– Quando chegou a Macau sentiu realmente que se respira aqui um pouco de Portugal?
José Luís Peixoto – Já tinha a expectativa de encontrar algo de Portugal. Não sabia exactamente quais eram as formas desse Portugal que chegou até aqui e até que ponto era efectiva a presença do país. Nestes dois dias, a impressão que tenho é que realmente essa história que partilhamos com Macau é muitíssimo importante, para nós e para Macau. Devemos esforçar-nos para que essa consciência exista, na medida em que se trata de um encontro entre duas civilizações que, mesmo numa era de globalização, ainda têm muitíssimos mal entendidos. Inclusivamente estes existem até sob um ponto de vista pessoal, na forma como nos relacionamos – mesmo quando encontramos alguém que fala a nossa língua ou uma língua intermédia que nos permita comunicar, permanece a dúvida se nos estamos realmente a fazer entender e a entender os outros. Parece-me que se tivermos um espírito aberto há muito para aprender. Aquilo que me fascina, neste momento, é justamente perceber o quanto existe para conhecer, descobrir e aprender.
– Actualmente, é um dos escritores portugueses mais traduzidos em todo o mundo. A sua obra já chegou à China?
J.L.P. – Começaram a ser traduzidos alguns textos meus para chinês no âmbito de um projecto universitário que está a ter lugar em Pequim. Para mim, é deslumbrante ver os meus textos chegarem até aqui. Realmente, é uma tradução que me parece que vai para lá daquilo que são as próprias questões linguísticas. Explicar em chinês e na China temas recorrentes da minha escrita, como o Alentejo ou muitas marcas da identidade portuguesa, parece-me que é um desafio.
– Neste trabalho de tradução, não teme que algo se perca?
J.L.P. – Quanto maiores forem as diferenças entre as línguas, maior terá de ser essa adaptação. Mas também me parece que isso é algo que faz parte da natureza da própria língua e, se calhar, até da própria experiência humana. E a tradução é o meio que existe para que, realmente, a literatura consiga ultrapassar essas fronteiras e consiga chegar longe.
– Pensa nisso quando escreve? Em chegar ao maior número de pessoas possível?
J.L.P. – Não. Quando escrevo acabo por ter presente a ideia de um leitor, mas um leitor abstracto que pode ser toda a gente e, de certa forma, acaba por ser o mundo inteiro. Não é possível escrever e imaginar que algum dia se chegará à China. Acho que isso é uma ideia tão extrema e tão transcendente que é muito difícil a um escritor português ter essa consciência. Deve-se escrever para aquilo que é o humano, para exprimir o melhor possível aquilo que são preocupações ou o que faz parte da vida de toda a gente. A literatura deve apontar para aquilo que é comum a todas as épocas e para a natureza humana no seu estado mais nuclear. Nessa medida, fico muito contente quando existe a possibilidade de chegar a leitores que não são os mais evidentes.
– Vai ser júri do concurso de contos que tem lugar durante o Rota das Letras. Expectativas?
J.L.P. – Já fui júri de concursos de textos noutras ocasiões, mas acho que este acaba por ter características muito especiais, na medida em que a escrita acaba, pela sua natureza, por reflectir a experiência de quem escreve. E sendo este um concurso de contos dirigido a pessoas que têm uma experiência muito particular, para mim vai ser também uma forma de conhecer melhor este Macau que começo agora a descobrir. Espero que isso possa dar ânimo para que se escreva mais sobre o território, para que também em Portugal conheçamos um pouco melhor este lugar que faz parte do imaginário de tanta gente, mas que muitas vezes não se concretiza completamente. Estar aqui é muito diferente daquilo que se imagina em Portugal. P.G.