Quem passe na Rua do Cunha, na vila da Taipa, dificilmente vai ficar indiferente ao edifício amarelo de quatro pisos, repleto de pinturas coloridas que retratam cenas de Macau: comerciantes, lojas, autocarros, mães com filhos pela mão, pandas, néones publicitários. Tudo o que faça parte do imaginário da Macau que não é a dos casinos e dos arranha-céus.
Esse exterior feito mural de costumes, moderno e atractivo, é o embrulho perfeito para aquilo que o Cunha Bazaar pretende ser: um local onde a tradição e a criatividade se cruzam. Este é o mote do novo espaço da Macau Creations, que mais uma vez pretende dar visibilidade aos artistas locais.
A empresa já tinha uma loja junto às Ruínas de São Paulo, conhecida como ‘casa amarela’, onde objectos como cadernos, camisas e carteiras incorporavam o traço de vários artistas locais. Um ano depois, surge o Cunha Bazaar, que mantém o conceito mas não pretende ser uma ‘casa amarela 2’ na Taipa. A loja abriu portas na sexta-feira passada.
A grande diferença, além da dimensão – o Cunha Bazaar tem quatro pisos dedicados a diferentes linhas de produtos –, é a parceria com a padaria Choi Heong Yuen. Nascida em 1935, a marca de bolos é a mais antiga de Macau e foi uma pioneira na produção de produtos de pastelaria e padaria chineses no território.
Os bolos, de vários tamanhos, feitios e cores, em embalagens vermelhas, amarelas, laranjas, brancas, pretas, são a primeira coisa que vemos, já que o rés-do-chão da loja está aberto para a rua. Há também molhos e pastas para cozinhar e produtos secos derivados do marisco.
Wilson Lam, fundador da Macau Creations, explica que o edifício pertence à Choi Heong Yuen, mas que ali estava antes um restaurante, apesar de fechado há sete anos. “Isto podia ser um outro café ou restaurante, mas o dono [da padaria] não queria isso e gostou muito da ideia que lhe propusemos de criar um espaço para os artistas de Macau.”
A ideia de Lam era fazer algo diferente: “As lojas parecem todas iguais, não têm graça, eu queria uma coisa original”. O chão desenhado, as paredes cobertas de postais antigos e um enorme mural, que vai do rés-do-chão ao último andar, ilustrando a azáfama da Avenida Almeida Ribeiro, ajudam a cumprir o objectivo.
Pandas por todo o lado
No primeiro piso o tema é fácil de identificar. Por todo o lado pandas, pandas e mais pandas. Em sabonetes, t-shirts, malas, almofadas, porta-chaves, cadernos, guarda-chuvas. São pandas que se vêem na televisão, que vendem bolinhos nos tradicionais tabuleiros circulares, que guiam riquexós, passeiam junto às Ruínas, tomam banhos de espuma, conduzem motas do Grande Prémio.
A marca é a Soda Panda, de Mavis Young, e pretende levar aquele que já é o embaixador da RAEM numa viagem no tempo, à Macau dos anos 60 e 70. “Soda também é uma alcunha que se dá a Macau, daí o nome”, explica Wilson Lam.
É no segundo andar que o Cunha Bazaar mais se assemelha à loja da Macau Creations junto às Ruínas de São Paulo. Aqui se reúnem peças várias ilustradas por cerca de 35 artistas locais. Lápis, malas, capas para telemóveis, carteiras, cadernos, espelhos, canecas e chávenas. Apesar de comuns, nenhum destes objectos podia ser encontrado em qualquer outro lugar. Neles está gravada a identidade de Macau, os seus ex-líbris e impressões digitais. É garantido que o visitante levará para casa uma memória das Ruínas de São Paulo, do Leal Senado, da Guia, do Tap Seac, dos telhados coloridos, das típicas placas com os nomes das ruas em duas línguas, das lojas e bazares da cidade.
Destaque para o conjunto de fotografias a preto e branco, logo no cimo da escada, que retratam Macau, dos monumentos às ruas mais secundárias, passando por pessoas, mercados e templos. Da autoria de Hin-Io Chan, estes “fragmentos de vida” (como são descritos pela loja), estão envoltos em simples caixas de cartão preto mas não perdem o impacto.
Subindo para o último piso do Cunha Bazaar, encontramos um espaço organizado de forma menos comercial, sem prateleiras ou tabelas de preços. Dois cadeirões brancos dominam a sala. No centro um móvel com chávenas e pequenos objectos de porcelana. Um longo espelho branco reflecte a luz da ampla varanda. Wilson Lam explica que este é ainda “um pequeno estúdio”. A ideia é que as pessoas possam estar aqui de forma mais descontraída, não tanto numa lógica de loja. O empresário diz mesmo estar a ponderar fazer ali um pequenino café, mas a ideia ainda não passa de um desejo.
Lam pega numa chávena lilás. “Estas são peças únicas, não há duas iguais. Se levar isto para casa é a única a ter uma assim”, explica. Este último andar é dedicado ao artesanato. Aqui já não há ruínas, nem pandas nem bolos. Não há imagens, só formas, objectos criados por artesãos locais. Tudo é feito à mão e se, por enquanto, a sala ainda está meio vazia, o responsável manifesta a vontade de desenvolver esta faceta do Bazaar e ter ali mais peças.
É no estúdio que está o objecto preferido de Wilson Lam. Um grande relógio de parede, sem números, inteiramente forrado com notas de diferentes pontos do mundo. “O artista usou dinheiro verdadeiro, o que é muito engraçado”, conta Lam. O empresário considera o conceito desta peça “muito interessante”: “A ideia é que, ainda que não se consiga ver o tempo, as horas, todos os minutos do dia devem ser usados a tentar fazer dinheiro”.
“Seria óptimo para papel de embrulho”
A Macau Creations trabalha actualmente com cerca de 35 artistas locais, mas continua disponível para receber mais. Wilson Lam explica que não é necessário ter logo em mente o produto final. Não é preciso perceber de design de canecas para se abordar a empresa. “O suporte pode ser o que quiserem. Muitos dos nossos artistas pintam, por exemplo. Se tiverem um portfólio enviem-mo ou venham cá mostrar”, incentiva. Lam aponta para um desenho de uma cidade, a preto e branco, que ocupa uma parede inteira do último piso: “Se um artista pinta uma imagem deste género sobre Macau faz-me logo pensar ‘isto seria óptimo para papel de embrulho ou para um bule’”. O responsável explica que, tendo um ficheiro digital, pode levá-lo ao designer e tentar perceber qual a melhor aplicação para o trabalho.
De porta aberta há menos de uma semana, Lam faz um balanço positivo. “As pessoas da vizinhança estão muito contentes com a loja porque traz toda uma nova vida à zona.” A afluência, no entanto, não se tem demonstrado constante: “Esta rua é muito estranha. Às vezes está a abarrotar de gente, outras vezes está completamente vazia. Mas se vier aqui a um sábado, domingo ou feriado nem consegue entrar de tão cheia que está”.
O responsável pela loja admite que a maioria dos visitantes são turistas e que vêm em grande parte de Hong Kong. E que a localização dos casinos do COTAI o tem beneficiado. “As pessoas apanham o shuttle do Galaxy que as leva até aqui. Como os turistas ficam sem saber o que fazer, entram na loja”.
Wilson Lam nasceu em Macau, onde trabalhou de 1975 até 1983. Depois de uma longa estadia no Canadá, teve a ideia para a Macau Creations, em 2006. Há dois anos decidiu regressar e pôr o seu projecto a mexer.
O Cunha Bazaar ainda está no início, explica, mas é um projecto com valor sentimental. “Nós não estamos a vender jóias, não vamos fazer dinheiro facilmente, temos um longo caminho a percorrer. Mas como cidadão de Macau sinto que este é o meu contributo para a minha cidade.”
Planos para uma terceira loja até os tem, mas por agora precisa “de algum descanso”. E de desenvolver os dois espaços que tem a seu cargo. Mas deixa a promessa de novidades e levanta uma pontinha do véu. “O meu próximo projecto vai ser maior que este.”
