No banco da polémica e do “respeito”

“A Rapariga Pequena e o Cão” deviam estar no museu. Esta é a opinião da maior parte dos comerciantes que trabalham junto às Ruínas de São Paulo. Dizem que a estátua era desrespeitada.

Catarina Brites Soares
Kelvin Costa

Fez parte da paisagem das Ruínas de São Paulo durante 16 anos. A estátua de Lagoa Henriques – “Rapariga Pequena com o Cão” – vai conhecer um novo destino, depois de o Governo considerar que a zona histórica da cidade não é o local mais apropriado para a obra. Os comerciantes – que vislumbram a escultura desde 1994 – concordam, na sua maioria, com a decisão do Executivo porque, dizem, quem passava e pousava para a foto “não mostrava respeito” pelo simbolismo escondido na fisionomia desnudada da rapariga de traços chineses com o cão ao lado.

“A verdade é que as pessoas não respeitavam a estátua. Faziam poses ordinárias, no limiar do sexual”, conta ao PONTO FINAL Lam Kun. Para a empregada da Choi Hong Yuen Bakery, os comportamentos dos visitantes e de muitos dos que circulavam na área “eram um insulto às mulheres chineses”. “Dava-me nojo”, vinca, enquanto faz gestos de quem se sentia incomodada com a situação.

Na tentativa de explicar que não há como evitar os comportamentos menos apropriados, Lam Kun lembra que a zona das Ruínas de S. Paulo é uma parte “muito importante” em Macau que atrai “todo o tipo de gente”. “Não se pode garantir que todos os turistas que vêm aqui tenham educação”, realça. “O que faz com que muitos mostrem desrespeito pela cultura chinesa e portuguesa.”

As fotografias de alguns visitantes acabaram por contagiar a forma como olha a estátua. “Não gostava. Sou mulher e sentia-o como um desrespeito para com as mulheres chinesas”, sublinha.

Seleccionar as pessoas que passam, olham e sentam parece-lhe pouco fazível e, por isso, Lam Kun sugere: “Acho que a estátua estaria muito melhor num museu. O Museu de Macau seria uma boa escolha”, avança.

Já Leong vê a obra de uma outra perspectiva. “Seria melhor se a estátua estivesse aqui porque havia imensas pessoas que tiravam fotos e paravam”, explica o dono da loja de sumos e outros produtos cujas prateleiras foram o cenário nas costas da mulher e do cão.

A continuidade da conversa faz com que a veia comercial seja consumida por uma forma diferente de ver a cena. “É melhor colocá-la num jardim”, opina. “Não sei qual é o significado da estátua, e também não sei porque é que a tiraram dali.”

De acordo com o Jornal Tribuna de Macau, a alteração da morada da estátua que decorou as ruínas foi uma decisão do Executivo, com o intuito de “dilatar o espaço para actividades”. Sem avançar com a nova morada, as autoridades garantem que “será escolhido um lugar adequado”, depois da escultura ter sido removida na quinta-feira passada.

No comércio local repetem-se as opiniões quanto à transferência e às razões para que a estátua não continue a fazer parte dos postais dos turistas. “A estátua não devia ser desaproveitada. Devia estar num museu porque é um símbolo da amizade entre os portugueses e as pessoas de Macau”, frisa Amy Tsang. Com o esforço de quem já conhece a importância da simbiose cultural de Macau, Amy Tsang, que trabalha na loja de artesanato Pou Fouk, diz em português: “Portugal e Macau: tudo amigo”. “Independentemente do sítio onde o Governo decidir colocá-la, vai haver sempre pessoas para a apreciar, porque é mais um marco de amizade entre as duas culturas. Devia ficar num museu de forma a que fosse mais respeitada”, prossegue.

Segundo o Macau Post Daily, houve várias solicitações nos sentido de remover a estátua controversa que, em 1994, custou dois milhões de patacas à então Administração portuguesa. De acordo com o jornal em língua inglesa, já na altura os contornos da mulher semi-nua de traços chineses, acompanhada pelo canino, beliscaram as susceptibilidades dos mais conservadores.

“A mulher com um cão tem uma conotação muito sexual na cultura chinesa”, explica Amy Tsang. “A pessoas gozam mais do que dão valor à escultura”, continua. Ainda que a opinião dos auscultados tenda para a mudança da estátua, Tsang e o colega garantem: ”Não foram os donos das lojas quem impulsionou a ideia de mudar a estátua. Não sabemos a razão”, garantem, explicando que a maior parte das pessoas que ali trabalham não conhece o significado da escultura.

Chow, que trabalha um pouco mais abaixo do banco agora vazio – e que também era da mulher e do cão – é um dos que desconhece o significado da escultura. “Tanto quanto sei, a ideia de remover a estátua foi do IACM. Não vejo razão para o terem feito”, salienta.

O JTM adianta que a mudança tem como objectivos “melhorar o ambiente em redor das Ruínas de S. Paulo, remodelar as pedras da calçada na zona e expandir o espaço para actividades dos turistas”. O The Macau Post Daily, cita o  porta-voz do IACM,  que garantiu que a decisão só “foi determinada após consultas entre o IACM e o Instituto Cultural”.

As razões Chow não as conhece. E, por isso, enfatiza: “Não se devia retirar porque faz parte de todo o contexto do espaço. É mais uma componente do ambiente histórico”. O empregado da Farmácia Alfa diz que “a estátua é bonita” e é, além disso, “património, uma herança”.

Recorde-se que, devido ao reordenamento do NAPE para a construção do Galaxy, seis das oito “árvores metálicas” da autoria de José de Guimarães foram também retiradas do Jardim das Artes. Estátuas de outros autores acabaram por ser repostas, mas as de Guimarães não.

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