Quando o sinal oito de tufão é içado, Macau pára. Pelo meio, por vezes, há espaço para uma boa gargalhada.
Luciana Leitão
Imagine-se que uma série de cobras fogem de uma loja de animais, aterrorizando residentes e autoridades. Ou que um pequeno tronco cai na rua, resultando na emissão de um aviso de perigo público. Não, não é fruto da imaginação, mas a mais pura verdade, vivida pelos residentes do território em época de tufões. E se, na altura, histórias como estas geraram um ou outro cabelo branco, hoje são apenas fonte de sorrisos ou, até, de valentes gargalhadas.
Carlos Barreto foi responsável pela equipa de tufões do Leal Senado (antiga Câmara Municipal), entre 1989 e 1996. Como tal, o vice-presidente da Associação dos Amigos de Moçambique viveu algumas situações caricatas.
Em 1993, durante a passagem de um tufão, Carlos e a sua equipa foram chamados a recolher uma árvore de grande porte que se dizia ter caído em frente ao Palácio do Governador. “Quando chegámos, avançámos até à Meia Laranja e não vimos nada – só um tronco de meio metro de comprimento e cinco milímetros de diâmetro”, afirma.
Apercebendo-se de que a árvore que procuravam era este pequeno ramo, recolheram-no e tiraram uma fotografia. “Enviámos para o comando, acompanhada de um texto: Árvore de grande porte removida, via liberta, anexa-se fotografia.”
Mas o insólito voltou a bater-lhe à porta no dia seguinte. “O Porto Interior estava inundado. A conjugação de chuvas fortes e marés altas levou a água a subir na Avenida Almeida Ribeiro e na Rua da Felicidade”, conta, acrescentando: “Na Rua da Felicidade havia duas lojas que vendiam cobras. A água entrou pelas lojas e deu cabo dos vidros. As cobras desapareceram e, provavelmente, meteram-se num abrigo qualquer.”
Enquanto se encontravam no Porto Interior a fazer patrulhamento, acabaram por se deparar com o que acharam ser uma das cobras fugitivas. “Passaram por nós três raparigas jovens e, de repente, uma delas deu um grito e caiu na água – pensámos que seria uma das tais cobras”, recorda.
Aproximaram-se com cuidado e só então se aperceberam de que uma mera tira de plástico tinha sido a responsável pelo acidente.
As boas-vindas
Helena Brandão, presidente da Associação dos Amigos de Moçambique, chegou a Macau a 22 de Junho de 1985, acabando por se deparar, dois dias depois, com a chegada de um tufão – e calhou no mesmo dia em que o sobrinho nasceu. Ficou-lhe, por isso, na memória.
Acabada de pôr o pé nesta península da China – então sob administração portuguesa -, Helena Brandão teve logo direito a este cartão de visita especial, cruzando-se com uma das realidades mais emblemáticas desta parte do mundo. “Foi o pior tufão que tive oportunidade de observar em Macau e foi curioso porque tinha chegado há apenas dois dias”, recorda, acrescentando: “Só depois fiquei a perceber de que se tratava de um fenómeno ‘normal’”.
De resto, as suas experiências durante tufões têm sido sempre pacíficas, talvez por ser cautelosa. “Procuro refugiar-me cedo. Mas, claro, já tive varandas e portas estragadas, bem como o vidro do carro”, diz.
Um local especial
Para Pereira Coutinho, Macau é um sítio especial. Tudo porque, hoje em dia, os estragos que o tufão causa quando por aqui passa resumem-se a danos materiais. “Os chineses dizem até que se trata de um local sagrado”, diz o deputado à Assembleia Legislativa.
O político recorda-se bem de um tufão que passou por Macau em 1985. “Foi o ano em que o meu filho nasceu. Estava muito preocupado, porque ele poderia nascer durante o tufão”, recorda o político, que, na altura, estava particularmente ansioso. Afinal, o filho acabou por nascer apenas em Novembro, já fora da época de perigo.
Quanto a outros tufões, Coutinho destaca uma situação – que se repetiu por várias vezes – que considera cómica. “Comi, muitas vezes, enlatados. As lojas costumavam estar todas fechadas e o tufão aparecia quase de repente”, esclarece, contrapondo: “Mas, pronto, também não demora muito”.
O olho do tufão
Inquirido sobre a sua experiência mais insólita, o arquitecto Mário Duque nem hesita. “Fala-se sempre no olho do tufão, que é quando este passa exactamente no sítio onde estamos. Estou em Macau desde 1991 e, poucos dias depois de ter chegado, isso aconteceu”, recorda. “Precisei de mais dez anos para que isso voltasse a suceder.”
Já não se lembra bem do nome nem do mês, mas a sensação e o que aconteceu está vivo na sua memória. “Por uns instantes, não há tempestade nenhuma, o sol brilha, os passarinhos cantam e podemos ir à rua fazer o que precisamos”, observa, explicando que dura não mais do que oito minutos. Findo aquele período, “começa um turbilhão, o vento circula em sentido contrário e, instantaneamente, o caos instala-se”.
A piada na desgraça
Podia ter morrido, mas hoje acha piada. Alberto Dias, funcionário público, ainda se lembra de um tufão por que passou, na década de 70. “Era miúdo, estava a estudar. Fomos para a escola debaixo do sinal três e, nesse dia, o sinal passou para oito. Tive de regressar a casa”, afirma, recordando que, como o pai era agente da polícia, teve de fazer essa travessia sozinho.
Juntou-se a um amigo e partiu rumo a casa, num passeio que era, até, relativamente curto. “Andei pela Avenida Horta e Costa, que, na altura, estava cheia de árvores altas. Quando cheguei a metade do caminho, vi um raio grande em cima de uma árvore e o tronco a cair quase em cima de mim”, recorda. Ficou em estado de choque, demorando algum tempo até conseguir comunicar com o agente da polícia que, entretanto, se aproximou para ajudar. “Quando ele me puxou para um lado, nem sabia o que estava a acontecer. Passou-se um tempo até conseguir falar”, salienta.
O carro atacado
Há seis anos, numa noite de tufão, o proprietário de uma empresa de limpeza e exportação/importação no território, Jamelito Escote, viveu um episódio que nunca esqueceu.
“Estava sinal oito e eu e o meu amigo – que nos encontrávamos na Taipa – já não conseguimos regressar, porque a ponte estava fechada. Tivemos de passar a noite na Taipa”, começa por contar. Resignados, estacionaram o automóvel, perto da antiga Câmara das Ilhas. Mas uma árvore não aguentou e acabou por cair precisamente em cima do carro. “Nós não estávamos lá dentro, mas ele ficou todo partido”, conta.
De resto, pensando em todas as experiências por que já passou em Macau em época de tufões, há uma que o aborrece especialmente: “Sempre que temos de atravessar a ponte, andamos de táxi e cobram-nos cinco vezes mais do que se costuma pagar.” Fica o recado.
Os nomes e os estragos
O primeiro tufão de que há registo no território ocorreu a 5 de Setembro de 1738, resultando em significativos danos. Desde essa data, vários se registaram, com um impacto assinalável.
No início do século XX, apesar de se verificar um grau de destruição ainda significativo, já se começaram a notar melhorias no sistema de prevenção – sobretudo, nas previsões.
Terminada a II Guerra Mundial, decidiu passar-se a baptizar os tufões. Em 1979 foi hasteado o sinal dez, quando o Hope, com origem em Hong Kong, acabou por passar mesmo ao lado de Macau.
Mas foi o Ellen que, nos últimos tempos, mais estragos causou. Passando por Macau, em 1983, resultou no hastear do sinal dez, acabou por levar à morte de alguns pescadores. Desde então, só se voltou a içar o sinal dez por duas vezes – quando o Becky esteve em Macau, em 1991, e em 1999, quando o York passou por Hong Kong.