O que falta para haver melhores leis?

Mais juristas na Assembleia, responde Jorge Fão. Um ‘gatekeeper’ no Governo para garantir que as propostas de lei entregues aos deputados têm qualidade, diz Eilo Yu. As ideias de Lau Cheok Va não são pacíficas.

Sónia Nunes

Num ponto todos parecem concordar: as propostas de lei precisam de ter mais qualidade. As divergências surgem quando se discute o como e porquê. Jorge Fão puxa pela maior intervenção dos deputados, Eilo Yu entende que o trabalho compete ao Governo. A proposta de Lau Cheok Va de criar uma comissão para analisar os diplomas antes de irem a plenário também divide os observadores.

Na semana passada e em jeito de balanço anual, o presidente da Assembleia Legislativa, Lau Cheok Va, sugeriu que as propostas de lei passassem a ser analisadas por uma comissão antes de subirem a votação. A análise prévia, explicou, serviria para antecipar (e resolver) as questões dos deputados, e evitar grandes diferenças entre os diplomas que o hemiciclo aprova na generalidade e os que valida na especialidade – como é costume acontecer. Jorge Fão aceita a proposta de Lau Cheok Va, mas tem algumas reservas. Por um lado, “muitos dos deputados não conhecem as leis e não têm uma preparação jurídica”; por outro, “é preciso analisar a questão com cuidado para se saber se, com esta comissão de análise, não se vai tirar o poder dos legisladores de Macau”.

Para o ex-deputado a questão está em saber quem faz parte desta comissão. “Se forem todos deputados e juristas da Assembleia, faz sentido e é aceitável. Se for mista [com membros do Governo], parece que os legisladores ficam num segundo plano”, problematiza. Jorge Fão reconhece que é em sede de comissão – quer seja antes ou depois das propostas serem votadas na generalidade – que as tensões políticas entre os dois poderes (executivo e legislativo) disparam. “Já no meu tempo era assim. Os juristas do Governo e os da Assembleia têm visões diferentes sobre a mesma matéria. Estão sempre em choque. São pequenos atritos que fazem parte do sistema”, diz.

O actual dirigente da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC) teme também que a tal comissão de análise prévia funcione como um filtro politizado, com força para travar a iniciativa legislativa. “Ou porque não se quer, ou porque há mais deputados nomeados ou porque há uma grande influência dos juristas, as propostas podem ficar anos a fio em sede de comissão”, alerta Fão. Um exemplo: “O projecto de lei sindical que apresentei com Alberto Noronha ficou encalhado na comissão e dali não saiu”. A ser aceite a proposta de Lau Cheok Va, acrescenta, deve também “ser fixado um prazo para os diplomas serem analisados”. E repete a ressalva: “É preciso estudar com cuidado quem faz parte desta comissão”.

Jorge Fão entende que para haver melhores leis não basta haver melhores juristas. Defende o primado da política: “Os especialistas, muitas vezes, não sabem qual é o pulsar da sociedade, desconhecem se a proposta serve ou não os interesses de Macau. Os juristas que vêm de Portugal, por exemplo, não conseguem falar com o Zé Povinho”. Os deputados, compara, conseguem. Já Eilo Yu, professor no departamento de Administração Pública e Governação da Universidade de Macau, destaca que as mudanças, a acontecerem, devem ser feitas do lado do Executivo.

Um outro ‘gatekeeper’

Lau Cheok Va também defendeu que o projecto de centralização do processo legislativo do Governo está aquém do esperado. O trabalho de coordenação desenvolvido pela nova Direcção dos Serviços da Reforma Jurídica e do Gabinete para os Assuntos de Direito Internacional, avaliou, não produziu resultados satisfatórios. É nesta ideia que Eilo Yu se concentra: “A maioria dos deputados tem dificuldades em compreender a redacção e o conteúdo das propostas do Governo. Seria uma ajuda se houvesse um padrão, uma uniformização, na forma como os diplomas são escritos”.

O politólogo explica que os serviços públicos continuariam a ter “autonomia para fazerem propostas de revisão”, a diferença é que passariam a “usar todos o mesmo tom na redacção das propostas de lei”. Haveria uma espécie de “‘gatekeeper’ da Administração que seria responsável por assegurar a qualidade das leis, antes de serem entregues aos deputados”. Há já algum órgão com capacidade para o fazer ou seria preciso criar um novo?

“Nesta fase e tendo em conta a falta de recursos humanos, a Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça poderia dar instruções estandardizadas para o estilo de escrita das propostas para facilitar a compreensão por parte dos deputados”, refere Eilo Yu. O académico, ainda na linha de Lau Cheok Va, também entende que o Governo deve explicar melhor (nas notas justificativas das propostas de lei, por exemplo) as opções políticas que toma quando apresenta um diploma aos deputados.

Mas se o presidente da Assembleia Legislativa diz que as alterações de fundo dos textos entre as duas fases de votação (na generalidade e na especialidade) “afectam a dignidade” das propostas de lei, Eilo Yu entende que “não é uma grande questão”. “Só prova que os deputados estão a fazer o seu trabalho e que a Assembleia não é uma chancela de borracha”, contrapõe. Para o académico, quando os deputados dão luz verde a uma proposta na generalidade estão apenas a dizer “‘Aceitamos estudar esta legislação, que pode ser alterada’”. “Mudar os diplomas faz parte dos poderes da Assembleia”, reforça Eilo Yu. Já Lau Cheok Va alega que o texto que for aprovado na especialidade “não pode negar o espírito” daquele que foi aceite na generalidade.

“O essencial é termos uma agência qualificada, do lado da Administração, para garantir a qualidade das propostas de lei. Caso contrário os deputados vão passar muito tempo a debater os diplomas em sede de comissão na especialidade”, reforça o académico. Jorge Fão tem dúvidas: “Não basta. Precisaríamos de garantir que os juristas desse organismo eram todos de excelência. E nós, muito por culpa da Administração Portuguesa, não temos quadros locais qualificados”.

O ex-deputado reitera que “é preciso ultrapassar os complexos e recrutar mais profissionais” – também para o hemiciclo. “A Assembleia só pode funcionar bem se houver mais juristas e intérpretes/tradutores. Os deputados não têm de ser técnicos, têm de ser políticos. No meu tempo havia apenas um especialista que percebia de finanças. Como é que dá para funcionar assim?”, lança.

Jorge Fão também concorda que o Governo “deve ser mais claro no modo como faz e como apresenta as propostas de lei aos deputados”, e continua a defender que “é fundamental” que o hemiciclo saiba quando vai receber diplomas para analisar. “Tem de haver um calendário e esse calendário tem de ser cumprido. Caso contrário, a Assembleia passa a ser o conselho consultivo do Executivo, o que não é nada bom”, remata. A Comissão de Regimento e Mandatos enviou uma carta aos deputados para decidirem se querem alterar as regras de funcionamento do hemiciclo.