Nem todos estão juntos

O documentário “Together”, que testemunha os preconceitos que os seropositivos sentem na China, passa esta sexta-feira no Politécnico. Por cá, diz Fátima Tse, também há discriminação – apesar de todos dizerem que é errado.

Stephanie Lai

O documentário contra a sida “Together”, filmado na China e projectado este ano no Festival de Cinema de Berlim, vai passar esta sexta-feira no Instituto Politécnico de Macau (IPM). O evento está incluído num fórum sobre a doença, que vai contar com a participação de médicos e assistentes sociais de Macau e Hong Kong. A Associação de Cuidados de Sida de Macau (ACSM) diz que a estigmatização dos seropositivos é ainda evidente no território e fala em exclusão social.

Em 83 minutos, o documentário “Together”, realizado e produzido por Gu Ghangwei, acompanha a equipa de filmagens no processo de selecção de seropositivos, através do chat “QQ”, para um outro filme do realizador, “Love for Life”, também lançado este ano. “Together”, um dos 20 documentários exigidos em Fevereiro no festival de Berlim, é um registo de diálogos sobre a doença – como é que o vírus foi contraído, o que mudou e quais foram os problemas que surgiram.

“Não posso actuar no filme [“Love for Life”]. Os meus pais morreriam se o fizesse”, escreveu no “QQ” um seropositivo identificado como “Anjo Invisível”. A oposição das famílias à participação no filme foi um obstáculo comum para os actores e actrizes portadores do vírus da SIDA que se voluntariaram para o projecto, conforme se pode ver em “Together”. O medo e o estigma de ser reconhecido em público como um “doente com sida” é outra das ideias fortes do documentário.

O fenómeno, contextualiza Maria Fátima Tse, presidente da ACSM, aplica-se aos seropositivos de Macau, um território pequeno, onde praticamente toda a gente se conhece. “Inicialmente, o embaixador [na China] do UNAIDS [Programa Conjunto das Nações Unidas sobre a SIDA] queria ter um encontro cara-a-cara com um seropositivo de Macau, para uma conversa privada, mas nem mesmo o nosso paciente mais aberto aceitou porque tinha medo de ser prejudicado no local de trabalho e no meio familiar”, conta Tse.

A dirigente da ACSM, uma das oradoras da conferência de sexta-feira, destaca que a população de Macau reconhece que não é correcto discriminar pessoas que sejam portadoras do vírus da sida – mas tendem a evitar contactos com seropositivos. “Um exemplo que me parte o coração foi o de uma assistente social com experiência que um dia me disse que preferia oferecer apoio financeiro aos deficientes do que aos doentes com sida porque achava que eles não mereciam ser ajudados”, ilustra Tse.

A história contrasta com o comunicado oficial sobre o fórum do IPM e o documentário “Together” enviado ontem às redacções. Os Serviços de Saúde dizem que o coordenador da UNAIDS na China, Mark Stirling, teve encontros com representantes da Comissão da Luta contra a Sida e associações locais, e “elogiou a colaboração interserviços, a participação da sociedade, o êxito resultante das medidas de vigilância epidemiológica, as medidas complexas de redução de danos dos toxicodependentes e o acompanhamento sobre o tratamento dos doentes”. Disse também que “vários aspectos serviam de referência para outros locais” e traçou duas metas para Macau: reduzir para metade os casos de transmissão do vírus por via sexual e baixar a incidência da doença em consumidores de droga “para zero”.