A China perdeu a oportunidade de conquistar e seduzir o mundo no século XV quando também era muito forte, disse ontem a escritora taiwanesa Lolita Hu, no segundo dia do Festival Literário de Macau.
“O navegador chinês Zheng He viajou no século XV, numa altura em que a China era muito forte. E a sua missão era a de ‘relações públicas’ e não comercial, ou seja, era divulgar e perceber a grandeza da China no mundo. É uma pena para os chineses. Éramos tão fortes e não sentíamos necessidade” de ir mais além, disse.
Durante a sua intervenção no painel “Oriente e Ocidente: imaginários que se atraem?”, a escritora de língua chinesa mencionou o isolamento da China ao longo dos séculos, em contraste com o interesse das outras nações.
“A China perdeu a oportunidade de conquistar e seduzir o mundo. Mas, também, todos vinham à China; os portugueses vieram para Macau”, enumerou.
Nascida em Taipé e fã confessa da cultura ocidental, Lolita Hu não deixou, porém, de apontar “a hipocrisia” do Ocidente em relação ao Oriente. “Há muitos anos que observo o mundo pelos olhos ocidentais e gosto disso. Mas espero que quando conseguirmos ser traduzidos percebam que também temos modernidade e que não somos uma sociedade zangada com a colonização”, disse.
Lolita Hu criticou ainda os condicionamentos gerados pela visão “antiga” em relação ao Oriente, porque “a literatura chinesa para ser traduzida tem de falar de temas antigos”. “A tradição é importante, mas eu quero ter a minha própria definição de modernidade, porque até agora ela é definida pelo Ocidente. Eu escrevo sobre a vida urbana. Também temos isso: vejam Hong Kong, Tóquio”, sustentou.
Por outro lado, “através da escrita, posso criar a minha perspectiva. Não tenho de escrever a insultar o Ocidente. Isso também não seria original de qualquer maneira”, afirmou.
Um dos objectivos de Lolita Hu é quebrar a barreira geográfica auto-imposta pelos escritores chineses. “Eu crio histórias usando oito cidades. Os autores chineses falaram sempre só de chineses e eu quero quebrar essa barreira. Nesse sentido sempre invejei os ingleses, porque nunca deixaram de escrever outras personagens que não eram ingleses”, acrescentou.
A autora de “The Traveler”, “My Generation”, “The Sentimentalist” ou “The Human Comedy” disse também ter sido inspirada por Fernando Pessoa quando leu os seus livros ainda “muito nova”.
Lolita Hu também é jornalista, tendo trabalhado em Hong Kong, Pequim e Xangai para jornais como o South China Mourning Post. Actualmente mantém colaborações com várias publicações de língua chinesa e um blogue, dividindo o seu tempo entre Tóquio e Paris.
