Presos no ciclone

Nem barco, nem avião. Nem autocarro público, nem shuttle. Táxis, nem pensar – a cobrança acima da tarifa em dias de tufão já afasta passageiros. O Nesat passou e imobilizou a cidade durante mais de 12 horas.

Stephanie Lai

A passagem da tempestade tropical Nesat provocou atrasos e cancelamentos nos transportes aéreos, marítimos e rodoviários durante o dia de ontem, deixando turistas e população sem meios de se deslocarem e no impasse de longas filas, ocorridas sobretudo nas Portas do Cerco e no terminal de ferries do Porto Exterior. As fortes chuvas que caíram durante a madrugada e início da manhã de ontem também voltaram a provocar inundações nas zonas baixas da cidade, com particular gravidade em estabelecimentos de comércio do Porto Interior.

Durante mais de 12 horas – entre as 6h e as 18h30 – permaneceu hasteado o sinal número 8 de aviso de tufão, suspendendo os serviços de transportes públicos, mas também os autocarros turísticos dos casinos – os destinados a funcionários mantiveram-se em operações. A paragem dos veículos de transporte público e particular apanhou de surpresa muitos visitantes do Continente, que aguardavam junto à fronteira pelos chamados shuttle-buses dos operadores hoteleiros e de jogo.

Cerca das 14h15, Chan, que trabalha na zona central da cidade, esperava em vão pela boleia de um autocarro de casino. Não disposto a apanhar um táxi, acabou por ligar a um amigo para que o apanhasse de carro.

“Cerca do meio-dia, caminhei desde o Mercado Vermelho até às Portas do Cerco, porque ia almoçar a Zhuhai. O caminho fez-se bem, mas não me apetece apanhar agora um táxi para o centro porque o motorista ia pedir-me, pelo menos, 100 patacas – alguns pedem bem mais que isso”, explica o indivíduo.

Chan lembra que os próprios Serviços para os Assuntos de Tráfego emitiram um aviso aos condutores de carros de praça, para que não cobrem acima da tarifa em dia de tufão. A penalização é de mil patacas, mas, ainda assim, o homem desconfia da conduta dos taxistas e prefere não arriscar.

Duas longas filas de passageiros em espera alinhavavam-se durante a tarde de ontem na paragem de táxis das Portas do Cerco. Muitos dos que se cansavam de esperar, tentavam junto ao viaduto pedonal adjacente ao Campo dos Operários, mais ao lado.

Na ansiedade de conseguir fazer o percurso até à zona do Grand Lisboa, no centro da cidade, houve quem cedesse à oferta improvisada de um veículo sem licença de aluguer. O condutor oferecia a “boleia” a troco de 150 patacas.

Soluções por terra

No Terminal Marítimo do Porto Exterior, centenas de passageiros viram-se impedidos de viajar com a suspensão do transporte por ferry que se manteve até às 18h30, altura em que o sinal 8 foi substituído pelo aviso número 3 de alerta dos Serviços de Meteorologia e Geofísica.

Shaikh, um fornecedor de pedras preciosas residente em Hong Kong, de 33 anos, encontrava-se durante a tarde, e desde as 7h, à espera de uma ligação que o levasse de volta à região vizinha.

“Além dos turistas do Continente, há muitas pessoas de várias nacionalidades que vieram de Hong Kong – desde ocidentais a coreanos e japoneses. Estamos todos ansiosos por voltar”, descreveu ao PONTO FINAL. “Parece-me que Macau precisa sobretudo de alternativas de transportes terrestres, e não de estar tão dependente do serviço de ferries”, disse.

No aeroporto internacional, apesar do descontentamento com uma longa espera pela retoma dos voos que foram cancelados devido ao Nesat, os responsáveis da estrutura descreviam uma situação ordeira. Até cerca das 18h, houve 15 ligações aéreas suspensas, que tinham como destino cidades do Continente, Taiwan, Filipinas e Tailândia.

À semelhança do que tem ocorrido em ocasiões anteriores de tempestade tropical, a zona do Porto Interior voltou ontem a sofrer inundações, com o nível máximo da água a ficar pelo joelho – cerca de 50 centímetros. Vários lojistas, alertados pelos Serviços de Meteorologia, tomaram providências de antemão, colocando os produtos e máquinas em locais mais elevados do que o habitual.

Seis feridos à passagem do Nesat

A passagem da tempestade tropical Nesat pelo território esteve na origem de 121 incidentes, reportados pelo Centro de Operações de Protecção Civil. Houve seis feridos ligeiros – a maior parte cidadãos que perderam o equilíbrio na rua devido à força dos ventos –, bem como casos de queda de objectos e árvores, e pelo menos um caso de ruína parcial de um imóvel. A força dos ventos – que chegaram a registar rajadas de velocidade superior a cem quilómetros horários – e dos aguaceiros esteve na origem da queda de um tapume e da suspensão de quatro andaimes de construção, além de casos de reclames, toldos, janelas e chapas metálicas que caíram ou ficaram fragilizadas. Ocorreu também a queda de 20 árvores e de um poste de iluminação – outras três árvores ficaram suspensas. A Protecção Civil deu ainda conta, ontem, de dados relativos a 18 turistas que se encontravam retidos no Terminal Marítimo do Porto Exterior e foram apoiados, e de dez pessoas que foram acolhidas no Centro de Abrigo do Instituto de Acção Social. Foram ainda reportados um acidente de viação, sete casos de inundação, e um dano na rede de abastecimento da água potável.