Histórias que são um prato

Miguel de Senna Fernandes lembra-se de lá almoçar com os pais, Carlos Marreiros do ‘ta pao’ que, então adolescente, não dispensava. E José Sales Marques tinha-o como restaurante de eleição, nos idos tempos do Leal Senado. O Long Kei, no Largo do Senado, fez as delícias da gastronomia cantonense. Desde 1945, acumula histórias servidas entre pratos que agradavam a todas as comunidades. Os macaenses eram dos principais clientes da casa que agora corre risco de fechar, com a venda do edifício.

Hélder Beja

A notícia começou a circular na Internet e chegou às páginas do jornal Ou Mun: o restaurante Long Kei, no Largo do Senado, pode estar em vias de fechar, já nas próximas semanas. O diário em língua chinesa avança que a venda do edifício que faz esquina com a Travessa do Barbeiro está a ser negociada na RAEHK, por valores nunca inferiores a 200 milhões de dólares de Hong Kong.
No restaurante, o dono prefere não adiantar detalhes ao PONTO FINAL “antes de ser informado oficialmente” pelo actual proprietário do edifício. Até agora, sabe-se que o imóvel pertence a uma família de apelido Chan, de Hong Kong. “Só posso dizer que este restaurante tem uma história de mais de 60 anos, não quero falar mais sobre o assunto neste momento”, completa. Falta ainda perceber se o negócio em causa envolve todo o edifício ou apenas as fracções ocupadas pelo clássico da gastronomia do território.
“A notícia apanhou-me de surpresa e estou escandalizada”, diz Cecília Jorge, jornalista e autora do livro “À Mesa da Diáspora”, sobre a gastronomia macaense. Mas importa dizer que o Long Kei, inaugurado há 65 anos, “é um restaurante de comida cantonense de Macau, não de comida macaense como já foi escrito”, frisa a autora.
Aberto desde 1945, o restaurante situado nas arcadas do Largo do Senado tem laços fortes com a comunidade macaense, apesar de ser “um restaurante unânime, que por muitos anos agradou a todos”, refere o arquitecto Carlos Marreiros. Cecília Jorge lembra que era ali que “a maior parte dos macaenses fazia jantaradas” e que aquele é um espaço que marca várias gerações: “Não só a minha, que é a das pessoas que estão agora nos 50 ou 60, mas também a dos nossos pais”.
À qualidade da comida e à localização privilegiada, todos os clientes do Long Kei ouvidos pelo PONTO FINAL referem uma certa atmosfera que torna o estabelecimento especial e que, por muitas décadas, fez com que recebesse festas de aniversário, de baptizados, de casamento, além dos muitos jantares de grupo de colegas de serviço. “Deixar fechar o Long Kei, numa altura em que se está a tentar defender o património… é uma luta perdida”, prossegue Cecília Jorge. Até porque, considera, o restaurante “não perdeu qualidade”. “Pode não ter a mesma projecção, mas ainda há pouco tempo lá almocei e continua a comer-se muito bem.”

Sítio de muitas histórias

Cecília Jorge ainda se recorda dos tempos em que “o pessoal levava o peixe e o marisco” e os cozinheiros do Long Kei tratavam do resto. “Não há muitos restaurantes a fazer isso”, garante. E os episódios que vêm à memória dos que ali se sentaram à mesa são mais que muitos.
“Ia muito com os meus pais ao Long Kei, agora há uns anos que não vou”, começa o advogado Miguel de Senna Fernandes. “O meu pai [Henrique de Senna Fernandes] gostava muito de ir lá, às seis e tal da tarde, comer pombo”, recorda. “Eu não quero ser saudosista, mas não posso resistir às memórias que o sítio evoca”, diz Senna Fernandes. Nelas está presente uma geração de empregados de mesa que quase todos referem, alguns dos mais antigos capazes de se fazer entender em português. “Antigamente até os próprios donos serviam, era tudo gente muito simpática”, afirma o advogado.
Senna Fernandes fala de um espaço que “faz parte do Macau antigo, um dos poucos restaurantes chineses que ainda confeccionava comida chinesa caseira, coisas que outras casas achavam que nem sequer tinham categoria para estar na ementa”.
José Sales Marques, antigo presidente da Câmara Municipal de Macau Provisória, lembra que o Long Kei, ali bem ao lado do então edifício do Leal Senado, foi o sítio escolhido pelos membros da assembleia municipal num momento muito especial: “Depois da última crise da gripe das aves em Macau, que levou à suspensão da importação de galinhas, fizemos um almoço público, em que todos comemos galinha e convidámos os órgãos de comunicação, para provar que era seguro voltar a fazê-lo. O lugar escolhido foi o Long Kei”.
O economista não põe em causa que se trate de “um ponto de referência para a boa gastronomia” do território, mas assinala períodos em que “a qualidade decaiu, com o restaurante a tornar-se muito turístico”, também reflexo das alterações sofridas na cidade. “Já não é o mesmo”, remata.
Carlos Marreiros, por sua vez, também era dos que frequentava o Long Kei em família. “Os meus pais levavam-me a mim e ao meu irmão, nos anos 60. Os preços eram módicos, o serviço sempre atencioso. Tinham boa comida cantonense”, atesta. A relação estendeu-se no tempo e, já adolescente e estudante, Marreiros recorria frequentemente ao ‘ta pao’: “Tinham um arroz chau chau famosíssimo”. O arquitecto aponta igualmente os “altos e baixos na qualidade da comida”, mas defende que “em geral o nível foi sempre elevado”. Tem ainda presente “a grande divulgação do chamado ar condicionado”, na década de 1960, em que o Long Kei terá sido pioneiro em Macau.
Alguns dos entrevistados falam do Long Kei no passado, mas ainda não é caso para tanto. O futuro do restaurante é incerto mas isso não impede que para já as mesas se encham de clientes que vão comendo os petiscos da casa. A verificar-se o pior dos cenários, desaparecerá também esse foco de gastronomia onde é possível encontrar manjares quase extintos.

O melhor da mesa

Curioso é que quase todos refiram pratos diferentes na hora de falar das iguarias do Long Kei. Na Internet, circula que a barbatana de tubarão com galinha é o melhor da lista, mas “a grande especialidade era o leite frito”, garante Carlos Marreiros, que também não deixa de fora das suas preferências o pato recheado e o ‘chu ioc peng’ (porco picado com peixe salgado). Sales Marques alinha com o arquitecto e ri-se ao tentar explicar a receita que conjuga carne e peixe, “como se fosse uma bola, com ovos de pato salgados”. Outro dos pratos fortes do restaurante é galinha frita com pele tostada. “Fazem isso muito e é muito famoso”, afiança. Depois, anos atrás, havia quem preferisse “os passarinhos das várzeas”.
Cecília Jorge diz que os sabores da casa “eram famosos pelas chamadas pinças de caranguejo, eram especialistas nisso”. A jornalista refere ainda outro restaurante próximo, fechado há meses. “Chamava-se Diamante e ficava na Rua da Estalagem. Era uma espécie de irmão gémeo do Long Kei, embora em versão pobre, e também encerrou”, lamenta.
Miguel de Senna Fernandes, que antes tinha escritório na Almeida Ribeiro, fazia no Long Kei parte das suas refeições. “Ia lá com os meus clientes, tomava um chazinho, era o sítio que dava jeito”, diz. Agora, afiança, os sabores tradicionais estão a desaparecer para dar lugar “a pratos com nomes até muito poéticos mas que não são a comida de Macau”. Recorda os anos 1980 e 90, em que “a comunidade portuguesa, mais numerosa, acorria muito” ao restaurante. “Comida boa, preços módicos, e um pombo assado fantástico”, descreve.
O Long Kei, que viveu muitos anos do privilégio conferido pelo posicionamento na urbe, “perdeu essa referência a partir do momento em que a cidade se tornou policêntrica”, considera Senna Fernandes. E Marreiros refere que “é uma pena se o Long Kei desaparecer, porque tem história”. Ainda mais “por estas razões”. “Qualquer alteração de dono [do edifício] devia fazer por manter o restaurante, mesmo que reformatado.”

Restaurante tem amigos na Internet

A comunidade já está a par da possibilidade de encerramento do Long Kei e não ficou imóvel. Um grupo na rede social Facebook, criado pela casa de Portugal de Macau e com o título “Amigos do Long Kei”, já tinha mais de 100 seguidores à hora de fecho desta edição.
“O Restaurante Long Kei no Largo do Leal Senado é um ícone daquela zona de Macau. Consta que vai fechar para ser substituído por um qualquer franchise ‘de plástico’, como outros que tem invadido o centro da cidade, roubando-lhe a sua identidade. Esta destruição do coração de Macau não pode continuar!”, lê-se na apresentação deste grupo criado recentemente.
Os comentários sucedem-se no mural da página. Nuno Lima Bastos, jurista que deixou o território recentemente, escreve que “o coração e a alma de Macau já estão a ser destruídos há vários anos (…). A especulação imobiliária e outros interesses materiais falam mais alto. A qualidade de vida vai-se deteriorando, perante a apatia quase generalizada de uma população entorpecida”. E muitos apelam a que tirem fotografias ao interior e exterior do restaurante, dizem que o Largo do Senado não será o mesmo sem o restaurante aberto há 65 anos.

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