Rita Colaço é portuguesa, jornalista e autora do blogue Coreia do Norte – Um segredo de Estado. Desde que visitou o país, não mais parou de escrever sobre as pessoas e o regime de Kim Jong-il. “O país mais fechado do mundo” é o seu grande desafio.
Hélder Beja
Conflitos armados, o Mundial de futebol, o relatório da Amnistia Internacional, links para leituras de fim-de-semana. Tudo, de uma maneira ou de outra, diz respeito à Coreia do Norte (ou às Coreias) no blogue de Rita Colaço, jornalista da Antena 1.
Coreia do Norte – Um segredo de Estado (http://coreiadonorte.wordpress.com) nasceu depois da viagem que a jovem portuguesa fez ao país de Kim Jong-il, em 2006. Por lá, cozinhou a reportagem homónima que lhe valeu uma menção honrosa no prémio AMI – “Jornalismo Contra a Indiferença”.
Em entrevista ao PONTO FINAL, Rita Colaço (que também já estudou mandarim) fala do interesse pela Coreia, da experiência “surreal” que foi entrar naquele território quase inacessível, das histórias de dissidentes que entrevistou e da actual tensão ente o Norte e o Sul. “Aquilo que sinto, por vezes, é que a Península da Coreia viverá num impasse eterno, enquanto se eternizar a dinastia dos Kim na Coreia do Norte”, considera.
– De onde vem, ou como começa, este seu interesse pela Coreia do Norte?
Rita Colaço – É sempre difícil situar o momento exacto em que os nossos interesses começam. No caso do Coreia do Norte, lembro-me perfeitamente de estar a ver um documentário na televisão, que mostrava a então secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, a oferecer uma bola de basquetebol a um homem que era apresentado como o líder do país mais fechado do mundo: Kim Jong-il, líder da Coreia do Norte. E aquele homem sorria. Terei feito a pergunta a mim própria: “um ditador que sorri ao ver uma bola de basquetebol no país mais fechado do mundo?” A partir daí continuei a cultivar o meu interesse pelo país, até que em 2006 consegui entrar na Coreia do Norte.
– Como conseguiu entrar na Coreia do Norte?
R.C. – Depois de algumas pesquisas, descobri a Korean Friendship Association (KFA) na Internet, uma associação criada pelo catalão Alejandro Cao de Benos que é o único estrangeiro a representar o governo norte-coreano no exterior. A KFA organiza duas a três viagens por ano até à Coreia do Norte. Escrevi para o Alejandro, identificando-me como jornalista. De início, respondeu-me que eu poderia visitar o país mas sem fazer qualquer reportagem. Posteriormente, na China – local do ponto de encontro – Alejandro deu-me autorização para fazer algumas gravações na Coreia do Norte, desde que pedisse sempre autorização antes de começar a gravar. Nessa viagem, foram mais quatro ou cinco pessoas de outras nacionalidades – que não eram jornalistas – e também uma outra jornalista portuguesa que trabalha em Pequim, a Maria João Belchior. Descobrimos a meio do processo que iam duas jornalistas portuguesas, o que acabou por ser uma vantagem. Alejandro diz que é o único a ter autorização para levar jornalistas à Coreia do Norte.
– O que sente é uma espécie de fascínio pelo país? Porquê?
R.C. – Confesso que, em primeiro lugar, queria desafiar-me a mim própria, enquanto jornalista. Provar que conseguia entrar naquele que era tido como o país mais fechado do mundo. E quanto mais lia e pesquisava sobre a Coreia do Norte – e também sobre a Coreia do Sul – mais alimentava uma espécie de fascínio pela História daquele povo. Um povo divorciado há mais de 60 anos, mas com a mesma cultura, a mesma língua, o mesmo passado. Mas, neste caso, não há leitura ou pesquisa que substitua a experiência ‘in loco’. Aprende-se sempre muito mais quando olhamos as pessoas, quando estamos ao lado delas e queremos ouvir os seus relatos. E até nos ajuda a desfazer ideias pré-concebidas.
– Como foi essa sua experiência na Coreia do Norte?
R.C. – Até hoje, estou a tentar transmitir essa minha experiência às pessoas, da forma mais verdadeira possível, mas a tarefa não é fácil. Creio que, numa explicação muito geral, foi das experiências mais surreais que tive na minha vida. Nada nos prepara para aquilo que vamos encontrar: um país em que os líderes Kim Il Sung e Kim Jong-il são quase deuses numa espécie de monarquia comunista. Cada visita a um museu, ou a uma quinta, ou a qualquer lugar, é sempre precedida de uma ode aos líderes: “o nosso grande líder Kim Il Sung ensinou-nos isto…o nosso querido líder marechal Kim Jong-il ensinou-nos aquilo”. Tudo acontece graças à existência daqueles dois homens. Para além disso, foi a viagem em que a minha liberdade de movimentos e de expressão estiveram mais condicionadas, porque um visitante nunca pode sair à rua sozinho, nunca. Há sempre um guia ao nosso lado. Cheguei até a ter uma guia ao meu lado numa casa-de-banho, durante a visita a uma fábrica de têxteis. No entanto, descobri um povo simpático, capaz de se emocionar e que sonha – creio eu – de forma genuína com a reunificação. Claro que vi aquilo que o regime me quis mostrar e tenho consciência de que estive acompanhada pela elite norte-coreana. Se pudesse andar à vontade talvez tivesse descoberto os bastidores da Coreia do Norte. Mas isso é totalmente impossível. Por isso, senti necessidade de ir ao outro lado, à Coreia do Sul, entrevistar dissidentes norte-coreanos.
– Como foram essas entrevistas com dissidentes? Que histórias contaram?
R.C. – As entrevistas foram marcadas através de organizações de direitos humanos. A única condição era sempre a de não identificar os nomes verdadeiros, nem tirar qualquer fotografia. Falei com um norte-coreano que tinha fugido há 10 anos quando cumpria o serviço militar. Reconheceu que, apesar de tudo, os militares eram os únicos que conseguiam – nessa altura – ter acesso às rações de arroz, mas a situação da maior parte da população era dramática. Outro caso – aquele que mais me impressionou – foi a de uma refugiada que fugiu da Coreia do Norte porque tinha fome e ouvia dizer que, na China, até os cães comiam arroz. A primeira vez que tentou fugir, foi apanhada pelas autoridades norte-coreanas, torturada e enviada para um campo de trabalhos forçados. Conseguiu fugir pouco tempo depois, através do rio Yalu – fronteira fluvial com a China – e só nessa altura, aos 30 anos, é que se lembra de ter perguntado a si própria, pela primeira vez: “quem sou eu?” Já no ano passado, quando regressei à Coreia do Sul, entrevistei também Kang Chol-hwan, autor do livro “Os Aquários de Pyongyang”. Ele passou 10 anos no campo de Yodok, um dos ‘gulags’ mais conhecidos na Coreia do Norte. Kang foi enviado para esse campo aos 10 anos com os pais, apenas porque o avô estava a ser acusado de traição ao regime. Esteve submetido a trabalhos forçados e passou muita fome. Chegou até a apanhar ratos para poder sobreviver.
– A sua reportagem, distinguida pela AMI, consistiu exactamente em quê?
R.C. – A reportagem é, no fundo, o resultado dessa viagem de mais de 20 dias que passou pela China, pela Coreia do Norte e pela Coreia do Sul. É um trabalho que tenta ter os dois lados da Península Coreana, mas mais focada no lado Norte. Foi com muito orgulho que recebi em 2007 uma menção honrosa no prémio AMI – “Jornalismo Contra a Indiferença”. É esse jornalismo – contra a indiferença – que me faz querer contar estórias.
– Pelo que percebo, a viagem acaba por servir de mote à criação do blogue. Quando e com que propósito o criou?
R.C. – Criei o blogue em Novembro de 2006, dois meses depois de regressar dessa viagem inesquecível para, como escrevi no primeiro post, olhar em português o país mais fechado do mundo. O espaço em rádio é sempre curto e eu tinha muito material – sonoro e fotográfico – que iria ficar abandonado num armário qualquer. Além disso, não havia muita informação sobre as Coreias, em português. “Coreia do Norte: um segredo de Estado” foi o nome que dei à reportagem radiofónica e que acabou por também dar o nome ao blogue. É quase uma marca. Tenho sempre uma média diária de 200 visitas. Um número bastante gordo, tendo em conta que se trata de um blogue sobre um tema tão específico. Porém, há alturas – como no campeonato mundial de futebol – em que o blogue chega às 2500 visitas diárias e são, sobretudo, visitas do Brasil.
– Que fontes consulta normalmente para ler sobre a Coreia?
R.C. – Quando quero publicar “as últimas da Coreia”, vou a páginas online de jornais sul-coreanos e também espreito sempre a agência oficial de notícias da Coreia do Norte, a KCNA. Além disso, faço uma busca na Internet em francês, inglês, espanhol e, claro, português. Utilizo também agregadores de notícias e, todos os dias, há informação que recebo automaticamente por email. Leio também muitos livros sobre as Coreias, que encomendo através da Internet, e que servem como ponto de partida para alguns dos posts que podem ser lidos no blogue.
– Habitualmente trabalha sobre temas relacionados com a Coreia do Norte no seu dia-a-dia, ou o blogue e as leituras que faz são mesmo um interesse à parte?
R.C. – São quase só um interesse à parte. No dia-a-dia, sou um pouco uma espécie de bombeira radiofónica, isto é, trato de vários assuntos, uma vez que estou integrada numa equipa de informação generalista. Sempre que há notícias da Coreia – que possam interessar aos ouvintes da Antena 1 – encarrego-me do assunto. No blogue, tenho já um núcleo de leitores assíduos e é para eles que escrevo com muito prazer.
– Está certamente atenta ao agravar da tensão entre o Sul e o Norte da Coreia. Como olha para essa situação?
R.C. – No Verão passado, voltei a visitar a Coreia do Sul, quando o antigo presidente – e Nobel da Paz – Kim Dae-jung morreu. Ele teve um papel muito importante na reaproximação das Coreias e houve até uma delegação norte-coreana que assistiu às exéquias fúnebres de Kim Dae-jung. Os analistas acreditavam – e eu própria – que isso era um sinal de que as relações podiam mudar muito em breve, para melhor. A verdade é que o naufrágio da corveta sul-coreana, em Março deste ano, veio agudizar novamente uma relação há muito conturbada. As Coreias vivem tecnicamente em guerra há mais de 60 anos e a Coreia do Norte exige um Tratado de Paz e não apenas um armistício. Além disso, os norte-coreanos dizem que a permanência dos Estados Unidos da América na Coreia do Sul é que está a atrasar o processo de reunificação. Infelizmente, os recuos têm sido maiores que os avanços. O Governo de Pyongyang está muito irritado com as últimas notícias que dão a Coreia do Norte como culpada pela morte dos 46 marinheiros sul-coreanos e nega a sua autoria. Mas não acredito que Kim Jong-il vá começar uma guerra. Sabe que terá muito mais a perder.
– Que comentários faz ao regime político norte-coreano?
R.C. – Aquilo que sinto, por vezes, é que a Península da Coreia viverá num impasse eterno, enquanto se eternizar a dinastia dos Kim na Coreia do Norte. Acresce a isso o facto da China tentar ignorar o problema, assim como a Coreia do Sul, o Japão, os Estados Unidos e a Rússia. Esquecem-se que, no meio desta guerra de palavras, há um povo de 23 milhões de pessoas que sofre com as acções de um regime opressivo.
– Para alguém que segue assim a actualidade do país, como foi ver a participação da Coreia do Norte no Mundial de futebol?
R.C. – Foi emocionante, sobretudo porque os norte-coreanos voltaram a jogar com Portugal, 44 anos depois. Nessa altura, pensei muito em Pak Kwang-ung, um dos guias que conheci na Coreia do Norte e que adora futebol. Pensei se ele iria ter oportunidade de ver o jogo. Muito se especulou sobre a participação dos norte-coreanos. Para mim, sem dominar o tema do futebol, ficou a imagem de uma equipa de homens corajosos, com um grande fair-play em campo. Como poucas selecções, devo acrescentar.
– Mantém ainda o blogue http://ugandaprojecto.wordpress.com. Pode falar um bocadinho sobre esta iniciativa?
R.C. – Neste caso, o blogue surgiu de um projecto de voluntariado que iniciei com uma amiga, a Isolina Ribeiro, num orfanato do Uganda. Conhecemos cerca de 40 crianças que são educadas por dois rapazes, também muito novos. O blogue é uma forma de angariar ajuda para o orfanato e de divulgar a tenacidade de meninos e meninas que perderam os pais muito cedo. Em um ano de projecto, conseguimos comprar um terreno de um hectare e meio, para cultivo; também instalámos luz eléctrica; e ainda conseguimos comprar máquinas de costura para as viúvas da aldeia de Bulenga – onde fica o orfanato – que assim conseguem sustentar as suas próprias casas e, ainda, dar algum dinheiro para a alimentação e escola das crianças do orfanato. É um projecto muito bonito que tem cada vez mais amigos. É um U-ganda Projecto!