2008.
A lotaria Mark Six continua a ser a actividade mais popular em Hong Kong, com 56 por cento, seguida do jogo social (33 por cento) e das corridas de cavalos (12,9 por cento).
A ganhar terreno
Os casinos de Macau ocupam apenas o quarto lugar, com 11,9 por cento. Do total de 2024 entrevistados, a maioria que dos que visitaram casinos de Macau no ano passado tinha entre 22 e 29 anos (18,7 por cento) e tem o seu próprio negócio (25,9 por cento).
Apesar de o estudo mostrar que a taxa de prevalência de jogo patológico está a descer de 1,9, em 2008, para 1,4 por cento em 2011, a verdade é que o Instituto Politécnico acredita que quem teve contacto com as mesas de jogo na RAEM pode tornar-se mais facilmente dependente.
Do total de 1263 entrevistados que participaram em jogos de fortuna e azar no ano passado, 11,6 por cento são passíveis de ter problemas associados ao jogo e 12,6 por cento são jogadores patológicos. O estudo conclui que os inquiridos que entraram nos casinos do território em 2011 são 2,2 vezes mais propensos a se tornarem jogadores compulsivos do que aqueles que não frequentaram os espaços de jogo.
Já o estudo do perfil dos jogadores de Hong Kong da Caritas chega a uma conclusão diferente. A associação diz que os casinos vêm em segundo lugar, empatados com as apostas em futebol.
Dos 3916 jogadores entrevistados em Fevereiro pela Caritas, 54,4 por cento apostam em casinos, enquanto a maioria (62,8 por cento) prefere as apostas nas corridas de cavalos. Um total de 34,7 por cento diz que aposta nos jogos de mahjong.
“Antes, as pessoas em Hong Kong só apostavam nas corridas de cavalos ou jogavam mahjong, mas agora é muito fácil virem para Macau. É apenas uma hora de viagem. Muitas vezes têm bilhetes de jetfoil de graça e isso cria tentação”, afirma o reverendo Jimmy Tan.
Com o aumento dos casinos em Macau e a abertura de grandes resorts, a organização não-governamental está a assistir a um aumento de problemas associados aos casinos.
“É muito comum vermos casos em programas de televisão de idosos que perderam todas as economias nos casinos. Esta é uma forma de tentar alertar as pessoas para não cometerem o mesmo erro”, diz.
Os Serviços de Assuntos Internos de Hong Kong desdramatizam a situação e enfatizam o facto de a taxa de prevalência de jogo patológico ter descido 0,5 por cento em 2011 face a 2008. Em declarações ao PONTO FINAL, um porta-voz destes serviços explicou que foi estabelecido o fundo Ping Wo em 2003 para financiar medidas de prevenção e tratamento de problemas relacionados com o jogo.
“Para enfrentar a crescente tendência de jogo em casino por Hong Kong, um dos principais esforços do fundo consiste em apostar em publicidade e na consciencialização para educar o público em geral para que eles consigam resistir à tentação de jogar.”
“Neste contexto, foram produzidos anúncios televisivos e séries de TV. O fundo tem também lançado patrocínios para as escolas e organizações comunitárias conduzirem programas de educação pública e actividades que visam educar o público em geral, em especial os jovens, e evitar o impacto negativo do jogo excessivo”, salientou.
Jogo precoce
Jimmy Tan acredita que o governo “tem desempenhado um papel importante” na luta contra o jogo patológico. Contudo, alerta que há cada vez mais jovens a frequentarem casinos em Macau.
“No início, quando têm cerca de 18 anos e vêm aos casinos de Macau, começam a jogar com poucas quantias de dinheiro. Se ganham, começam a vir com mais regularidade, todas as semanas”, conta.
“Muitos que começam a jogar nos casinos em Macau, depois de perderem dinheiro envolvem-se com agiotas. Eles dizem-lhes: ‘Não há problema que eu posso dar-te 20 mil ou 30 mil dólares de Hong Kong.’”
“Mas, antes do agiota lhes emprestar o dinheiro, liga logo para os pais: ‘O seu filho tirou-nos cerca de 30 mil. Por favor, deposite essa quantia na nossa conta bancária’. Se eles perderem são enviados de volta para Hong Kong. Depois cabe aos pais pagarem as dívidas. Isto é um ciclo vicioso. Estamos sempre a lidar com este tipo de problemas”, lamenta.
O reverendo lembra que um jovem com 18 anos facilmente pode deslocar-se a Macau. “Alguns jovens que procuram a nossa ajuda ainda estão a estudar. Quando vêm ter connosco a dizer que perderam todo o dinheiro – alguns deles perderam milhões –,pedimos aos pais para, em primeiro lugar, lhes tirarem os cartões de crédito e o bilhete de identidade”, explica.
Os Serviços de Assuntos Internos recusam-se a apontar causas para os residentes de Hong Kong frequentarem mais os casinos de Macau. Todavia, no caso dos jovens, Jimmy Tan aponta o dedo aos pais.
“Há problemas de comunicação entre os filhos e os pais. Muitas vezes os pais só exigem bons resultados na escola, são demasiado severos, e os jovens vão parar aos casinos, porque os casinos lhes dão um sentimento de vitória. Sempre que ganham, sentem-se importantes e úteis. Por isso, sempre que se sentem infelizes e querem fugir da pressão familiar voltam aos casinos”, sustenta.
A publicidade aos casinos de Macau está a aumentar em Hong Kong e isso atrai os jovens. “Há demasiada publicidade bonita”, critica. “Há ainda a pressão dos pares e o factor do valor da vida e o valor que dão ao dinheiro fácil”, acrescenta.
Segundo o perfil dos jogadores de Hong Kong concebido pela Caritas, 86,1 por cento dos jogadores de Hong Kong são homens com idades compreendidas entre os 30 e os 49 anos. Grande parte (72,3 por cento) completou apenas o ensino secundário.
Todavia, as dívidas de jogo da maioria dos jogadores não ultrapassam os 200 dólares de Hong Kong. A maior parte dos jogadores (78,8 por cento) sofre de problemas financeiros.
Menores de Hong Kong admitem jogar em Macau
Enquanto os deputados à Assembleia Legislativa de Macau estão a analisar uma proposta para aumentar a idade de entrada nos casinos dos 18 para os 21 anos, o Governo de Hong Kong não planeia mexer na idade legal para participação em apostas ou jogos de fortuna e azar, disse ao PONTO FINAL um porta-voz dos Serviços dos Assuntos Internos de Hong Kong.
O estudo do Instituto Politécnico de Hong Kong concluiu que 40,5 por cento dos jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos admitiram que tinham participado em jogos de fortuna e azar em 2011. O relatório também alerta para o facto de a taxa de prevalência de jogo entre jovens ter aumentado de 1,4 por cento em 2008 para 1,8 por cento no ano passado.
As actividades de jogo mais populares foram o mahjong (40,5 por cento), o póquer (33,9 por cento) e a lotaria Mark Six (24,6 por cento). Além disso, 5,2 por cento dos jovens disseram que tinham jogado em casinos de Macau.
Um total de 37,5 por cento dos quatro mil menores entrevistados afirmou que a primeira vez que jogou tinha entre 10 e 13 anos de idade. Houve ainda um grupo de 27,9 por cento que disse que a primeira participação numa actividade de jogo aconteceu quando ainda nem tinha completado dez anos de idade.
“Isso mostra que a maioria dos jovens participou em actividades de jogo bem antes de ser legalmente autorizada a jogar”, diz o relatório do estudo.
O perfil dos jogadores realizado pela Caritas diz que 19,6 por cento dos residentes de Hong Kong começam a jogar quando têm entre 16 a 20 anos. Já o estudo do Centro de Reabilitação de Jogadores Patológicos diz que a idade média de início de participação em apostas é de 28 anos.
Contudo, esclarece que o jogo está a entrar na vida das pessoas cada vez mais cedo. “Grande parte das pessoas tem participado frequentemente em actividades relacionadas com o jogo desde os 15 anos”, nota.
O cerne da questão está contudo no controlo à porta dos casinos, defende o reverendo Jimmy Tan do centro de reabilitação. “É uma boa medida, mas eu já disse às autoridades locais [de Macau] que não sei se vai surtir grande efeito”, disse.
Apesar de considerar a iniciativa boa, o assistente social lembra que Macau tem mais de 35 grandes casinos e falta capacidade humana para controlar tantos turistas. “Como é vamos ter capacidade para lhes pedir sempre o bilhete de identidade à porta? Alguns deles parecem adultos. É muito difícil”, defende.
“Os casinos têm de controlar melhor as entradas, mas também admito que é difícil, porque há sempre muito movimento”, nota. A.L.
Jogo em Hong Kong
11 mil patacas é a média mensal gasta em casinos de Macau
11,9 por cento dos residentes jogam em casinos
1,4 por cento é a taxa de jogadores patológicos
12,9 por cento dos residentes de Hong Kong que visitam casinos de Macau são jogadores patológicos
