O que faz falta?

O 25 de Abril de 1974 garantiu as liberdades e as instituições democráticas. Mas não decretou a solidariedade e o empenho colectivo em Portugal. Trinta e sete anos depois, vê-se de Macau o país ao longe. E há quem diga que podia vir outro.

Maria Caetano

Continua a fazer falta animar a malta. A revolução portuguesa do 25 de Abril de 1974 deu lugar a instituições democráticas e pluralistas num país cansado de um regime autoritário. Mas não criou por decreto um sentimento de empenho colectivo que, agora, até fazia falta.

A leitura é feita à distância de 37 anos e numa altura em que Portugal enfrenta uma crise política e económica sem precedente recente. O que faz falta? “Haver muito mais solidariedade social do que há hoje”, diz Albano Martins. “Não ser o salve-se quem puder, mas ser antes o temos de nos salvar todos”, junta Amélia António.

O economista e a presidente da Casa de Portugal em Macau estiveram ontem entre umas poucas dezenas de convivas que se juntaram para assinalar a passagem de mais um aniversário da revolução dos cravos num jantar organizado pelo Clube Militar. E lembrar a transição do regime português resulta num olhar crítico sobre a conjuntura corrente.

Albano Martins tinha 25 anos e cruzava a ponte entre Lisboa e Almada, então conhecida pelo nome de António de Oliveira Salazar, quando ouviu na camioneta em que circulava a nova do golpe militar. Na noite anterior, tinha estado a distribuir panfletos contra a guerra colonial no antigo quartel do Lumiar. “Toda a gente na camioneta dava pulos, incluindo o condutor”, lembra.

Já Amélia António trabalhava na baixa lisboeta, no Sindicato dos Bancários de Sul e Ilhas, e antes de sair para o serviço recebeu a novidade. Juntou-se à mole de gente que subia as ruas para impedir que a GNR tomasse posições contra a coluna liderada por Salgueiro Maia, que tinha a missão de derrubar o regime então liderado por Marcelo Caetano e seguia em direcção ao Largo do Carmo.

“Foi um dia que passámos praticamente na rua, com rádios pequeninos na mão, para irmos tendo a percepção das notícias que havia. A determinada altura recebemos informação de que era importante que os civis avançassem para o Carmo, e toda a gente se mobilizou”, recorda.

“É uma coisa que se sente”

“Valeu a pena”, diz Martins. Mas quase quatro décadas depois já podia vir outro. “Vamos precisar de um novo 25 de Abril. Não para fazer nenhuma revolução marxista-leninista, mas para pôr alguns valores no sítio certo. Ou seja, acabarmos com os políticos corruptos, com as pessoas que só pensam na política para os seus cargos pessoais, e termos de novo em Portugal pessoas que pensem que é importante estarmos na Europa de uma forma decente e não a mendigar apoios financeiros”, defende.

“Um dos grandes erros que cometemos foi deixar que algumas pessoas que tomaram o poder do Estado através das eleições não fossem pessoas decentes para os mandatos que exercem”, entende Albano Martins, hoje “um socialista mais conservador do que moderado”. O que faz falta? “Coragem e honestidade política para se dar a volta”.

“Trinta e sete anos depois estou profundamente desiludido. As coisas que eram basilares e deviam estar consagradas não estão. Embora o povo viva melhor hoje do que durante a ditadura, não vive tão bem quanto esperava que vivesse”, afirma. “Olhamos para as nossas democracias e vemos partidos políticos anquilosados, há príncipes dentro dos próprios partidos”. O que faz falta? “Democratizar os próprios partidos, que não são partidos democráticos”.

Para a presidente da Casa de Portugal em Macau “custa muito” constatar a situação que se vive no país. “Chegarmos a este ponto é uma dor para a qual não há explicação. Se calhar as gerações mais novas sofrem na sua perspectiva – estudaram, trabalharam e não se vêem com grandes possibilidades. Isso há-de causar uma grande frustração. Mas para todos aqueles que se empenharam para que as coisas fossem de outra maneira, que deram tudo o que puderam, é mesmo muito duro ver o ponto a que as coisas chegaram”, declara.

“Perdeu-se o sentido que as coisas importantes só se fazem quando as pessoas dão as mãos e as querem fazer”, diz, considerando que as novas gerações de portugueses “enfrentam o mundo sozinhas, não são uma barreira, não são uma força colectiva”. O que faz falta? “Vão ter de reencontrar esse espírito, porque sem ele duvido que se vá muito longe no futuro.”

“Foi assim que se chegou ao 25 de Abril. Aconteceu quando as pessoas começaram a perceber, cada vez em maior número, que tinham de estar ao lado umas das outras”, recorda Amélia António, assinalando que a solidariedade “não se institui”. “É uma coisa que se sente, que se vive, que se cria, é uma prática.”

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