Pensar Saramago em chinês

De José Saramago diz-se muito que escreve sem vírgulas, o que só pode dificultar a tradução. Alunos e professores do Politécnico assistiram ontem a uma palestra sobre o prémio Nobel português.

Saramago não morria de amores por Macau. Quando cá veio, em 1997, não se sentiu bem recebido e teve uma reacção algo apática ao passear pela cidade. Mal sabia o Nobel português que, 14 anos depois, seria tema de uma palestra no Instituto Politécnico de Macau (IPM), para uma audiência de professores e alunos maioritariamente chineses.

De aparelhos de tradução nos ouvidos, os alunos do IPM escutaram Carlos Ascenso André, director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que abriu a palestra com a leitura do texto do Nobel “As Palavras”.

Durante cerca de 45 minutos, o especialista em literatura apresentou “Retratos a carvão: José Saramago, pintor da condição humana”. O académico falou de diversas obras do autor, aquelas em que as personagens são postas em situações extremas – algo que considera ser uma marca da literatura do Nobel. “Em Saramago, mais importante que a história, o que nos fascina, são as situações em que as personagens são colocadas.”

Outra característica é a forma como inicia os livros, “com uma pergunta absurda”. O orador exemplifica: “E se a morte fizesse greve?” (“Intermitências da Morte”), “E se encontrássemos o nosso duplicado perfeito?” (“O Homem Duplicado”), “E se todos os eleitores votassem em branco?” (“Ensaio sobre a Lucidez”) e “E se, de súbdito, começássemos todos a cegar?” (“Ensaio sobre a Cegueira”). São estes pontos de partida extremos e a forma como utiliza a linguagem que, para o director da Faculdade de Letras de Coimbra, fazem do escritor um “oleiro das palavras”.

Para falar de um autor que tanta arte aplica à escrita, é difícil manter o discurso directo e simples. Ascenso André fez resumos de várias obras, apontou as suas peculiaridades e ironias. Mas o discurso não é espontâneo: falando para uma audiência repleta de alunos de tradução, e não de literatura, o professor sentiu-se obrigado a fornecer o texto previamente, para que pudesse ser traduzido e, depois, interpretado.

Entre os vários escritores portugueses dos quais se sentia à vontade para falar – o professor é especialista em Luís de Camões – escolheu Saramago pelo seu grau de reconhecimento. “É um autor que diz muito às pessoas que pensam em Portugal, é Nobel da Literatura e entre os autores recentes portugueses é o mais famoso. Se há um autor moderno com visibilidade no mundo é Saramago.”

Macau que não causa arrepios

Nos “Cadernos de Lanzarote”, o escritor confessa que “Macau não me recebeu com palavras de boas vindas”. Saramago veio à RAEM em 1997, numa visita a convite do Instituto Cultural na qual foi apresentada a tradução para língua chinesa de “Memorial do Convento”. Foi recebido como “perigoso escritor” – comentário que lhe foi lançado por um desconhecido e lhe causou grande incómodo. “Depois de treze ou catorze horas de uma desgastante viagem aérea, depois de uma noite praticamente sem pregar olho, quando, ainda meio sonâmbulo, vinha a empurrar o carrinho da bagagem, ouvi uma voz dizer atrás de mim: ‘Vai ali o perigoso escritor Saramago’.” “Até aqui”, pensou, cansado da reputação que tinha em Portugal.

Saramago fez, na altura, a visita turística da praxe: Ruínas de São Paulo, Farol da Guia, Tempo de A-Ma. Não sentiu mais que uma leve apatia e tal provocou nele alguns remorsos: “‘Pela primeira vez na tua vida estás no Oriente’, repreendia-me, ‘como é possível que não te sintas emocionado’”, interpelava-se o escritor, que se fazia acompanhar da mulher, Pilar del Rio.

Saramago, que esperava “o grande arrepio que tardava”, sentia-se dormente perante uma nova cultura. “Sei, de antemão, que não me irei conseguir encontrar neste mundo chinês, que nunca foi suficiente abrirem-se as portas para que a casa se nos entregue. Bastante atípico neste sentido, sou um ocidental que não só rejeita por instinto qualquer espécie de imposições culturais como aceita, por respeito, ficar do lado de fora daquilo que nunca chegará a entender satisfatoriamente. Estou consciente de que daria um mau antropólogo. E certamente um catequista ainda pior…”, contou.

Confrontado com estes comentários, Ascenso André sorriu. “Saramago era assim. As suas reacções eram estranhas.” Mas a verdade é que também Miguel Torga, explicou o docente, teve sentimentos desencontrados em relação a Macau.

Poderá ser desta cidade que frequentemente provoca emoções contraditórias? “Acho que sim”, admite. “Eu sempre gostei de todas as vezes que cá vim. Macau sempre me fascinou. Mas admito que Saramago não se sentisse fascinado pelo território que, sobretudo no final da década de 90, tinha assimetrias sociais muito profundas e cujo futuro assentava no jogo, algo em que definitivamente não acreditava”, explica o académico, rematando: “Não tenho dúvida alguma que Saramago não se revia nem em Macau, nem na sua identidade”.

O “grande arrepio” que o escritor esperava mais facilmente o sentiria na Índia, acredita Ascenso André. “Não é por acaso que um dos seus últimos romances [A Viagem do Elefante] se passa num ambiente muito próprio da Índia, embora seja na Europa.”

Sobre o lado polémico que sempre envolveu o autor, que morreu no ano passado os 87 anos, o director da Faculdade de Letras de Coimbra entendeu que é algo que lhe é intrínseco e que não tem de ser separado do lado literário. “Não temos de separar, temos de ler. Os autores não são teóricos do regime, podem ser críticos como qualquer artista o é. A nós cabe-nos ler e compreender.”

Além de ser o primeiro orador de uma série de palestras que o IPM organiza, Carlos Ascenso André recebeu ontem do Instituto o título de professor honorário, distinção que recebeu com “muito espanto e honra”, e que foi seguida de promessas de intensa colaboração entre o IPM e a Universidade de Coimbra. I.S.G.