É uma exposição que sabe a pouco mas que vale muito. Em Hong Kong, numa pequena galeria da Hollywood Road, em Central, estão umas quantas fotografias de Sebastião Salgado. Todas e cada uma delas a merecerem visita.
Hélder Beja, em Hong Kong
Vem-se parar à Hollywood Road depois de subir a muito inclinada encosta de Central ou de apanhar um táxi que nos deixe na rua onde, por estes dias, há uma galeria que mostra fotografias do brasileiro Sebastião Salgado, numa exposição que tem como título “The Global Photographer”.
O número da porta é para apontar na agenda, 57-59, porque a rua é serpenteante e comprida, e ficar numa das extremidades ou na outra faz toda a diferença. A Sundaram Tagore, pequena casa que carrega o nome do seu proprietário, fica na ponta mais acima. Mas fazer a Hollywood Road – porque descemos do táxi na outra extremidade… – acaba por ser uma boa descoberta, pelas várias casas de antiguidades e algumas galerias que vamos encontrando.
O edifício destaca-se entre os demais, pela fachada branca e as letras escuras que inscrevem no topo “Sundaram Tagore”, graça do coleccionador e negociante de arte contemporânea indiano, um dos primeiros estrangeiros a abrir um espaço do género em Hong Kong, já vindo de Nova Iorque. Lá dentro, e de dentro para fora, estão as fotos de Sebastião Salgado.
A maior parte das imagens pertence ao novo trabalho “Genesis”. Se bem que “novo”, no caso do fotógrafo brasileiro, é sempre qualquer coisa relativa – este começou em 2004. O projecto explora os lugares desertos e as florestas remotas e pouco povoadas por onde viajou nos últimos anos, num trabalho épico no qual tenta capturar lugares (e pessoas) do planeta ainda intocados pela mão humana. E consegue.
No piso térreo da galeria destaca-se uma imagem de um elefante que parece em fuga, captada em África, que explora o paradoxo entre a velocidade que a fotografia transmite e o volume do animal que é retratado. “Fizemos a escolha de sermos humanos – isso é um disparate. Porque nos esquecemos que somos como qualquer outro animal”, disse Salgado em entrevista à revista Time Out Hong Kong. “Espero que consigamos perceber em breve que somos natureza. E que por isso devemos respeitar a natureza.”
Essa profunda reverência pelo que ainda é virgem neste mundo – lugares como as planícies desertas do Saara ou os icebergues da Antárctida, que podemos ver em Hong Kong – percebe-se a cada imagem fixada a preto-e-branco pela lente do fotógrafo.
“Os meus motivos de fotografia são a minha vida. Gosto muito de trabalhar em projectos a longo prazo. Quando se investem oito anos num projecto, ele transforma-se na nossa vida. Tenho de ter uma grande identificação com ele, caso contrário não conseguiria.” Pode ser difícil para alguns identificarem-se com o trabalho de Sebastião Salgado mostrado na Sundaram Tagore. Das ilhas Galápagos à Namíbia, o artista contrapõe à selva de betão da RAEHK outra coisa que também é deste planeta mas que está cada vez mais distante da realidade dos dias de tantos.
Salgado não veio a Hong Kong para a inauguração da mostra que fica na Hollywood Road até 25 de Junho. Não precisou. As imagens expostas entram-nos nos olhos com a força de mil cavalos. Sozinhas, quietas, muito distantes do bulício da Feira de Arte de Hong Kong que neste domingo, em que também a visitámos antes de rumar à Sundaram Tagore, tinha gente aos magotes. Sundaram Tagore, descendente de Rabindranath Tagore, Nobel da Literatura em 1913, explicou em entrevista ao Wall Street Journal que não está na grande feira de arte porque quer que as pessoas se desloquem à sua galeria. Com exposições como esta não há-de ser difícil.
