Macau arrumada numa página


Ainda não é desta que Mário Soares se ‘reconcilia’ com Macau. Foram tantas as dores de cabeça que o antigo Presidente prefere passar por cima. Em 500 páginas de autobiografia, uma fala do território.

João Paulo Meneses

Desde logo uma nota prévia: a biografia política de Mário Soares, de tão vasta, dificilmente poderia ser contida num único volume, mesmo de 500 páginas, como aquele que acaba de ser publicado pelo Círculo de Leitores.

Soares, se tivesse essa vontade (e tempo?) poderia (deveria?) fazer diversos volumes, porque a sua biografia política é, em muitos casos, (uma parte d)a biografia política de Portugal, sobretudo depois de 1974 e até deixar de ser Presidente da República.

Mário Soares teve outra opção e tentou meter tudo num único livro, que – como acaba por acontecer – só podia resultar numa obra desequilibrada: a necessidade de percorrer cronologicamente toda a sua vida política faz com que os grandes momentos por vezes coexistam com meras datas de calendário, como se a metodologia tivesse sido passar em revista um qualquer diário (apenas um exemplo, entre muitos: “Em Outubro de 1995, fui a Barriloche, na Patagónia, na Argentina, para participar na Cimeira Ibero-Americana. Regressei pelo Uruguai, por insistência do presidente Sanguinetti, tendo visitado a cidade de Sacramento, no rio da Prata, onde inaugurei um busto do navegador português Manuel Lobo, fundador da cidade, oferecido pela Fundação Gulbenkian”; pág. 421).

Uma segunda nota prévia: embora o autor destas linhas seja apenas um interessado pelo lado oriental de Mário Soares, fica a sensação, pelo que se leu e pelo que já se ouviu de quem é um especialista, que o livro não traz novidades que ajudem a compreender melhor a história recente de Portugal. Seja porque essas novidades (já) não existem, seja porque Soares as não quis contar.

A idoneidade pessoal de Soares

Relativamente a Macau podem os leitores do PONTO FINAL ficar com uma certeza: o livro é extremamente desinteressante, na proporção inversa do espaço que ocupa no contexto geral.

Soares gasta uma página para dizer que “mais grave foi nessa altura [1990, final do primeiro mandato] a ofensiva que fizeram contra mim, vinda da extrema-direita, para me comprometerem com o caso Emaudio – dinheiro que se dizia vindo de Macau para comprar um televisão privada. O que nunca chegou a acontecer. Tentaram envolver nisso o antigo ministro e governador de Macau – onde, aliás, fez uma obra excelente –, Carlos Melancia, nomeado por mim, que foi mais tarde julgado e absolvido”.

Soares vai explicar à frente que Basílio Horta, candidato da direita às eleições presidenciais de 1991, haveria de o atingir na sua “idoneidade pessoal”, mas a história não está bem contada.

É verdade que Basílio Horta (com quem Soares cortou relações, tendo feito as pazes “bastantes anos depois”) o atacou nos debates televisivos e em diversas outras circunstâncias, mas isso acontece apenas numa fase final do chamado “escândalo do fax de Macau”.

Também havia dinheiro, como diz Soares, para comprar uma televisão privada [a TDM], mas o dinheiro que provocou escândalo foi o da Weidleplan, que pagou 250 mil euros aos soaristas da Emaudio para ganhar o concurso do aeroporto de Macau – e os tribunais portugueses deram o caso de corrupção como provado e Mateus, como os outros sócios, foi condenado.

Rui Mateus

O antigo Presidente atribui este caso a um “fundador do Partido Socialista, de poucas letras, mas que falava bem o inglês, que conheci em Londres, onde era empregado num restaurante [Rui Mateus, que nunca nomeia]. (…) A ambição cegou-o. Pediu-me para ser ministro dos Negócios Estrangeiros num dos meus Governos. Disse-lhe que não era possível porque não tinha habilitações nem competência para tanto. Ficou ressentido comigo e chegou a escrever um livro – com a ajuda de quem? – que aliás nunca li e alimentou a intriga”.

Mais uma vez Mário Soares passa por cima de pormenores fundamentais. O livro de Rui Mateus [Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido] sai bastante tempo depois do caso, no final do segundo mandato. E o caso é que a Emaudio aceitou os 250 mil euros da Weidleplan e quando esta perdeu o concurso não os devolveu.

É verdade que foi Rui Mateus quem deu o fax dos alemães a O Independente, mas para tentar forçar – explicou no livro e no julgamento – a devolução do dinheiro.

E Rui Mateus tem, na vida política e pessoal de Soares, muito mais protagonismo do que aquilo que Soares quer dar a entender.

Rocha Vieira esquecido

No resto, Mário Soares refere-se de passagem à visita que fez em 1995 à China e a Macau (“(…) por termos sabido desenvolver em Macau, na fase de transição, uma política de estabilidade e equilíbrio, sem problemas graves, que a China sempre apreciou, sabendo que Portugal, na União Europeia, seria sempre um seu amigo leal”) e noutro breve parágrafo aos massacres da Praça de Tiananmen, em 1989: “nunca esquecerei, por cem anos que viva, essa extraordinária imagem de um anónimo chinês que, desarmado, fez parar os tanques da repressão, nessa praça histórica… Foi a prova de como a vontade política – e a coragem de uma homem – pode fazer parar, por um momento inesquecível, a poderosa máquina repressiva de um regime totalitário”.

Ou seja, não há por exemplo qualquer referência a Vasco Rocha Vieira, o governador que lhe aliviou as dores de cabeça orientais, nem a Pinto Machado, o seu primeiro governador de Macau.

Não há, sequer, dados sobre as negociações com a China sobre o estatuto de Macau (ou sobre a mítica acusação de que Soares ofereceu o território à China em 74/75) ou sobre as outras visitas que fez ao Oriente.

Daí que, para quem segue com atenção os interesses orientais de Soares, pareça lógico poder dizer-se que ainda não foi desta que o antigo presidente fez as pazes com Macau – ou uma das principais dores de cabeça dos seus dois mandatos presidenciais.

Talvez quando escrever as suas memórias…

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