Os chineses não são só gente em campos de arroz. E os portugueses têm mais do que vinho e fado. As diferenças entre Ocidente e Oriente estiveram ontem em análise no I Festival Literário de Macau. As semelhanças também.
A atracção e desconhecimento entre o Oriente e Ocidente e os efeitos da globalização nesta relação fizeram parte dos temas ontem em debate por autores de ambos os hemisférios no segundo dia do Festival Literário de Macau, que decorre até sexta-feira.
“A minha grande curiosidade é saber se no século XV o navegador chinês [Zheng He] tivesse chegado à Europa, como é o que mundo seria hoje”, disse o realizador português Miguel Gonçalves Mendes durante o painel “Oriente e Ocidente: imaginários que se atraem?”.
Para o autor do documentário “José e Pilar”, “há um desconhecimento total do Ocidente sobre o Oriente e a visão é sempre superficial, porque é muito exótica e baseada em estereótipos”.
“Nós olhamos sempre os outros através de estereótipos. É triste, mas é assim: temos a imagem dos chineses num campo de arroz, e dos portugueses a beber vinho e a cantar fado”, disse, ressalvando, no entanto, que “depende sempre da forma como a história é contada”.
Com dúvidas “se a aldeia global a que pertencemos é mais ou menos rica”, Miguel Gonçalves Mendes considerou que “quem talvez tenha percebido melhor a cultura oriental tenham sido as pessoas que a viveram”, dando o exemplo da passagem por Macau de Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes.
“Todos os países grandes têm um problema de falta de curiosidade, porque eles são tão grandes que estão sempre a olhar para o seu umbigo. Felizmente nasci num país pequeno e sempre tive imensa curiosidade”, disse o realizador.
A escritora taiwanesa Lolita Hu concordou com o realizador português, ao sublinhar que nascer num território pequeno aumenta as capacidades individuais “porque se é obrigado a olhar para fora e a aprender com isso”.
Mas na sua perspectiva, a globalização “tornou tudo demasiado politicamente correcto e aborrecido”, mesmo na abordagem dos estereótipos.
Já a escritora Xu Xi, que moderou o debate, invocou ainda a emergência da “superpotência” chinesa: “A China está no centro das atenções actualmente, incluindo a língua chinesa, que agora todos querem aprender”.
Por sua vez, o jornalista Paulo Aido referiu o papel do escritor “nos tempos modernos, onde tudo acontece a grande velocidade”. “Todos nós temos um metro quadrado de influência no mundo. A Primavera Árabe começou porque um homem desesperado se imolou. A escrita também tem esse poder”, indicou.
Para Aido, jornalista fundador do PONTO FINAL, “uma simples história de amor pode provocar um contágio” e conduzir a movimentos de mudança no mundo globalizado. “Nos próximos anos podemos estar a falar de várias Chinas porque a censura e os bloqueios ao Facebook não vão durar para sempre”, observou.