As ruas dos governadores

Haverá um dia a Avenida Rocha Vieira ou a Rua Garcia Leandro? Não são os únicos mas os últimos governadores não estão na toponímia local. Que parou em Nobre de Carvalho (e em Mário Soares).

João Paulo Meneses

Nobre de Carvalho foi o último governador (1966-1974) a ser distinguido na toponímia de Macau, interrompendo-se, a partir daí, uma tradição que permitiu ‘imortalizar’ quase todos os governadores do século XX e vários do século XIX.

Isto significa que, de acordo com a publicação “Arruamentos da Região Administrativa Especial de Macau” (Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, edição de 2003), nenhum dos governadores mais recentes, alguns entretanto já falecidos, está reconhecido nas ruas de Macau. O mesmo é dizer, a RAEM não considerou nenhum deles para os muitos arruamentos que entretanto foram criados, o mesmo acontecendo com Edmund Ho, antigo Chefe do Executivo.

Curiosamente – e este é um texto cheio de curiosidades, como os leitores do PONTO FINAL poderão constatar –, Garcia Leandro, Melo Egídio, Almeida e Costa, Pinto Machado, Carlos Melancia e Rocha Vieira não são os únicos ‘esquecidos’; o governador antes de Nobre de Carvalho, Lopes dos Santos (1962-1966), também não consta da toponímia local.

E se existe igualmente a Rua do Governador Silvério Marques (1959-1962), já não se consegue encontrar a daquele que o antecedeu, Pedro Correia Barros (1957-1959).

A partir do estudo comparativo que o PONTO FINAL fez, não é possível encontrar um padrão que permita perceber os critérios de atribuição de toponímia.

É verdade que a maior parte dos 23 governadores do século XX, até Nobre de Carvalho, está representada nas ruas de Macau, mas também é verdade que faltam, por exemplo, nomes como Arnaldo Guedes Rebelo (1902-1903), Bernardes de Miranda (1932-1937) ou Gabriel Maurício Teixeira (1940-1947). Isto, enquanto outros têm duas, três ou mais referências diferentes.

À procura de critérios

Artur Tamagnini Barbosa, por exemplo, tem uma avenida e uma travessa em Macau e um largo e uma rua na Taipa.

Se o seu caso se pode explicar pelo facto de ter sido três vezes diferentes governador (1918-1919, 1926-1931 e 1937-1940), noutros casos este argumento não funciona.

Coelho do Amaral (1863-1866) tem uma estrada, uma rua, uma travessa, um beco e um pátio!

E Custódio Miguel de Borja (1890-1894), o Conselheiro Borja, tem uma avenida, uma rua e uma travessa; três referências também para José Horta e Costa (duas vezes Governador, 1894-1897 e 1900-1902), Mata Oliveira (1931-1932) ou duas para Ponte e Horta (1866-1868), Martinho Montenegro (1904-1907) ou Pedro Coutinho (1907-1908). Como se percebe, tanto são distinguidos aqueles que estiveram muito tempo em Macau como aqueles que tiveram passagens efémeras.

Nestes e noutros casos a pluralidade resulta da proximidade geográfica (os pátios, os becos ou as travessas ficam na área de influência da rua/avenida principal), mas quando ela não existe já temos de convocar outro argumento.

Eduardo Augusto Marques (1909-1910) tem a sua rua em Macau e um largo em Coloane, o que é um ‘feito notável’: são raros os arruamentos de Coloane com nomes próprios e ele é o único governador lá presente.

Mais normal é encontrar governadores com arruamentos também na Taipa. Carlos da Maia (1914-1916) está nesse caso, com uma rotunda e uma avenida, respectivamente; Sanches Miranda (1912-1914) tem uma rua em Macau e um largo na Taipa, e Albano Oliveira (1947-1951) duas ruas que começam com ‘Governador’.

Dúvidas e coincidências

Uma ressalva torna-se necessária aqui: a lista dos 25 governadores identificados na toponímia de Macau não pode ser considerada exaustiva, tal como as referências aqui feitas. E a principal razão não tem que ver com a existência de uma versão mais actualizada da publicação que nos serviu de guia ou até de alguma distracção na comparação, sempre possível. Antes, deve-se ao facto de, destes 25, apenas em meia dúzia de casos haver uma referência directa, nas placas, ao facto de ter sido ‘Governador’ (exemplos: Rua do Governador Albano Oliveira, Avenida do Governador Jaime Silvério Marques; já agora, a mesma sorte não teve Francisco António Gonçalves Cardoso, governador durante nove meses de 1951, que viu a sua Alameda do Governador Cardoso desaparecer, como conta Manuel Teixeira no Volume I da “Toponímia de Macau”). Noutros casos não restam muitas dúvidas, porque o nome está por extenso.

Mas o que fazer quando nos aparece a Rua do General Galhardo? Será Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo, que governou Macau entre 1897 e 1900? Monsenhor Manuel Teixeira, no II Volume da “Toponímia”, confirma que sim. E a Rua do Almirante Sérgio refere-se ao militar António Sérgio de Sousa, governador de 1868 a 1872 (e avô do grande pensador António Sérgio)? Também.

O mesmo acontece com a Rua do Guimarães, que é uma evocação de Isidoro Francisco Guimarães (1851-1863). Finalmente, no caso da Estrada e Calçada do Visconde de S. Januário não há mesmo dúvidas de que estamos a falar do governador Januário Correia de Almeida (1872-1874).

Já será mais duvidoso que a Travessa do Caetano, que encontramos em Coloane, seja uma referência ao governador Caetano de Sousa Pereira (1803-1806) e é coincidência que governador Carlos Eugénio Correia da Silva (1876-1879), Visconde de Paço de Arcos, também seja evocado pela Rua Correia da Silva na Taipa ou até pela Rua Direita Carlos Eugénio, igualmente na Taipa.

Leonel de Sousa, o primeiro

Confirmando-se essa coincidência de nomes, João Maria Ferreira do Amaral (1846-1849) foi mesmo o primeiro governador a ser distinguido pela toponímia local, neste caso através de uma estrada, rua, praça e istmo (ainda existe?).

Isto porque um seu antecessor, e que também esteve presente na toponímia local, foi apagado, no caso Bernardo Soares Andrea (1833-1837), considerado por Monsenhor Manuel Teixeira o primeiro verdadeiro governador de Macau.

Só têm estatuto de governadores os nomeados depois de 1623, pelo que só 76 nomeações depois da original é que encontramos o primeiro governante ‘imortalizado’, o polémico Ferreira do Amaral.

Há contudo alguns capitães-mores, antecessores dos governadores, que também estão na toponímia local.

Do primeiro, Francisco Martins (1557), não vimos registo, mas o segundo, Leonel de Sousa (1558), tem uma rotunda na Taipa. João de Almeida (duas vezes capitão-mor, 1572 e 1582) tem uma rua em Macau e Lopo Sarmento de Carvalho (também duas vezes, 1617 e 1621) uma avenida.

Outro caso curioso é a referência a Pedro Martim Gaio, capitão-mor entre 1611 e 1612, perpetuado pela Calçada do Gaio (na zona da Ferreira do Amaral).

Interinos e vices

Curiosidade por curiosidade, e se falta a toponímia de alguns governadores, há outros que, sem o terem sido, estão nos arruamentos de Macau.

Começando por Inácio Sarmento de Carvalho, cuja travessa se situa na zona da Avenida D. João IV, e que Monsenhor Manuel Teixeira coloca na lista dos governadores de Macau.

A verdade é que este Inácio era filho de Lopo Sarmento de Carvalho (como vimos, com direito a uma avenida), mas não consta que tenha sido capitão-mor por cá.

Insólita é a distinção a Emílio Castelo Branco, evocado pela Avenida do General Castelo Branco (no Canídromo), que exerceu funções no “governo da província a 31 de Março de 1907 até 6 de Abril, em que o entregou a [Pedro] Azevedo Coutinho”. Sete dias, portanto.

Também a Avenida (e travessa!) do Almirante Lacerda evoca Hugo Carvalho de Lacerda Castelo Branco, encarregado do Governo (Manuel Teixeira refere-se-lhe como “Governador interino”) desde a saída de Maia Magalhães e a segunda chegada de Tamagnini Barbosa (1926).

Finalmente, se o governador Henrique Correia da Silva, apesar dos quase quatro anos que esteve em Macau (1919-1923), não é visto na toponímia de Macau, o seu “vice-presidente” (mais uma vez, citando Monsenhor), Almirante Magalhães Correia é recordado com uma avenida na zona da Areia Preta. Em Janeiro de 1923 chegou a Macau o governador seguinte, Rodrigo José Rodrigues.

Soares vezes dois?

A começar em D. Afonso Henriques, inúmeros líderes políticos portugueses têm também os seus nomes na toponímia local.

Mário Soares foi o último, mas o seu antecessor, Ramalho Eanes, também cá está. No caso de Mário Soares, há a avenida com o seu nome na Praia Grande. Mas não confundir com a Rua do Dr. Soares (na zona da Almeida Ribeiro), que Monsenhor Manuel Teixeira diz ser “o nosso amigo e distinto clínico”.

As últimas administrações portuguesas não quiseram homenagear os seus antecessores, provavelmente por estes, nessa altura, ainda se encontrarem vivos (a partir de Lopes dos Santos, 1959-1962), critério que não usaram, por exemplo, para esses dois presidentes da República. Falta saber se a RAEM alguma vez o fará, tal como a Edmund Ho.

Enquanto isso não acontecer, resta passear pelo Beco da Melancia, o Beco do Professor ou a Calçada da Rocha.

(Fontes: os dois Volumes da Toponímia de Macau, de Monsenhor Manuel Teixeira e a lista de capitães-mores e governadores na Wikipedia; o autor agradece eventuais correcções).

Quando a realidade supera a ficção

Talvez a Travessa Sancho Pança (que, já agora, começa na Calçada das Verdades) seja o elemento mais pitoresco de uma toponímia absolutamente genial. Mas como ficar indiferente aos nomes de dezenas de pátios, travessas e becos que existem em Macau? O Pátio do Alfinete, ao fundo do da Agulha, mas já longe do Beco do Botão, que começa na Travessa do Colchete? O da Ameaça, junto à Rua de S. Paulo, ou o do Ídolo (que termina na Rua da Felicidade)? O do Desgosto ou da Dissimulação (na Rua da Caldeira)? Talvez o Pátio da Eterna União, rumo ao da Felicidade, ainda que sem passar pela Rua Fonte da Inveja, mas com uma paragem no Pátio da Harmonia? Fico para já, e se me permitem, pela Calçada das Sortes, com um desvio pela Travessa da Saudade, rumo ao Pátio da Ilusão.

Verdades

Da Calçada das Verdades (entre S. Domingos e Pedro Nolasco da Silva) parte a Rua das Verdades, mas também a Travessa das Verdades, o Beco das Verdades e o Pátio das Verdades. Mentira?

A água do Lilau…

… já não se bebe, mas pode passear-se, pela Rua, Beco, Travessa, Largo, Pátio ou Calçada do Lilau, tudo na mesma zona, entre a Barra e a Penha. Monsenhor Manuel Teixeira diz, no Volume I da “Toponímia de Macau”, que “havia neste local a famosa Bica do Nilau. (…) A Bica do Lilau tornou-se tão célebre que entrou no folclore”. O historiador diz que as duas designações, Lilau ou Nilau, são correctas.

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