Em louvor da redenção

“Isabella” é um filme de 2006 realizado pelo novelista de Hong Kong Edmond Pang, de seu nome chinês Pang Ho-cheung. Foi filmado inteiramente em Macau e com uma história toda passada no território. Apresenta a, na altura, estrela em ascensão Isabella Leong, nascida e criada em Macau que se mudou para Hong Kong com 12 anos. Leong considera-se a ela própria um terço chinesa, um terço inglesa e um terço portuguesa. O nome de nascimento de Isabella Leong Lok-sze é Luísa Isabella Nolasco da Silva.

A película é muito diferente dos dramas habituais assinados pelo cinema de Hong Kong. A conjugação de ritmo narrativo com a direcção de fotografia é bem trabalhada. A mistura de planos de rua e interiores com a luz extremamente cuidada funciona sumptuosamente. Os filtros de cores diversas, close-ups, lentes grande angulares e enquadramentos nada comuns, que por vezes fazem lembrar o trabalho de Christopher Doyle com Wong Kar-wai, dão um tom lancinante e fílmico perfeito. Escolhas estilísticas que são acompanhadas na perfeição pela banda sonora, lírica e emocional. Peter Kam ganhou o Urso de Prata no Festival Internacional de Berlim de 2006 para a melhor música original.

Isabella Leong, na altura com 17 anos, é brilhante. A ingénua e exótica actriz é, neste filme, verdadeiramente impressionante. Surpreendentemente madura para uma jovem inexperiente, Leong desenvolve o seu papel de forma muito atraente, mostrando um charme precoce e uma rebeldia amável. Mais do que um rosto bonito, o que fica desta revelação é o seu desempenho como actriz aplicando o contraste necessário em diálogo com a versatilidade do experiente e convincente Chapman To.

“Isabella” começa uns meses antes da transferência de administração de Macau de Portugal para a China, e termina nos dias seguintes à cerimónia. Mas não se julgue que se trata exclusivamente de um filme histórico e/ ou político. Pelo contrário, este é apenas um dado temporal e dramático que melhor ajuda a compor os protagonistas. Pang oferece mais profundidade ao tema do que uma simples sinopse poderia sugerir. A metáfora de “Isabella” com o significado histórico de Macau joga obviamente no confronto entre a cultura do Oriente e do Ocidente e, como tal, apropria a ideia do retorno à mãe pátria, sem ser evidente, para a história da filha que perdeu muito tempo para se reunir com o pai.

O estado de crime violento da época fica nas entrelinhas. Esse período caótico da história de Macau serve a apresentação do Inspector Shing (Chapman To), polícia trintão que teve de se adaptar a varias situações de corrupção para ganhar um lugar na sociedade. A determinado momento, Shing confessa que para se afirmar tinha de jogar com as regras estabelecidas – “Em Macau tinhas de ter um Rolex, sem um Rolex nem olhavam para ti”.

O filme começa com um fragmento, recuperado a meio da fita, de um encontro fortuito num corredor de uma discoteca entre Shing e uma jovem. Ele diz-lhe que os olhos dela o fazem lembrar-se da sua primeira namorada. Mais tarde vimos a saber que o clube é o DNA, espaço nocturno assumidamente ligado às tríades. Numa sucessão de episódios que serve para introduzir Shing, destaca-se um plano muito conseguido, com a cabeça encostada a uma slot machine, a rodar a manivela, sem grande convicção, espelhando na perfeição um mundo sem esperança, numa situação muda de angústia total. De seguida vemo-lo a partir garrafas de cerveja na cabeça de um qualquer fora da lei para ganhar informações.

Ao longo do filme percebe-se que também ele foi corrompido e que no processo acabou por ser suspenso. Na sequência desta cena, apercebemo-nos que ele está bebido e que leva Yan (Isabella Leong) para casa, com ela a fazer passar-se por prostituta. Os beijos, que não se vêem, no corredor de entrada, são seguidos pelo baixar das calças dele ao passar pela porta do apartamento. No plano seguinte, de manhã, estão nus na cama. Ele dorme e ela levanta-se, tira-lhe dinheiro da carteira, e vai preparar umas ‘noodles’. Enquanto ela come, ele aparece na sala e percebe-se nitidamente que Yan é uma adolescente. Ele tenta forçá-la a fazer sexo oral mas ela recusa, escapando-se para fora de casa. É um momento paradigmático do filme que deixa múltiplas interpretações – tanto se fica com a impressão que talvez nada se tenha passado na cama, durante a noite, como o contrário.

Shing come comida portuguesa às escondidas, coisa que o seu superior o aconselha constantemente a não fazer, fuma que nem um desalmado, bebe ainda mais e é um mulherengo inveterado, com novas ‘namoradas’ todas as noites. E joga, porque não existe mais nada para fazer.

Um dia, enquanto desfruta deste estado de miserabilidade do ser, apercebe-se que anda a ser seguido pela jovem Yan. O modo como esta se apresenta a Shing, partindo-lhe uma garrafa de cerveja na cabeça, antecipa todo o intenso drama que faz deste filme uma belíssima obra de ficção. Seguem para o hospital onde um polícia (português) lhe diz (em português) – “Tens de ter cuidado, companheiro, esta menina é menor”. De seguida ele pergunta a Yan se dormiram juntos e ela diz-lhe que não, mas que ele dormiu com a sua mãe. Com ele ainda a recuperar da notícia de ela ser sua filha, aqui Pang joga brilhantemente com o possível caso de incesto, pergunta-lhe o que é que ela pretende e ela pede-lhe dinheiro. Depois de lhe dar alguns milhares de patacas diz-lhe que nunca mais a quer ver, mas quando retorna ao seu apartamento ela está à porta, à sua espera. Yan diz-lhe que precisa de mais dinheiro, que foi posta fora de casa, que a sua mãe morreu e que o seu cão, Isabella, está lá dentro.

Shing ajuda-a a entrar no apartamento, apenas para descobrir que o proprietário expulsou Isabella há alguns dias. O nome do cão era também o antigo nome da mãe e é o ultimo elo de ligação de Yan ao seu passado. Sentindo-se obrigado a ajudar Yan Shing, diz-lhe que pode ficar com ele no seu apartamento. Enquanto Yan continua a procura de Isabella, Shing reúne-se com seu chefe (Anthony Wong), em relação ao caso de corrupção em que está envolvido. Shing vem mais tarde a saber que Yan não é realmente sua filha – no entanto, o verdadeiro pai não está interessado em assumir esse papel e o polícia guarda esse segredo para si.

Com o passar do tempo, o vínculo entre pai e filha continua a crescer, e vemos como Yan passa de aborrecimento a filha querida. A intensidade da relação cresce até ao momento em que Shing acabará por tomar uma decisão importante que afectará a vida de ambos. A narrativa em labirinto ajuda a perceber o estado de desorientação dos protagonistas. O polícia em modo de auto-punição tem no aparecimento da filha um estado de possível redenção, o despertar do adulto que até aí nunca assumira.

O romance comovente entre pai e filha é pontuado por um olhar glorioso e romantizado de Macau, com a arquitectura local a ajudar. Ressalve-se que Edmond Pang nunca cai nos habituais estereótipos das imagens turísticas de Macau. São as ruas de Macau, mas nunca se vê qualquer um dos postais ilustrados da cidade, excepção feita ao momento no Farol da Guia, que no instante do filme glorifica a bonita relação entre pai e filha.

Impertinente mas engenhoso, Pang permite emoções meditativas e desenha uma luz ténue, purificadora de toda a novela, como que anunciando, com muita subtileza, que um novo Macau está para nascer. Dado curioso é que o faz, no final do filme, com a voz de Mariza ao fundo cantando o fado “Gente da minha terra”. Delicada e perspicaz visão de um território único que tem raízes culturais tanto no seu passado português, como na sua natureza chinesa.

José Drummond

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