Quem o diz é Frederico Ma, presidente da Federação da Juventude de Macau. O empresário que se tem destacado no sector ambiental entende que o território pode apostar na distribuição de produtos verdes.
Maria Caetano
O presidente da Federação da Juventude de Macau, Frederico Ma, é um dos rostos mais novos do sector comercial local. Entende que falta maior iniciativa e mais oportunidades à geração em que se inclui. O também director-executivo da Associação de Indústrias de Protecção Ambiental de Macau ainda não vê muita margem para o crescimento de um sector que, lembra, dá os primeiros passos.
– Nos anos mais recentes, o Governo tem vindo a incluir o sector das indústrias ambientais na política governativa. Qual é a avaliação que faz das medidas já implementadas?
Frederico Ma – Relativamente ao Fundo para a Protecção Ambiental e a Conservação Energética, vamos reunir-nos esta semana com a Direcção dos Serviços para Protecção Ambiental. Temos diferentes membros na associação, que produzem diferentes produtos, incluindo de conservação energética. O fundo é uma boa medida e apoiamo-la, mas as orientações não cobrem muito – destina-se apenas à conservação energética, de água e ao controlo da poluição do ar. Entendo que é um bom primeiro passo, estas três áreas principais devem estar cobertas e é algo que vai melhorar o ambiente de Macau. Mas, por outro lado, estamos preocupados em saber se alguns produtos serão incluídos. A questão é que, neste momento, o Governo não tem uma lista de produtos que são considerados amigos do ambiente. Em outros territórios, há os chamados rótulos verdes, mas esse sistema de avaliação ainda não existe em Macau. É necessário esperar pelo processo de avaliação dos membros da comissão do fundo. O Governo não criou activamente uma lista de produtos, que podem ter diferentes funções, e isso significa que é constantemente necessário fazer novas avaliações. Por isso, sugerimos que o Governo discrimine quais os produtos que são elegíveis para financiamento.
– Deve Macau tomar Hong Kong, que já adopta o rótulo verde, como referência?
F.M. – Isso encurtaria o tempo das candidaturas.
– E há especialistas do sector em número suficiente para fazer a avaliação?
F.M. – O Governo está no bom caminho uma vez que vai criar uma comissão de avaliação. Mas, enquanto associação, queremos reunir informações sobre todos os itens que são adequados para controlo da poluição do ar, poupança de água e conservação energética. Já reunimos um esboço com os produtos dos nossos associados, que vamos entregar ao Governo para ponderação.
– O sector empresarial de Macau já está virado para este tipo de indústrias? Macau pode ser um mercado atractivo neste ramo?
F.M. – Já há bastantes pessoas viradas para este sector porque o Governo subsidia. Uma das principais razões pelas quais as pessoas não optam por produtos mais amigos do ambiente tem que ver com os custos, normalmente um pouco mais elevados que os produtos normais. Os subsídios do Governo equilibram o mercado e ajudam a promover esses produtos, ainda que sejam um pouco mais caros. Mas o Governo deve ponderar uma avaliação periódica. Por exemplo, no mercado da iluminação há as lâmpadas T5 e os LED, que ainda não são populares e que ainda têm preços elevados. Se o Governo subsidiar estas lâmpadas, no futuro o preço será cada vez mais baixo. À medida que a tecnologia for evoluindo, os subsídios poderão diminuir. A popularidade dos produtos no mercado deve ser tida em conta como factor de avaliação.
– O consumidor pode ter consciência de que o produto lhe permite poupar energia, e que assim terá uma factura de electricidade mais baixa. Deve haver mais campanhas de informação sobre as potencialidades dos produtos que são amigos do ambiente – e não apenas subsídios?
F.M. – Isso é algo que deve ser considerado quando se criam os rótulos e na avaliação. Não temos de criar o nosso próprio modelo, podemos adoptar o dos outros.
– Qual será o melhor modelo de referência?
F.M. – Basta apenas adoptar os padrões dos outros. Não seria muito eficiente para Macau estar a criar um modelo próprio.
– Macau tem também vindo a realizar o Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental já há alguns anos. Qual tem sido o impacto para a indústria de Macau?
F.M. – Todos os anos encorajamos os nossos membros a participarem. A exposição tem bastante destaque, é considerada uma feira de nível internacional. Todos os anos convidamos bastantes expositores dos mercados europeus e de outros lugares. Podemos considerar o evento como um centro regional para os assuntos ambientais, não tem apenas impacto para Macau.
– Tem havido um bom volume de negócios?
F.M. – Não tenho dados neste momento. Mas temos boas ligações com as associações das indústrias ambientais de Guangdong e da região do Delta, que a cada ano demonstram maior interesse em estar na feira.
– Qual é o melhor modelo para desenvolver a indústria ambiental local? O caminho será o de procurar parcerias no Delta ou, por exemplo, com os países de língua portuguesa?
F.M. – É muito mais viável para Macau funcionar como entreposto de distribuição de produtos de outros. Não é fácil para o mercado de Macau criar os próprios produtos. Na verdade, o território pode ser uma montra que permita às empresas chinesas adoptar algumas das tecnologias europeias. Todos os anos recebemos muitas visitas do Continente aos nossos equipamentos ambientais, como as estações de tratamento de águas e incineração de resíduos.
– É uma área em que Macau é particularmente forte?
F.M. – Sim. Por exemplo, em Hong Kong o tratamento de águas é operado a nível governamental e não através de concessões, que dão mais espaço para que as empresas se desenvolvam.
– Isso faz com que as operações dos equipamentos sejam melhores?
F.M. – Não é comparável. Mas, habitualmente, ter uma empresa concessionária permite que o sector privado se desenvolva.
– Diz que o melhor modelo para Macau é o de fazer a distribuição de produtos. O que é que impede a região de inovar e de desenvolver os seus próprios produtos?
F.M. – Tem sobretudo que ver com questões de mercado. O mercado local não é grande o suficiente para apoiar o desenvolvimento de novas ideias.
– Não seria possível exportar essas ideias?
F.M. – Macau está limitada por um baixo investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D) e pela sua força laboral. O investimento I&D está normalmente associado à área da química e, neste momento, a maioria das pessoas especializadas na área é do Continente.
– Recentemente, o objectivo de Macau é o de promover a diversificação da economia na ilha da Montanha através da cooperação com Guangdong. Há lugar em Hengqin para o desenvolvimento das indústrias ambientais?
F.M. – O acordo de cooperação entre Macau e Guangdong não prevê nada de especial nesse sentido, no que diz respeito ao desenvolvimento de zonas industriais. Mas há outro tipo cooperação prevista a nível ambiental.
– O desenvolvimento ambiental visa sobretudo criar uma melhor qualidade de vida, do ponto de vista de uma cidade turística. Mas o que teriam a ganhar os profissionais e empresários do território com a exploração de novas tecnologias e ideias para o sector ambiental? Este tipo de desenvolvimento pode ser considerado?
F.M. – Na Ilha da Montanha?
– Na Ilha da Montanha, em Nansha ou em outra possível zona de cooperação.
F.M. – Acho que não é fácil desenvolver uma zona industrial para o sector ambiental no momento presente.
– E é possível integrar esse desenvolvimento nas zonas previstas?
F.M. – Talvez. Macau talvez tenha algumas vantagens. Por exemplo, houve um concurso público no ano passado para mudar todas as membranas das estações de tratamento de águas residuais. Talvez pudéssemos começar a produzir estas membranas na ilha da Montanha, porque o território usa muito este material.
– Quanto a recursos humanos, há pessoal qualificado para trabalhar no sector?
F.M. – Não há muitos profissionais, mas os nossos quadros são complementados por pessoal do Continente.
– Preside à Federação da Juventude de Macau. Como é que vê o desenvolvimento e qualificação dos recursos humanos locais? Tem sido demasiado lento para as necessidades?
F.M. – Defendemos sempre que a melhor forma de desenvolver qualificações é no trabalho. Daí que a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais tenha um programa de apoio a estágios no Continente que dura há três anos. No ano passado também realizámos um seminário sobre este programa e convidámos como oradores pessoas de Macau e de Hong Kong que têm tido sucesso na realização de negócios no Continente. Mas este programa não tem tido muito sucesso, os participantes estão a diminuir todos os anos – é preciso fazer um reset. Mas é um bom programa para ganhar experiência.
– Esta queda no número de participantes parece indicar também que os jovens estão pouco inclinados para se afastarem de Macau.
F.M. – É como diz. Macau é um sítio muito bom, e eles querem ficar cá porque a situação económica é óptima e os jovens não têm grande espírito para explorações, para irem para um sítio com o qual não estejam familiarizados.
– Devia haver essa independência, essa exploração de oportunidades que permitisse o desenvolvimento da força laboral e dos negócios locais?
F.M. – Sim. É preciso que os jovens sejam mais dinâmicos. É demasiado fácil encontrar emprego em Macau. Mas mesmo que os jovens optem por adquirir experiência na China, é necessário que as empresas locais desenvolvam planos de carreira para estes jovens. As pequenas e médias empresas de Macau habitualmente contratam a pessoa e dão-lhe trabalho – não pensam no estabelecimento de carreiras. Ter um emprego é diferente de ter uma carreira, que requer progressão profissional. A maioria das empresas de Macau apenas oferece empregos. Algumas empresas – aquelas que têm maior número de trabalhadores – poderiam colaborar com instituições para o desenvolvimento de programas de carreiras para jovens.
– Esse é então um dos aspectos que preocupa a Federação da Juventude de Macau. Que outras áreas merecem atenção por parte desta organização?
F.M. – Actualmente, temos três áreas em que apoiamos os jovens. Temos um programa de formação política, para aqueles que queiram aprender mais sobre a política de Macau. Convidamos oradores como deputados à Assembleia Legislativa e professores do Continente. É um dos nossos programas mais bem-sucedidos neste momento. Chamamos-lhe o Conselho da Juventude – não sei bem como traduzir – e procura que os estudantes universitários desenvolvam projectos de investigação sobre assuntos sociais. Temos ainda um programa de formação na área da cultura, sobre arte chinesa e arte ocidental. No futuro também queremos associar-nos ao Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo, para melhorar as capacidades de debate e apresentação das pessoas.
– Este Conselho da Juventude debate regularmente aspectos políticos. Procura maior participação e consciência política por parte dos jovens?
F.M. – É a questão típica colocada pelos repórteres, que entendem que a juventude não tem grande consciência política. No entanto, todos os anos temos mais de 100 jovens inscritos nos nossos projectos – acabamos por excluir alguns porque o nosso programa só tem capacidade para 100 pessoas. Os jovens que se inscrevem mostram-se muito entusiasmados e há outras associações que fazem isso.
– Porque é que a Federação iniciou este programa de debate político?
F.M. – Para mudar a consciência política.
– No debate sobre a reforma do sistema político de Macau, um dos aspectos que parece levar a que se peça cautela tem que ver com esta consciência política. Há quem defenda que as pessoas não estão preparadas para o sufrágio universal. Qual é a sua opinião?
F.M. – Acho que é preciso esperar pela consciência da maioria. Dizemos sempre que as pessoas devem concordar com o mesmo objectivo. Ainda estamos a estudar… Neste momento, na sociedade, há quem concorde e quem discorde. As pessoas não estão todas do mesmo lado. É difícil explicar. Mas posso dizer que neste momento estamos a estudar as necessidades dos jovens. Não conseguimos chegar a uma conclusão tão rapidamente.
Macau acolhe fórum de jovens empresários de Portugal e China
A Federação da Juventude de Macau organiza, entre os dias 10 e 17 do próximo mês, o Fórum Sino-Português de Cooperação Económica dos Jovens Empreendedores. A iniciativa insere-se no Ano da Juventude China-União Europeia, promovido por Pequim e Bruxelas, e vai reunir cerca de uma centena de participantes de Portugal e de vários pontos da China.
– Neste momento a Federação da Juventude está a organizar um encontro entre jovens empresários portugueses e chineses. De onde partiu a ideia?
F.M. – Em 2011 assinala-se o Ano da Juventude China-União Europeia. A cerimónia de abertura decorreu já em Pequim, em Abril ou Maio, com a presença do primeiro-ministro Wen Jiabao. Porque Macau é uma plataforma entre a China e os países de língua portuguesa decidimos fazer algo.
– Tem havido cooperação a vários níveis, mas ainda não na perspectiva da juventude. Esta parece ser a primeira iniciativa do género.
F.M. – Pedimos à Associação Nacional de Jovens Empresários Portugueses que organizasse uma delegação para Macau. Programámos bolsas de contactos com eles, em Macau e também em Cantão. Vamos ainda visitar a ilha da Montanha e a zona de Nansha. Teremos participantes de quatro cidades do Continente – Pequim, Xangai, Tianjin e Chongqing – e das nove províncias do Grande Delta do Rio das Pérolas. Serão ao todo cerca de 100 pessoas.
– A ideia é trazê-los cá para que conheçam as oportunidades do Delta?
F.M. – Sim. Vamos também ter fóruns. Convidámos o vice-reitor do Instituto de Estudos Europeus da Academia de Ciências Sociais da China. Temos também oradores locais e de Portugal, que vão partilhar ideias sobre a recente crise da dívida soberana europeia.
– Sente que o lugar de Macau enquanto plataforma entre a China e os países de língua portuguesa constitui uma oportunidade para os jovens profissionais e empresários locais?
F.M. – Ainda na passada semana, o Instituto Politécnico promoveu um encontro sobre a língua portuguesa. A cada ano, o Politécnico e a Universidade de Macau recebem muitos alunos que estudam Português ou Direito em português. Isso permitir-lhes-á participar nas actividades que Pequim promove nos países de língua portuguesa. Ainda agora o Politécnico anunciou um doutoramento na área – por isso acredito que haverá muitas pessoas formadas localmente. É uma das vantagens de Macau.
