“Sou um optimista histórico”

O retrato que José Mário Branco traça de Portugal, 37 anos depois de Abril, está longe de ser o do país com que sonhou. O país está parado, não há um movimento social com um projecto político. No meio de tudo isto, os desejos mantêm-se: afinal, só queremos ser felizes.

 

Isabel Castro

 

Antes de Abril acontecer, ele queria que Abril acontecesse. E isso levou-o para fora do país, que antes de Abril não se cantava o que se pensava, não se pensava o que se cantava. Agora, tem vindo a cantar um “Abril que ainda está por fazer”. Em entrevista – dois emails para lá, outros dois para cá, um telefonema de quase uma hora – fala-nos do estado de um país em que falta um projecto político, um movimento social que mobilize as pessoas. Mas fala-nos também da inquietação que existe nas perguntas que se fazem, na importância das revoluções acontecerem por dentro. José Mário Branco continua a estar – o “contai com isto” não desapareceu, porque está “metido no movimento de toda a gente”.

– Não é o primeiro momento conturbado que Portugal vive. É em alturas como esta que faz sentido a música de intervenção e que a música de intervenção ganha mais força?

José Mário Branco – Aquilo que se chama música de intervenção – depois farei uma nota sobre essa etiqueta – é uma espécie de encomenda social. É algo que surge como expressão de sentimentos que estão a ser sentidos na comunidade. Os artistas mais não são que o testemunho daquilo que vai passando na sociedade. É natural que ela surja com as características de música de protesto, nas alturas em que há mais razão para protestar na comunidade.

– E quanto à etiqueta da música de intervenção…

J.M.B. – Não concordo muito com essa etiqueta, porque acho que quando um artista ocupa um espaço na comunidade para se exprimir está sempre a intervir, seja ele quem for e faça ele o que fizer. Não há neutralidade no canto, como não há noutras artes. Um artista que ocupa o palco para se dirigir a um público está a intervir. Só por esse facto, mesmo que seja a dizer banalidades e coisas absolutamente desinteressantes, é um artista que está a intervir. Considerei sempre bastante redutora essa etiqueta aplicada a cantores que ocasionalmente se exprimem como cantores de protesto. Já usei duas vezes a palavra ‘protesto’ porque a prefiro para designar esses cantores ou as facetas desses cantores. Prefiro a designação usada nos países anglo-saxónicos de cantores de protesto. Por outro lado, tem outro inconveniente, que é arrumar pessoas como eu, o Zeca Afonso, o Sérgio, o Fausto, numa prateleira, como se fossem cantores políticos, quando se trata de cantores que têm uma obra vasta e que aborda as mais diferentes facetas da nossa vida. Não têm só cantigas de protesto, têm também cantigas de amor, de trabalho, de divertimento – são obras multifacetadas e isso também funciona muitas vezes como uma forma de reduzir o alcance da obra desses cantores.

– Apareceram nos últimos tempos em Portugal músicos com uma carga de protesto maior. Os Deolinda são um exemplo, com o tema “Parva que Sou”. Por outro lado, existem os Homens da Luta, que se movimentam entre a crítica e a sátira. Como é que olha para o que tem vindo a acontecer a este nível?

J.M.B. – Há um aspecto que é comum aos dois exemplos que focou, que é um aspecto de ocasionalidade – resta saber se isso corresponde a qualquer coisa estruturada e profunda na sociedade. Comparar estes fenómenos, aos quais chamaria epifenómenos, com aquilo que, como o Fausto explica, foi um movimento – ou seja, toda a geração de cantores, autores, compositores que vieram na esteira do Zeca Afonso, um movimento que persistiu, que se traduziu em obras vastas e sempre presentes na música portuguesa nos períodos revolucionários e nos períodos não revolucionários, nos períodos de fluxo e de refluxo social… Estes tais epifenómenos não deram ainda provas de poderem corresponder a um movimento estruturado, a uma coisa pensada, com pés e cabeça. Comparo isso ao que aconteceu um pouco nos anos 80 quando Cavaco era primeiro-ministro, a importância que teve um artista como Pedro Abrunhosa quando ele tinha um público muito jovem, um tipo de música bastante identificável, música pop. Começou também no palco a exprimir-se contra o que estava a acontecer e isso teve uma grande importância para nos livrarmos do Cavaco primeiro-ministro. Mas foi um fenómeno que aconteceu aí e depois não se traduziu propriamente numa atitude geral da obra do Pedro Abrunhosa, que prosseguiu o seu caminho normal. Por um lado, acho que são epifenómenos. Depois, os dois casos que apontou não são iguais. Num caso, temos um grupo até com letras e músicas interessantes – que vem um pouco na esteira desse movimento de que falava, bastante referenciado à música tradicional portuguesa –, e do outro lado temos uma brincadeira tipo queima das fitas, bastante inconsequente e sem a consciência de que o humor é a coisa mais difícil que há. O humor de qualidade é uma coisa muito profunda, que não se dá bem com caricaturas feitas à pressa.

– Tem sentido vontade de voltar a escrever? O momento desafia-o a isso?

J.M.B. – Não mais do que outro momento qualquer. Portugal está num momento difícil, as pessoas sofrem muito, estão a ver as suas vidas a andar para trás, há problemas sociais terríveis, mas essas coisas têm de ser sempre relativizadas. Socialmente falando, o país está parado. Claro que houve coisas que mudaram em relação aos meios de comunicação, à forma de fazer a lavagem ao cérebro às grandes massas de gente, lavagem essa que é hoje muito mais poderosa, mas o país está parado. As pessoas não estão a organizar-se, não estão a lutar, estão a tentar safar-se por entre os pingos da chuva, que são grossos e são muitos, e ainda não há uma situação em que se possa dizer que o movimento social está aí.

– O aparecimento da ‘Geração à Rasca’, deste movimento que saiu para a rua, não está a corresponder à organização de uma força social?

J.M.B. – Pelo menos ainda não está. Uma coisa é – porque frequentemente se faz essa comparação – ir-se para a rua no Cairo ou em Tunes bradar pela liberdade e pela democracia, porque se está em situações de ditadura feroz, em que qualquer voz que diga o que pensa arrisca-se à tortura e à morte. Outra coisa é pôr-se aos gritos na rua num país onde felizmente não se é preso por se falar alto. Essas manifestações surgidas espontaneamente através das redes sociais, da Internet, nos países ditos ocidentais têm características completamente diferentes e não têm aquela consistência, aquele carácter de transgressão de fundo que assumem nos países do Norte de África. Se isso tivesse acontecido tendo nós uma ditadura como tínhamos antes de 74, aí já era outra coisa, porque era-se preso pelo simples facto de nos juntarmos na rua, ou de darmos uma opinião em voz alta num café ou numa faculdade. Agora não é assim. Agora o regime que nós vivemos aplica uma velha máxima do meu falecido sogro que dizia ‘deixa-os morrer de fome no ar’. E portanto agora grita-se muito mas o grito morre de fome no ar. O que se nota é que há uma grande inconsistência política nesses movimentos espontâneos que têm surgido – não há um projecto político, não há qualquer coisa a propor que possa mobilizar as pessoas. O protesto por si só é legítimo e é válido, mas não mobiliza para o futuro.

– Vêm aí as eleições legislativas antecipadas. Os últimos actos eleitorais têm mostrado níveis da abstenção elevados, pelo que não espantará se tal voltar a acontecer. O que é que aconteceu à política portuguesa? E o que é que aconteceu à esquerda portuguesa?

J.M.B. – Há muitas esquerdas, não é? O que estamos a assistir como campanha eleitoral é mais uma vez o circo do costume. Ou seja, a imposição de um discurso único baseado em meios publicitários, à custa de milhões e milhões, e que consiste em considerar que há dois partidos que têm legitimidade para governar. Isto é uma coisa muito limitada, com efeitos muito limitados. Tudo isso acontece num pano de fundo em que a governação em Portugal tem uma autonomia limitadíssima. Não só existe a globalização a nível planetário – que implica que o dinheiro anda de um lado para o outro e faz o que lhe apetece, deita abaixo governos e ataca sistemas monetários e faz o que muito bem entende em total liberdade, ao contrário das pessoas, que não têm liberdade para circular –, como é acrescida com a globalização europeia, com o facto de o Governo de Lisboa ter uma autonomia muito pequenina em relação ao poder de decisão das instâncias não eleitas que funcionam em Bruxelas. E portanto o que está em causa agora é muito pouca coisa. A abstenção, possivelmente… Sabe, eu sou um optimista histórico, acho que os povos não são estúpidos. E quando os povos se abstêm é porque chegaram à conclusão de que as verdadeiras decisões não se passam nas eleições. À medida que a classe dominante foi, desde o século XIX, democratizando o direito de voto, abrindo o direito de voto a novas camadas da sociedade – e a última camada que conseguiu isso foram as mulheres, e nos Estados Unidos os negros –, mais as decisões passaram desse plano formal para o plano informal. Portanto, as verdadeiras decisões são tomadas em corredores e em salas onde a gente nem sabe quem lá está. Portanto, relativizo muito, são quanto muito ocasiões – e adoptando uma perspectiva à Guy Debord, mais situacionista – de espectáculo, para ver se as pessoas se convencem de que têm algum poder, quando não têm poder absolutamente nenhum.

– Em 1971 cantou a “Queixa das Almas Jovens Censuradas”. Chegados a 2011, não soubemos aproveitar “o animal que espeta os cornos no destino”?

J.M.B. – Não, acho que não. Posso estar a dizer coisas muito pomposas e muito gerais, mas a verdade é que a história da Humanidade é uma história de tentativas e de pequenos avanços e de pequenos recuos. Mas, insisto, sou optimista, acho que se avançou muito. Embora estejamos num mundo dominado pela barbárie e pela religião do dinheiro, acho que se avançou. E quanto mais não fosse, temos provas culturais e tecnológicas, e índices de saúde, de esperança de vida, que nada têm que ver com o que eram há uns séculos. Há avanços, mas esses avanços são por tentativas – é como nas ciências, é por tentativa e erro. Portanto, esse tipo de canções como a que referiu, e outras, verifico todos os dias quando ando por aí a cantar que se mantêm de uma grande actualidade, porque os problemas são sempre esses, são sempre os mesmos: como é que vamos organizar isto para conseguirmos ser mais felizes. Embora as circunstâncias mudem, e as condições sociais e tecnológicas tenham mudado imenso, as questões de fundo que se põem quando esta malta nova vai para a rua aos gritos são sempre as mesmas: queremos ser felizes, queremos ser felizes, isto não está bem, e pronto. É sempre a mesma conversa. Agora, as soluções é que têm de ser diferentes. A gente sonhou, agarrados a ideologias muito bem feitinhas, muito esquematizadas, a gente sonhou que era possível construir um país e um mundo diferente, mas verificou-se que nós fomos muito ingénuos, que não tivemos a noção de que forças é que estávamos a combater, a classe dominante é muito inteligente, sabe prever os fenómenos, sabe adaptar-se à evolução dos tempos, e as esquerdas nunca souberam fazer isso, pelo menos o suficiente para provocar mudanças significativas.

– Sente que há hoje um discurso da esquerda que está desactualizado em relação à realidade?

J.M.B. – Completamente. Acho que a esquerda não percebeu uma coisa que começou a ser dita muito a sério na altura do nazismo – que a revolução começa dentro de cada um. Aquele discurso do Wilhelm Reich e do Herbert Marcuse e dessas pessoas que vieram explicar que a condição revolucionária implica uma grande lavagem interior, e que não há revolução que se faça sem revolucionários, e um revolucionário é aquele que fez a revolução por dentro de si próprio. O problema é esse.

– Temos de reinventar o 25 de Abril?

J.M.B. – É. Fiz uma quadra que tenho dito de vez em quando nos recitais que diz: ‘Andamos a ver se vemos o caminho a percorrer, entre o Abril que fizemos e o que está por fazer’. É isso, é essa a nossa tarefa, se é que vamos ser capazes de fazer alguma coisa.

– A propósito do 25 de Abril, que leitura faz das declarações de Otelo Saraiva de Carvalho, quando disse que se soubesse ao que “isto” chegou, não teria “feito” o 25 de Abril?

J.M.B. – Pois, mas não foi só ele que o fez. Ele foi muito importante e temos todos de ter uma gratidão eterna ao Otelo Saraiva de Carvalho pelo que ele fez, mas ele foi um entre muitos. É um exercício intelectual vazio imaginar o que seria o 25 de Abril sem o Otelo. Haveria qualquer coisa, tinha de acontecer alguma coisa. Nós devemos o que aconteceu em Portugal em 74, em primeiro lugar, aos povos das colónias portuguesas, isso é que é claro para todos – tem de ser claro. Nós não devemos isso principalmente ao heroísmo deste ou daquele grupo de militares que se rebelou contra o regime, nem ao heroísmo deste ou daquele partido clandestino que andou a lutar contra o regime. Não é por acaso que o 25 de Abril acontece em Portugal na sequência da guerra colonial e para acabar com a guerra colonial. Foi a luta dos povos da colónias que nos ajudou a resolver isso. Ora, se o Otelo não tivesse feito o que fez, presumo que alguém, como diz a canção do Brecht, se encarregaria de tomar o seu lugar e de fazê-lo. É uma afirmação que eu respeito no sentido em que exprime uma tristeza pelo contraste entre o que ele sonhou e o que está a ver agora. É preciso ver isso nesse contexto.

– Disse numa entrevista recente que o FMI que cantou – e que deixou desde logo identificado como sendo um momento específico, daí a não reprodução – tinha muito mais que ver com o que acontecia à época do que propriamente com a instituição em si. Mas é impossível neste momento não nos lembrarmos do tema. É a história a provar que é cíclica?

J.M.B. – Pois. O FMI que eu fiz é um processo interior que, na altura, decidi expor e foi comungado e apropriado por toda uma geração, que estava a confrontar-se com a derrota, com o refluxo do movimento social, de 79, 80, por aí fora. É um texto cénico, porque aquilo nem é canção, enfim, é difícil de tipificar, extremamente confessional, que expõe uma catarse muito pessoal, muito íntima, de quem se pergunta ‘porque é que fui derrotado e o que é que eu ando aqui a fazer? Para que é que serve esta coisa toda?’. O FMI na altura foi um protesto. Agora, esse processo interior que já referi, quando disse que as pessoas têm de perceber que a revolução começa dentro de cada um, continua actual. E depois há uma coincidência com o facto de termos de novo, e pela terceira vez, o FMI a mandar na política. Mas sabe, eu distancio um bocadinho esse facto porque se repararem bem o FMI sempre esteve cá. As forças que controlam a evolução da economia e as grandes decisões políticas que são tomadas são mais ou menos as mesmas há muito tempo. O que se passa aqui é um reflexo desses jogos que se desenvolvem a um nível mais global. Não pode imaginar a correria de jornalistas a telefonarem-me por causa da vinda do FMI, porque eu fiz o FMI. E a maior parte dessas pessoas ou não conhecem a obra e reagem só à base do título, ou ouviram a obra e não perceberam nada do que está ali. O que está ali é um processo muito íntimo e individual, que só se tornou colectivo na medida em que outras pessoas se identificaram com aquilo. Compreendo que o FMI vir ao de cima tem mais que ver com aquele estado de vazio e de uma certa estupefacção que existe agora, uma certa paralisia social em que as pessoas não sabem o que hão-de fazer para contrariar esta porcaria toda que está a acontecer. As pessoas não estão bem, e como não estão bem, queiram ou não, nem que seja só o corpo, começam a interrogar-se sobre o que andam aqui a fazer, para que é que serve, como é que se faz, o que é preciso fazer. Há uma desorientação muito grande, um vazio muito grande, uma inacção total. Portanto, é natural que elas estejam a pôr questões de certo modo parecidas com aquelas que eu levanto no FMI de 79.

– Numa tentativa de encontrar referências.

J.M.B. – Isso é parecido. Pode vir a ser parecido. Mas o facto anedótico do FMI aterrar na Portela ou não aterrar na Portela, é isso mesmo – é só anedótico, é só a parte anedótica da questão.

– Falemos agora de música. Nos últimos anos tem estado muito activo enquanto produtor. Mais recentemente, juntou-se a Sérgio Godinho e Fausto para o projecto “Três Cantos”. O seu último trabalho a solo é de 2004. Para quando um disco novo?

J.M.B. – Não sei, nunca aconteceu assim, ‘agora vou fazer um disco’. As coisas saem à medida que aparecem canções novas e se começa a desenhar no vazio um projecto de disco. Mas eu ando sempre a fazer coisas muito diferentes, felizmente tenho essa polivalência, de que gosto muito, de compor para outras coisas, para teatro, para cinema, de produzir e orquestrar discos de outros cantores, enfim, fazer coisas muito diferentes, isso é bom, porque a minha vida fica mais variada e é bom porque a minha vida fica mais confortável materialmente. Continuo a ser membro de uma elite de pessoas que só fazem o que gostam, e isso para mim é um privilégio incrível. Portanto, para quando um novo disco é uma pergunta para a qual eu só tenho resposta já muito perto de o disco acontecer.

– Há uns anos, a crise em torno da música portuguesa era grande. Sente que existe hoje uma reaproximação ao que se faz em Portugal mas sobretudo ao que se faz em português?

J.M.B. – Há uma experimentação. Os anos 90 foram riquíssimos na medida em que as novas gerações de músicos abriram os ouvidos a músicas diferentes. E vamos ter uma dívida de gratidão para com os senhores que ajudaram muito a isso, como o Sting, o Paul Simon, o Peter Gabriel. Temos uma dívida de gratidão em relação a estas pessoas que reavivaram a música, reavivaram o acústico – a que na profissão se chama o ‘unplugged’. Abriu os ouvidos a uma geração que vinha dos anos 80 com os ouvidos muito fechados e absolutamente drogados pelo ‘disco sound’ e pela batida ‘um por quatro’. Isso agora está a confrontar-se com problemas novos que identifico muito com o império do pós-modernismo, que é o rosto cultural do neoliberalismo económico e político. O pós-modernismo mergulhou estes jovens de agora numa situação em que vivem da ilusão de que as coisas se mudam pela forma. O pós-modernismo convenceu-os de que há uma diferença entre forma e conteúdo, e portanto fazem muitas experiências, muitos projectos, muitas jogadas formais, que são 99 por cento completamente inconsistentes, porque não partem do núcleo de que um verdadeiro criador tem de partir sempre, que é: ‘qual é o meu grito, o que é que eu tenho para dizer às pessoas, o que é que eu tenho para dizer às pessoas que valha a pena dizer às pessoas, que seja importante dizer às pessoas’. Assiste-se a uma atitude muito leviana em relação à própria criação artística, em que basta uma cantora pentear-se assim ou assado, basta um jovem cantor ter uns ademanes de palco mais assim ou assado, basta misturar uma guitarra eléctrica com uma guitarra portuguesa ou com uma guitarra braguesa, fazerem-se umas jogadas puramente formais para se achar que se descobriu o mundo ou que se descobriu a pólvora. E isso não é nada. A única coisa que continua a determinar o acto de criação artística é a expressão, e estas novas gerações confundem expressão com exibição.

– Mas há algum nome que destaque no que tem vindo a aparecer na música portuguesa?

J.M.B. – Não, não. Não há nada que eu diga assim ‘ah, isto é outra coisa e destaca-se do resto’.

– Poderá ser uma justificação para que nomes que pertenceriam formalmente a uma geração – como Sérgio Godinho, Fausto, para não falar do José Mário Branco – serem adoptados por gerações muito mais novas?

J.M.B. – Possivelmente, porque há uma consistência na obra dessas pessoas ao longo de muitos anos. E há qualquer coisa na obra dessas pessoas, à imagem do que foi a vida e obra do Zeca, que funciona como um chão para pôr os pés, uma âncora para nos agarrarmos à nossa realidade. Agora, desses fogos-fátuos que vêm encher o nosso espaço musical não apareceu nada que a gente diga assim: ‘daqui a 30 anos vamos ouvir isto e dizer que isto foi importantíssimo’, percebe? É isso que está a faltar: a consistência. E consistência num plano superior, musical e poética. A relação com a palavra cantada… Talvez no fado, que é uma música bem tipificada, se possa falar do Camané e da Ana Moura, que são casos à parte. Não estou a falar nos mais velhos, no mestre deles, que é o Carlos do Carmo, mas sim no caso da Ana Moura – com graves limitações de repertório –, mas é evidente que é uma fadista até à medula dos ossos. É um caso raro. O Camané tem isso também e tem a qualidade de repertório, temos tido a possibilidade e a oportunidade de o ajudar a manter esse altíssimo nível de qualidade que ele tem tido sempre ao longo da sua vida de fadista.

– A “Inquietação” do José Mário Branco continua a ser a mesma?

J.M.B. – Sim, completamente. O mais importante nessa canção é o valor que ela dá às perguntas, mais do que às respostas. Isso é o mais importante. E é uma situação que vem desde sempre e sempre estará presente. Repare que sou de uma geração que tinha referências ideológicas muito concretas e muito absorventes. E essa canção é um ponto de viragem em que eu começo a perceber que a qualidade das perguntas é muito mais importante que as respostas.

– Em 1979 disse: “Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto”. Já não tem 37 anos. O resto da frase mantém-se?

J.M.B. – Sim, completamente. É um programa de vida. E o ‘contai com isto’ quer dizer que eu estou metido no movimento de toda a gente. Faço parte de uma comunidade e falo com essa comunidade e a partir do que essa comunidade me vai dando. É isso.

One comment

  1. …Afinal só queremos construir uma sociedade em que todos tenham direito a ser felizes! Obrigado JMB

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