Vicente Jorge em imagens

Descrito como uma das figuras macaenses mais marcantes, José Vicente Jorge pode ser conhecido numa fotobiografia que é esta tarde apresentada pelos netos. As imagens, muitas inéditas, também mostram uma época.

Maria Caetano

Mediou entre Pequim e Lisboa no período da implantação da República portuguesa, foi mestre de língua chinesa de Camilo Pessanha, divulgou a arte e a cultura sínicas em português, interpretou, leccionou, defendeu, julgou.

José Vicente Jorge é, como alguns outros macaenses da sua época – Carlos d’Assumpção e Luís Gonzaga Gomes, por exemplo –, uma figura que vem merecendo epíteto de “ilustre” pelo papel – ou papéis – desempenhado à sua época. Se várias das suas facetas estavam já divulgadas, conhece-se-lhe agora melhor outra, a de diplomata, numa fotobiografia trilingue (em português, chinês e inglês) que reabilita várias imagens, informações e objectos até aqui guardados em Lisboa pelos netos Pedro Barreiros e Graça Pacheco Jorge.

O casal lança esta tarde, com a chancela do Albergue da Santa Casa da Misericórdia, a obra “José Vicente Jorge, Macaense Ilustre”, há alguns anos em preparação como forma de preservar e divulgar um espólio que se encontrava restringido ao círculo familiar do intérprete macaense, cuja vida percorreu as últimas três décadas do século XIX e a primeira metade do século XX.

“O projecto tem mais ou menos três anos. Independentemente de já ter havido alguma investigação prévia, de há três anos para cá começámos a fazer o livro”, conta Pedro Barreiros, que em conjunto com a mulher, Graça Pacheco Jorge, tomou a tarefa de “procurar, escolher, fotografar” os documentos que revelam um pouco mais “não só sobre a figura de José Vicente Jorge, mas também sobre Macau daquela época, da primeira metade do século XX”.

A obra, prefaciada pela historiadora Tereza Sena, permite conhecer um grande número de imagens inéditas e oferece-se com uma divisão temática estruturada sobre os momentos mais importantes da vida de Vicente Jorge – incluindo nascimento, formação, casamento, ligação com Camilo Pessanha, coleccionismo de arte chinesa, e partida para Portugal com a Guerra do Pacífico.

“Nas 360 páginas que tem deve ter 400 fotografias, e a maior parte delas é publicada pela primeira vez. Além de fotografias, há documentos, imagens de objectos. É uma obra que ficou muito rica, de divulgação”, descreve Barreiros.

Cada um dos capítulos abre com uma introdução feita pelo casal. “É um texto equilibrado, que não tem a pretensão de ser erudito. Nem eu nem a Graça somos investigadores históricos, fizemos uma investigação que considerámos suficiente para a publicação do livro e deixámos o caminho aberto para outras pessoas poderem prosseguir o estudo desta família Jorge, que é uma das famílias mais antigas de Macau”, conta o neto de Vicente Jorge.

As centenas de fotografias publicadas apresentam-se também como “um louvor a um fotógrafo que havia em Macau, macaense, chamado Carlos Cabral”, autor de grande parte das imagens.

“Esteve enquanto jovem em Pequim, ao mesmo tempo que José Vicente Jorge. Há várias fotografias de Pequim que publicamos que são da autoria de Carlos Cabral, há fotografias de Macau e também do interior da casa”, explica Barreiros. A casa era um palacete ao número 20 da Rua da Penha, mais tarde convento de religiosas e, por fim, destruído por um incêndio.

Da mesa à justiça

“José Vicente Jorge, Macaense Ilustre” não é o primeiro livro a ser publicado sobre o macaense que, em 1890, iniciou funções no Expediente Sínico – que apoiava as repartições públicas nas relações com a comunidade chinesa – e que nos primeiros anos do século XX esteve destacado em Pequim, ao serviço da diplomacia portuguesa. Já antes foram melhor conhecidas outras facetas suas.

As tradições gastronómicas familiares foram perpetuadas em 1992, com “A Cozinha de Macau da Casa do meu Avô”, de Graça Pacheco Jorge, com edição do Instituto Cultural.

Já em 1995, Pedro Barreiros foi responsável pela reedição de “Notas Sobre a Arte Chinesa”, originalmente publicada em 1940, com uma introdução sobre a faceta de coleccionador de José Vicente Jorge. No mesmo ano, Barreiros assumiu a tarefa de lançar um livro sobre as “Elegias Chinesas”, traduzidas por Camilo Pessanha e Vicente Jorge, que destaca o papel de sinólogo do avô.

Na nova obra destaca-se a figura do “intérprete que foi para a delegação em Pequim”. “Durante o tempo em que o embaixador monárquico tinha ido embora e o republicano ainda não tinha chegado, foi ele o representante em Pequim de Portugal”, salienta Barreiros.

“Falamos aqui também da faceta de professor de chinês e de inglês. E na faceta pessoal, de homem – e, neste caso, avô, como nós o conhecemos”, acrescenta. Para o efeito, o livro completa-se com informação genealógica, de ascendentes e descendentes.

E há outros aspectos da vida de Vicente Jorge que também merecem divulgação. “Foi advogado provisionário. Eram pessoas que não eram licenciadas, mas cuja sabedoria lhes permitia exercer o magistério da advocacia. Foi algumas vezes juiz do Tribunal Privativo dos Chineses, pelo conhecimento que tinha da lei, da língua e dos costumes chineses”, lembra o neto.

São, segundo Barreiros, funções que revelam a “dupla personalidade” de Jorge: “Para ser diplomata em Pequim é porque era considerado português em Pequim. E para ser juiz no Tribunal Privativo dos Chineses é porque gozava de respeitabilidade pela comunidade chinesa como um igual, caso contrário não aceitavam as sentenças que ele dava”.

A fotobiografia é apresentada esta tarde, às 18h30, no Albergue, numa altura em que se aguardam ainda novidades sobre o processo de estabelecimento de uma casa-museu para albergar o espólio do macaense, que a família já manifestou estar disposta a doar.

“Nesta altura penso que as entidades de Macau interessadas estão a desenvolver um projecto que parece bastante interessante para poderem um dia receber as nossas coisas”, diz Barreiros. “Macau é o sítio onde as coisas devem ficar”, reitera também Graça Pacheco Jorge.

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