Do riso limitado

Macau tem sentido de humor, mas gosta mais de comédia nos bastidores. Em público e quando se trata de brincar com o poder político, dizem alguns dos cartoonistas do território, artistas e população são contidos a fazer rir e na risada.

Catarina Brites Soares e Stephanie Lai

Os índices de felicidade, de bem-estar da população e de satisfação com o Governo são referências recorrentemente usadas para ilustrar a harmonia na RAEM. E quando se trata de avaliar a gargalhada? Alguns dos cartoonistas, que satirizam os acontecimentos e as individualidades que vão marcando o dia-a-dia da cidade, dizem que o território tem sentido de humor – mas, aparentemente, só para alguns temas.

“Não existe um humor específico de Macau. Se há, não sei defini-lo. Ao nível do cartoon, que implica uma crítica à sociedade, os portugueses estão mais habituados a lidar com esse estilo. Os chineses só agora é que começam a ter abertura”, nota Rui Rasquinho, que se dedica sobretudo às ilustrações, mas foi pioneiro a desenhar caricaturas e cartoons de personalidades da RAEM.

A diferença entre comunidades, desenvolve, tem que ver com a cultura e com o facto de Macau ser uma cidade “muito pequena”, onde impera uma “democracia imperfeita” recheada de “entraves que fazem com que a relação dos residentes com o poder seja diferente”.

Para ilustrar o que diz, Rasquinho conta a história de um cartoon que fez sobre Stanley Ho, em que o magnata do jogo aparecia “ridicularizado” e, por isso, a revista em que estava publicado o desenho foi retirada dos jetfoils da companhia que pertence ao império do octogenário. “Reflecte um pouco do que se passa em Macau, onde não existe essa cultura de expressão. Há uma auto-censura terrível, que se verifica sobretudo no jornalismo, mas também nos cartoons”, afirma.

Rasquinho acredita, contudo, que a diferença entre as comunidades ocidental e oriental na relação com a crítica “já foi maior”. “Essa auto-censura está a desvanecer a olhos vistos. As novas gerações são mais instruídas. Sabem melhor o que querem e falam. Antes, era mesmo terrível”, considera.

Cheong Hong, cartoonista natural de Macau, tem outra perspectiva: não é fácil para a população ter sentido de humor porque a vida está “cada vez mais complicada”. Contudo, ressalva, as sátiras sobre aspectos sociais e políticos do território conseguem sempre arrancar umas gargalhadas do público-alvo. Na calha está a publicação de trabalhos do artista de pendor essencialmente crítico, que surgiu na sequência de um convite da editora Plaza Cultural Macao.

Rodrigo de Matos que, no último ano, tem tido o traço afiado em relação a Macau, refere que continua a ser um mistério se a cidade se ri com facilidade. “Teria de fazer uma auscultação pública”, atira.

O artista entende que continua a haver quem não perceba a linguagem dos cartoons porque passa ao lado do que importa. São pessoas ainda influenciadas por uma cultura que durante séculos olhou para o riso como uma forma de “desrespeito e sacrilégio”. “E não me estou a referir aquelas que não se riem com os meus desenhos”, ressalva.

João Tércio defende que a sociedade só estará preparada para compreender a mensagem do cartoon quando for capaz de se rir de si própria. “E agora, ainda não está”, enfatiza. “Estamos a atravessar uma altura muito conservadora da nossa existência.” No tempo que já leva como cartoonista, com carreira feita sobretudo em Portugal, conta que já teve trabalhos censurados e que não foram publicados.

Da política ao universo

A letargia política, os pandas, a imigração e o trânsito são alguns dos assuntos que têm alimentado a imaginação dos cartoonistas locais. Numa pesquisa aos websites e blogues de alguns autores, sucedem-se os desenhos sobre a importação da mão-de-obra não residente, as discussões sem resultado da Assembleia Legislativa, a construção de edifícios como cogumelos e a acumulação de veículos privados no centro da cidade.

Além das sátiras à conjuntura local no Ponto Fatal, os desenhos de Rodrigo de Matos também abordam momentos marcantes de Portugal e de outras partes do mundo na colaboração que mantém com o Expresso e no blogue rodrigocartoon.com.

Em quatro anos como cartoonista, depois de ter sido jornalista, Matos já fez mais de 700 cartoons só para o semanário português. No território, o desenho que apresentou Chui Sai On vestido de coelho foi um dos que lhe deu mais gozo.

A preferência mantém-se com Rui Rasquinho. Stanley Ho e o ex-Chefe do Executivo, Edmund Ho, são algumas das caras que passaram pelo lápis do desenhador e que estão no site eljeco.com. Mas Chui Sai On, actual líder do Governo, é também personalidade frequente e a que gostou mais de caricaturar. “É apetecível. É fácil e dá gozo exagerar algumas das características dele.”

Cheong Hong – com trabalhos publicados na imprensa local, de Hong Kong, de Singapura e dos Estados Unidos – realça que a função do cartoon é, principalmente, apontar as injustiças da sociedade. Cheong diz saber que há gente com responsabilidades públicas que fica incomodada, mas para quem se aborrece tem sempre a mesma resposta: “Os cidadãos concordam com o que desenho”.

No blogue comicalate.blogspot.com de João Tércio, o primeiro-ministro português é uma das caras habituais. A crise económica e as guerras, diz, são sempre temas que estão na ordem do dia. No entanto, acrescenta que nos desenhos que faz, publicados por exemplo nos jornais Fiel Inimigo e i, aborda temas mais universais, que “qualquer pessoa entende mesmo não estando dentro do assunto”.

“O cartoon é também um processo de auto-identificação. Ao nível profissional, tendo mais para o lado político. Mas gosto muito de explorar essa parte universal”, conta Tércio, acrescentando que o Black Bug, um dos desenhos animados que criou, encarna essas questões “mais Shakesperianas, com as quais todos nos identificamos”. “O que é o ser humano? O ser humano odeia, ama”, lança o artista, formado em Cinema.

Os incidentes da vida diária são a matéria-prima de Ah-Cheng, o mais popular cartoonista de Macau, que sublinha que o seu trabalho nem sempre passa pela crítica. “Às vezes tem apenas um ângulo humorístico”, aponta.

O artista recorda que o cartoon não é um formato apenas ocidental e fala dos orientais, feitos a partir dos desenhos a tinta de Wu Daozi, pintor do tempo da Dinastia Tang, e Feng Zikai, que tem vários trabalhos humorísticos no mesmo estilo. “O cartoon desenhado a tinta é mais conhecido no norte da China. Não é fácil encontrar desenhos cómicos desse género em zonas como Cantão, Hunan, Hong Kong e Taiwan”, assinala. “É importante promover este tipo de arte a partir daqui.”

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