O bispo de Macau quer uma nova linha editorial para o jornal detido pela Diocese, onde a política não ocupe espaço de relevo. Pereira Coutinho não hesita em apontar o dedo a Florinda Chan e pede a Chui Sai On uma investigação.
Isabel Castro
É o mais recente caso a envolver o nome de Florinda Chan, depois de um Verão nada pacífico para a secretária para a Administração e Justiça. O deputado Pereira Coutinho acha que a governante, cujo desempenho tem vindo a contestar em tom crescente, exerceu pressão junto do bispo de Macau para que o jornal O Clarim alterasse a sua linha editorial.
Esta convicção do deputado à Assembleia Legislativa foi manifestada inicialmente através de SMS, em português e chinês. No texto enviado, Coutinho afirmava que Florinda tinha ido “queixar-se ao bispo”, revelando que “O Clarim ficou proibido de escrever sobre política de Macau”.
Já ontem, ao telefone com o PONTO FINAL, Pereira Coutinho explicou de onde vem a acusação à secretária. O deputado contou que teve um encontro com um jornalista do semanário, José Miguel Encarnação, que lhe relatou uma reunião com D. José Lai. “O bispo teve uma conversa a sós com ele, tomou a decisão de proibir artigos sobre política, ou sobre questões do Governo. Se quiser escrever, pode continuar a escrever sobre cultura, desporto e questões religiosas. O jornalista ficou triste, continua triste.”
E qual o papel de Chan? Pereira Coutinho diz que, pelo teor da conversa, se “presume que foi Florinda Chan que fez pressão”. “Se me perguntar a minha opinião pessoal, também aponto para essa direcção. De facto, o artigo de 13 de Agosto tem a ver com as dez sepulturas, e é muito provável que Florinda Chan tenha contactado o bispo”, especula o deputado.
Coutinho chama à colação as crenças religiosas da secretária para fundamentar as suas suspeitas: “Todos nós sabemos que tem umas óptimas relações com a Igreja Católica, é uma católica praticante. Está sempre na primeira linha das actividades religiosas”.
O PONTO FINAL tentou, sem sucesso, chegar à fala com Florinda Chan. De acordo com o porta-voz da governante, esta não se encontrava ontem no território. De igual modo, este jornal procurou obter um esclarecimento de D. José Lai, sendo que tal não foi possível.
O que diz o jornal
Pereira Coutinho considera que se está perante “uma machadada no princípio da liberdade de expressão”, baseando o seu juízo de valor no alegado impedimento em relação aos assuntos de cariz político. “É um facto. A partir de agora, o jornalista não pode escrever mais sobre política e questões governativas.” A suposta directriz “limita o direito do jornalista de poder informar e de ser informado por parte dos cidadãos”. Posto isto, o deputado faz um apelo ao Chefe do Executivo, “para que mande averiguar, por pessoa independente e idónea, aquilo que se está a passar”.
José Miguel Encarnação, o jornalista de que fala Coutinho, confirmou ao PONTO FINAL o encontro mantido com D. José Lai e as indicações editoriais transmitidas pelo responsável máximo da Diocese de Macau, que detém o título. A reunião aconteceu na passada segunda-feira e, segundo Encarnação, o bispo transmitiu-lhe a “decisão de alterar a linha editorial, explorando mais as áreas da doutrina social da Igreja, desporto e cultura”. E acrescenta: “[D. José Lai pediu à direcção do jornal para nos abstermos de escrever sobre assuntos políticos”.
Já sobre o conteúdo da mensagem de Pereira Coutinho, o jornalista frisa que se trata da “leitura” do deputado, explicando que a interpretação surgiu depois de uma conversa telefónica mantida entre ambos. E mais comentários não tece. Já quanto ao futuro do semanário em língua portuguesa, José Miguel Encarnação referiu que acatará as indicações dadas pelo governador da Diocese, explicando que fará “o melhor que puder” atendendo às novas orientações editoriais. O director do jornal, Albino Pais, está de férias.

Ja se esperava uma decisao desta natureza do sr. Bispo sobre a linha editorial do semanario catolico “O Clarim” e so pecou por ser muito tardia. Todos os catolicos de Macau que tem estado a acompanhar as noticias do Clarim neste ultimo ano verificaram uma alteracao radical a linha editorial seguida ate entao, o que nao deixa de ser estranho e de alguma forma reprovavel. Portanto, so tenho a congratular o D. Domingos Lai pela correcta decisao e coragem. Nao se percebe, contudo, que uma conversa havida entre o jornalista Jose Encarnacao e o Bispo pudesse ser do conhecimento imediato do Jose Pereira Coutinho. Onde esta a etica jornalistica? Ainda se percebe menos por que tal decisao do sr. Bispo foi transmitido, tao somente, ao Coutinho! O que tem ele a ver com o assunto? Nao acham que aqui ha rato? Pelos vistos o Coutinho andava muito interessado do que se passava naquela redaccao e seria bom que nos explicasse porque? Agora, pior ainda, anda muito preocupado e nervoso pela retoma da linha confessional do unico jornal catolico a ponto de pedir ao nosso Chefe Dr. Fernando Chui San On para o ajudar. Que ganda disparate sr. deputado! God Bless Him Please! Um semanario catolico nao deve ser utilizado ou servido como instrumento politico partidario sob pena de perder o Norte independentemente do seu numero de leitores ou assinantes se tenha aumentado ou diminuido.