Água reciclada na Montanha e em Seac Pai Van

É uma das medidas para reduzir a dependência do Continente. O Governo lançou um estudo para o reaproveitamento de recursos hídricos, que deverá estar a funcionar em 2014.

Maria Caetano

O Governo espera concluir no início do próximo ano o planeamento para a utilização pelo território de águas residuais recicladas no abastecimento público, para rega de plantas e espaços verdes, bem como para descargas sanitárias. O projecto prevê a construção de uma estação de água reciclada na ETAR de Coloane e estima-se que o recurso ao reaproveitamento permita uma poupança de água de entre 20 a 30 por cento.

A medida está incluída no “Relatório sobre a Água em Macau 2010/2011”, o primeiro que é publicado pela Capitania dos Portos, e que elenca um conjunto de iniciativas destinadas à economia dos recursos hídricos pela região. De acordo com o documento, em 2010 o consumo total de água pelo território reduziu-se em 1,5 por cento – devido à diminuição dos consumos doméstico, industrial e público, e apesar do aumento nos contadores de casinos e hotéis da cidade. A actual redução contraria a tendência de aumento anual médio de 3,5 por cento registada ao longo dos últimos dez anos.

O aproveitamento de água reciclada insere-se nas medidas destinadas a minimizar a dependência de Macau da importação de água ao Continente.  “De acordo com as informações que obtemos de outros países e regiões, tais como Singapura e Austrália, eles utilizam bastantes águas residuais porque também não têm água suficiente para o dia-a-dia. Se conseguirmos usar essas águas residuais, achamos que conseguimos poupar entre 20 a 30 por cento da água. É uma poupança muito grande para Macau no futuro”, defendeu a directora da Capitania dos Portos, Susana Wong.

“Actualmente, as estações de águas residuais não estão a ser bem utilizadas, porque depois do tratamento a água sai directamente para o rio e não é reutilizada”, acrescentou.

Hotéis gastam mais

Segundo o relatório do organismo, numa primeira fase o Governo tem a intenção de abastecer com água reciclada o campus da Universidade de Macau na ilha da Montanha e os blocos de habitação social previstos para Seac Pai Van, projectos que serão ambos equipados com condutas duplas de abastecimento necessárias à implementação da medida de aproveitamento.

“Só com dupla canalização é que todos os residentes podem usar a água geral e também a residual”, afirmou Wong, lembrando que será mais difícil adoptar o equipamento nas zonas urbanas já consolidadas do território, como os bairros antigos.

O planeamento para reciclagem de água está já em curso, e está a ser elaborado por uma empresa de consultadoria de Singapura. “Vamos concluir este projecto geral no princípio do próximo ano. Este projecto vai dar-nos um estudo bastante detalhado a dizer em que áreas é que podemos utilizar essas águas residuais e quantas estações serão necessárias”, explicou a responsável da Capitania dos Portos.

O relatório do Governo estima que os equipamentos de reciclagem possam estar em funcionamento na Estação de Tratamento de Águas Residuais de Coloane em 2013, mas Susana Wong antecipa maior demora.

“É um bocadinho optimista. É melhor pormos 2014, porque o trabalho agora vai ser feito pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental. Mas ainda está na fase de planeamento”, disse ontem a dirigente.

No ano passado, as habitações representaram 47 por cento do consumo total de água do território e o sector comercial, que inclui unidades hoteleiras, representou 41 por cento. A proporção do consumo industrial foi de seis por cento, tal como a do consumo público.

Foram também estes dois últimos sectores que observaram os maiores decréscimos de consumo, de 8,1 e 9,8 por cento, respectivamente. O consumo doméstico caiu 1,8 por cento. No entanto, o consumo comercial de água subiu 1,6 por cento.

“Sentimos o esforço dos residentes porque vemos uma percentagem bastante encorajadora”, afirmou a directora da Capitania dos Portos. “Mas, por outro lado, temos preocupação com a tendência de crescimento na indústria de hotéis e casinos”, juntou.

O Governo diz estar a concertar com uma dezena de hotéis da região – aqueles que mais água gastam – um plano de economia. “Já tivemos a primeira reunião e vamos lançar o plano em Outubro. Agora estamos a fazer trabalhos de preparação”, avançou Wong.

“Começámos com os primeiros dez consumidores. Vamos tentar ajudá-los em duas direcções: uma, através da construção, obras, hardware; outra, através de gestão, ensino. Tentamos levá-los a poupar água”, explicou.

Inverno com salinidade “bastante grave”

“A maré salgada neste Inverno e na próxima Primavera será bastante grave. O abastecimento de água está numa situação preocupante.” É a previsão do grupo de trabalho governamental que acompanha o fenómeno que, anualmente, afecta o território. Este ano, as marés salgadas chegaram um mês mais cedo do que o habitual, ainda durante o final de Julho, com a diminuição do fluxo de água do rio Oeste e da água captada para os reservatórios. “A situação não é muito positiva”, admitiu a directora da Capitania dos Portos, Susana Wong, informando que durante a próxima semana irá encontrar-se com as autoridades do Continente “para discutir a próxima acção a ter para garantir que temos água de boa qualidade”. A Capitania dos Portos acredita, porém, que o novo reservatório de Zhu Yin, em Zhuhai, poderá ajudar a minimizar o problema da salinidade da água.

Macau Water desmente dados do Governo

O “Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2008/2009”, apresentado em Maio último pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), indicava a presença de coliformes fecais na rede de abastecimento público de água ao longo dos últimos anos – entre 1998 e 2009, apenas 2004 terá sido excepção, de acordo com dados do laboratório do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) citados no documento. A companhia concessionária do abastecimento de água a Macau desmentiu ontem, no entanto, que tenha havido violações aos padrões sanitários da água potável, contrariando a informação avançada por fonte do Governo. “Não é possível. O nosso sistema de análise diário, que está a cargo do laboratório do IACM, tem a exigência que não pode haver qualquer coliforme fecal nas áreas tratadas”, afirmou Oscar Chu, subgerente-geral da Macau Water. “Na água que é tratada pela Macau Water e a água que é distribuída na rede de abastecimento não há, rigorosamente, coliformes, de forma alguma, zero”, garantiu, quando confrontado com o teor do relatório. “Pode ser uma contaminação secundária, algo que esteja fora do nosso controlo. Não posso prestar mais informações até reunir mais elementos”, afirmou também o responsável. Segundo o relatório da DSPA, as violações dos padrões sanitários atingiram até 1,5 por cento das amostras analisadas da rede pública de Macau, Taipa e Coloane ao longo dos últimos anos.

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