“A lusofonia deveria ser levada mais a sério”

E devia ser o Estado português a assumir essa função, porque na língua de Eça de Queiroz se encontra muito futuro, marca do que é a cultura do um país. Miguel Real, romancista e ensaísta, está esta semana em Macau, para troca de ideias na Livraria Portuguesa.

Isabel Castro

É romancista, ensaísta e professor de Filosofia, mas também escreve para teatro. Miguel Real, pseudónimo de Luís Martins, considera que língua portuguesa é a grande marca da cultura de Portugal – e deve ser entendida com mais seriedade. Amanhã e quinta-feira, fala sobre livros e cultura na Livraria Portuguesa. Em entrevista, faz-nos uma radiografia do que é o romance histórico luso e explica como se escrevem ensaios e ficção em simultâneo, sobre o mesmo tema.

– Vem a Macau para duas sessões distintas. Numa delas, na quinta-feira, falará sobre o romance português no século XXI. Que análise faz da actual dinâmica literária portuguesa, no que diz respeito ao romance?

Miguel Real – Portugal passa hoje por um período de ouro no que se refere ao romance. Após a morte de Saramago e de Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Maria Velho da Costa, Lídia Jorge e Mário Cláudio, provindos das décadas de 70 e 80, mantêm a chama acesa. Simultaneamente nasceu uma nova geração de grande qualidade, da qual destacaria Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto, mas também Patrícia Portela, João Tordo, David Machado, Joana Bértholo, Raquel Ochoa. Não existem hoje correntes definidas no romance português. Possui um estilo cosmopolita, universalista, o romancista português escreve hoje para um leitor universal. Entre todos, permitir-me-ia destacar Gonçalo M. Tavares, cuja escrita – sintética, racional e fria – corresponde a uma visão europeia tecnocientífica. O lirismo de José Luís Peixoto, ao contrário, corresponde a um certo lirismo português.

– É autor de romances históricos. Sente que o género é bem acolhido pelos leitores portugueses?

M.R. – Muito bem. Está um pouco na moda. Porém, a qualidade não é excessiva, com excepção de alguns romancistas, como Fernando Campos, João Aguiar (recentemente falecido), Pedro Almeida, Sérgio Luís de Carvalho e poucos mais. O romance histórico corresponde hoje, em Portugal, a uma recuperação da história de Portugal após o fim do Império, uma espécie de acertar de contas no sentido de percebermos o que Portugal fez de mal e de bom.

– Escreve romances históricos sobre temas em relação aos quais também escreve ensaios. Quem nasce primeiro: o romance ou o ensaio?

M.R. – Nascem os dois ao mesmo tempo. O romance preenche-me a sensibilidade, o ensaio o entendimento; o romance o meu lado lúdico, irónico, de quem nada leva a sério na vida, o ensaio o lado rigoroso, disciplinado, investigativo. Sinto-me bem escrevendo os dois ao mesmo tempo, um dia um, outro dia outro.

– Alguns autores de romances históricos entendem que os pormenores históricos não devem ser sobrevalorizados, por se tratar de ficção e não de um manual escolar ou de um ensaio. Concorda?

M.R. – O romancista histórico não é um historiador, mas um romancista. Deve privilegiar o lado estético da narrativa, e menos o lado gnosiológico. O romance histórico não ensina história, apenas pode ajudar o leitor a compreender a ‘forma mentis’ de um certo tempo. Eu e o Pedro Almeida Vieira damos muito importância ao pormenor (como se dorme, se come, se lava, se ama, se veste… em tal período), outros fazem voos sobre as condições de vida, restando-se nos aspectos políticos. Estamos todos bem – são opções estéticas.

– A história portuguesa tem vindo a ser bem romanceada?

M.R. – Não. O romance histórico tem vindo a ser dominado pela lógica do mercado (intrigas amorosas, ciúmes, cupidez, sexo, avareza…) e tem vindo a perder qualidade. Quanto mais se escreve romance histórico mais este é subordinado à lógica do folhetim, da telenovela, lamentavelmente. Um romance histórico demora um ano e meio a ser escrito, incluindo meio ano para investigação. Há quem não tenha essa paciência…

– Em Macau falará também sobre cultura portuguesa, já amanhã, a propósito do seu mais recente ensaio [“Introdução à Cultura Portuguesa”]. O que podemos esperar desta sua intervenção?

M.R. – A cultura portuguesa possui hoje dois grandes valores, que perfazem a sua identidade. No passado, a epopeia dos Descobrimentos, da Expansão. Independentemente do que hoje pensarmos sobre os séculos XV e XVI, eles constituíram a nossa marca na história mundial. Se não tivéssemos feito os Descobrimentos, seria apenas uma grande Galiza, território e nação muito honrados, mas que muitíssimo pouco contaram para a história europeia e mundial. No que respeito ao presente, a cultura portuguesa é absolutamente dominada pelo uso da língua portuguesa. É ela o grande traço de união entre povos de todos os cantos do mundo, perfazendo mais de 200 milhões de falantes. Neste sentido, a lusofonia deveria ser levada mais a sério pelo Estado português, já que ela constitui, como organização internacional que dá rosto à língua portuguesa, a nossa segunda marca inscrita na história, neste caso grávida de muito futuro.

– Enquanto autor de ensaios, foi abordando temáticas tão distintas como Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva, Eça de Queiroz e o Marquês de Pombal, entre outros. Como surge esta diversificação de interesses?

M.R. – Não há diversificação. Todos os meus ensaios se prendem com a cultura portuguesa no sentido de lhe demarcar as características constantes que a individualizam faces às restantes culturas europeias. Os autores e políticos que refere são (foram) autores cuja obra alterou radicalmente o horizonte da cultura portuguesa em certo período. Por isso merecerem o meu atento interesse.

– O ensaio em Portugal, enquanto género, tem boa aceitação em Portugal, tanto ao nível editorial como junto dos leitores?

M.R. – Não, infelizmente. O português é mais lúdico que reflexivo, como a história da ciência e da filosofia em Portugal tem demonstrado. Porém, existe uma minoria universitária que lê tudo. É esta minoria que vai fazendo a história do ensaio em Portugal. Escrevo sobretudo para esta minoria académica.

– Falta sistematizar o pensamento em Portugal?

M.R. – Há vários estudos. Diria que o pensamento português se tem dividido em quatro correntes: o Espiritualismo (a transcendência é superior à imanência, o espírito ao corpo), que vai de Camões a Paulo Borges (séc. XXI) passando pelo lirismo de Bernardim Ribeiro, Camilo Pessanha e Sophya de Mello Breyner; o Racionalismo (a razão é superior à sensibilidade), que vai de Camões a Eduardo Lourenço e Boaventura de Sousa Santos; o Modernismo (imitação de correntes europeias em moda), que vai de Sá de Miranda a José Gil (XXI); e o Providencialismo, a crença de que Portugal possuía um destino messiânico no mundo, que vai de Camões (“Os Lusíadas”) a Agostinho da Silva, passando por Padre António Vieira.

Introdução à Cultura Portuguesa” é o seu mais recente trabalho publicado. Já há próximo?

M.R. – O novo romance histórico sairá em Setembro próximo, “A Guerra dos Mascates”, portugueses em guerra contra portugueses no Pernambuco (Brasil) do século XVIII.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s