Um negócio criativo

Vender também é uma arte e o pavilhão de Macau na VI Feira Internacional de Indústrias Culturais da China, em Shenzhen, é prova disso. Da roupa aos acessórios, passando pelos livros e CD, o território levou dezenas de criações e criadores ao Continente, para mostrar e fazer negócio. A feira termina hoje.

Hélder Beja, em Shenzhen

A entrada podia ser a de um aeroporto. Depois de mais de três horas de viagem de autocarro até Shenzhen, a comitiva de Macau teve de passar, como os restantes visitantes, por um aparatoso (mas pouco eficaz) sistema de detecção de metais à entrada na VI Feira Internacional de Indústrias Culturais da China.

O Centro de Convenção e Exposições de Shenzhen aprumou-se e o público respondeu: às 11h de sexta-feira já eram muitos os que percorriam os corredores dos vários pavilhões. “Design de Macau, Criatividade de Macau” foi o tema escolhido para mais uma – a terceira – participação do território na mostra. Os jornalistas foram convidados para o cortar de fitas do pavilhão, que contou, entre outros, com a presença do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, do presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng (ver entrevista nestas páginas), e com representantes do Partido Comunista e do município de Shenzhen.

Cheong U lembrou o historial de participações de Macau na mostra, mas garantiu: “De todas as vezes nos sentimos muito alentados pela sua escala e riqueza em termos de produtos expostos”. Para o secretário, a Loja da Criatividade – uma das inovações no pavilhão do território deste ano –  é uma “importante plataforma de comércio na área das indústrias culturais”, que demonstra “a criatividade da terra multicultural que é Macau”. Cheong U falou ainda da necessidade de “aprender com Shenzhen e com outras cidades” no que toca ao desenvolvimento das indústrias culturais, ainda a começarem o seu caminho na RAEM.

Bem vender

O pavilhão de Macau, estrutura rectangular em madeira que se destacava entre os restantes stands, ficou situado no primeiro dos oito blocos temáticos da feira internacional, intitulado “Salão de Comércio de Projectos de Indústrias Culturais”. E certo é que, apenas alguns momentos depois da inauguração do pavilhão e dos respectivos discursos oficiais, já se começava a juntar fila de gente para conhecer as propostas do território.

“Está tudo a correr muito bem, mas o número de visitantes está muito acima do que esperávamos. Está gente a mais aqui, não esperava, e é por isso que estamos a controlar as entradas, não queremos o pavilhão demasiado cheio”, explicou ao PONTO FINAL o presidente da Associação dos Designers de Macau, Dirco Fong. A associação foi a responsável por conceber o pavilhão, e a principal mudança em relação a anos anteriores foi a vertente comercial introduzida.

Fong explica que o propósito passou por “promover os produtos criativos de Macau no mercado chinês”. “Investimos muito na qualidade e queremos vender, porque nos últimos dois anos muita gente que vinha ao pavilhão perguntava se podia comprar.” Quanto ao design da estrutura que acolhe os produtos de Macau, o responsável referiu que “o pavilhão é muito diferente dos outros” e pretende passar “uma identidade forte” do território. “Não agendámos nenhuma performance ou espectáculo, queremos que o pavilhão seja um espaço tranquilo, que as pessoas venham aqui para relaxar.” E para comprar, já agora.

A ver passar a China

É preciso tempo – que a comitiva de Macau não teve –  para ver com atenção a enorme feira de Shenzhen, com várias centenas de stands. Ao percorrê-la sente-se ao mesmo tempo a proximidade das pessoas e a barreira da língua, já que são praticamente inexistentes informações ou brochuras em inglês. E sente-se também a vastidão da China, com todas as suas províncias representadas, com o moderno e o artesanal a conviverem a poucos metros de distância.

Artesãos que moldam cerâmica alinhavam-se com pavilhões de tecnologia 3D em que dezenas de curiosos, munidos de óculos especiais, miravam o ecrã das coisas impossíveis. Andámos mais uns blocos e demos de cara com um artista que desenha com areia, que reinventa em segundos a tela filmada e projectada em tamanho gigante. Não faltava ouro, prata e joalharia diversa, mobiliário chinês, caligrafia e pintura, alguma tecnologia de ponta.

Uma das presenças que mais sobressaia era a de Taiwan, representada em grande escala na mostra. Mas a arte é um conceito amplo, onde cabe quase tudo, e o que verdadeiramente atraia os visitantes masculinos da feira era o stand onde top models posavam e cumprimentavam quem passava, bem como alguns pavilhões onde os jogos de computador eram as estrelas. No pavilhão de Macau a tónica esteve, decididamente, nos artistas.
Uma caneca de Carlos Marreiros
Foram muitas e muito diferentes as empresas seleccionadas pelo Instituto Cultural para a mostra de Shenzhen. Macau Creations, Meow Space, Espaço Pobre, Lines Lab, Costelas Limitada, Faimat Reciclagem, Força Musical de Macau, Oh! My Store! e a editora do jornal Ou Mun apresentaram uma gama de produtos que ia das t-shirts aos sacos e outros acessórios, dos livros aos discos.
A Macau Creations mostrou alguns dos objectos mais originais. “Esta caneca é do Carlos Marreiros, adaptámos uma pintura dele ao objecto”, explicou Wilson Chi Ian Lam, director criativo da empresa. “Fazemos isto com o trabalho de vários artistas, muitos da comunidade chinesa. Estamos apenas a começar e a nossa loja deve abrir em Julho, perto das ruínas de São Paulo”, prosseguiu. A ideia empresarial é, neste caso, reproduzir obras de arte em objectos do dia-a-dia. “Também temos roupa interior e todos os trabalhos têm a assinatura do artista. Tentamos não só vender mas também promover os artistas locais”, defende. Quanto a custos, Wilson fala de “preços razoáveis”: “Preocupamo-nos com a qualidade. Uma t-shirt pode custar umas 230 patacas”.

Em Shenzhen também não faltou o toque português, com a Lines Lab de Clara Brito e Manuel Correia da Silva. “Em relação ao pavilhão estou mesmo muito contente, acho que está óptimo. Já é o terceiro ano em que participamos e tem havido sempre uma diferença qualitativa enorme”, congratulou-se a criativa.

Para a mostra, Clara Brito trouxe produtos que são um misto entre ‘product design’ e moda: “As malas, as t-shirts, os colares. Trouxemos coisas mais ligadas a merchandising, coisas mais simples, tudo o que tinha mais influência do território. Temos uma linha de t-shirts com a ideia ‘be lucky’, por causa da questão dos casinos; e uma linha de malas toda inspirada em desenhos da cidade: as portas de ferro, as moedas chinesas, detalhes da Casa do Mandarim”.

Ser das poucas ocidentais que encontramos na feira, é coisa que não a constrange: “Sinto-me optimamente bem aqui. Já vivi várias vezes fora de Portugal, portanto não me sinto nada estrangeira noutros países. Aliás, até gosto da sensação. O Manuel já conhece Macau há muitos anos, sempre viajou entre a Europa e a Ásia, porque parte da família dele vive cá. Por isso, sentimo-nos muito confortáveis”, atesta.

A ida a feiras como a de Shenzhen é aproveitada pela Lines Lab para estabelecer novos contactos. “Mesmo falando em termos de negócio, Macau está no meio da Ásia, que é o sítio onde está a haver um ‘boom’ económico. Há uma série de posições políticas que se estão a estruturar e acho que estamos no sítio certo na hora certa.” No futuro, Clara Brito “gostava de expandir e internacionalizar mais a marca na Ásia”. “Na Europa já temos alguns contactos, exportamos para lá mas claro que a uma escala pequena. Depois, aqui, é participar neste tipo de eventos e estar com a comitiva de Macau em mais feiras”, considerou.

A responsável pela Lines Lab frisa que para um português “é muito confortável e fácil abrir uma empresa em Macau, mas depois é preciso crescer para outras direcções”, porque o território “tem os condicionalismos confortáveis que tem”. Ainda assim, assume a Lines Lab como uma marca da RAEM: “A nossa marca é de Macau, tem também um nome chinês. Quando vamos a feiras, e assumimos esse lado chinês que temos, faz furor porque, primeiro, os caracteres são bonitos, e depois levamos esse conceito a outras culturas que neste momento começam a ouvir falar da Ásia e da China como algo que está muito na moda.”

Mostrar o melhor

A vertente expositiva não foi esquecida pelo pavilhão da RAEM. Em Shenzen, a Associação dos Designers de Macau apresentou obras premiadas na VII Bienal de Design de Macau, trabalhos de banda desenhada dos seus associados e obras de cinco jovens designers de Macau, produzidas no âmbito do Programa de Intercâmbio na área de Design entre Macau e Shenzhen. A Associação dos Arquitectos de Macau expos as obras dos Prémios de Arquitectura de Macau e da Exposição “100% Designed in Macau – Part 3”, de jovens arquitectos de Macau. Finalmente, o Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau reuniu peças de 13 estilistas locais e formandos do programa “MaConsef”, para mostrar as obras de design de moda com potencial de mercado.

“A nossa ideia é abrir a Macau o mercado internacional”

O presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, foi uma das figuras em destaque entre a comitiva que marcou presença em Shenzhen, na abertura do pavilhão de Macau, durante VI Feira Internacional das Indústrias Culturais da China. O responsável falou ao PONTO FINAL dos seus objectivos para a cultura do território e deixou o recado: “Uma cidade tem de ser culta, tem de ter ideias. Uma cidade não é só um sítio para comer”.

– Como vê a presença de Macau nesta feira?
Ung Vai Meng – Macau é um território muito pequenino, mas tem muitas características próprias na sua cultura e na sua história. Aqui temos uma muito boa oportunidade de mostrar como a cultura e o design coexistem nas nossas características. Shenzhen é uma montra para outros mercados.
– O que é que o pavilhão de Macau mostra?
U.V.M. – Mostramos várias áreas, desde a arquitectura, a moda, o design e a produção. Penso que este pavilhão de Macau na feira é um passo importante, mas não é um último passo. Vamos procurar mais oportunidades como esta, por exemplo na província de Fujian, e sobretudo em Cantão, que é cada vez mais uma ponte para Macau. A nossa ideia é abrir a Macau o mercado internacional. Não queremos que a produção de Macau fique só no território.
– Chegou há pouco tempo à presidência do Instituto Cultural. Internacionalizar Macau, participando em mais feiras é um dos seus objectivos?
U.V.M. – O Instituto é uma organização muito importante na área da cultura. Não se resume só a isto, porque a criatividade é importante, mas além disso há a questão do património, o Festival Internacional de Música, o Festival de Artes, as escolas de dança… O objectivo total é elevar o nível de apreciação e introduzir mais cultura. Uma cidade tem de ser culta, tem de ter ideias. Uma cidade não é só um sítio para comer, brincar, não é só isso. Esse é o nosso objectivo.
– Como é que se ensina às pessoas a importância da cultura?
U.V.M. – Penso que mostrar é uma maneira de ensinar. Mas como nas escolas não há um dia para a cultura, além de contar com os funcionários do Instituto Cultural também quero cooperar com associações e outros departamentos. Toda a sociedade tem de estar junta nisto. Além do Governo, a população está cheia de energia artística e cultural. Espero que todos trabalhemos em conjunto.

O desenhador ‘freestyler’

Aqueles que entravam no pavilhão de Macau não podiam deixar de reparar naquele rapaz de boné, dobrado sobre uma grande mesa de madeira, phones nos ouvidos e caneta na mão, a desenhar incessantemente. Pakeong Sequeira é o autor dos desenhos e dizeres que enchem a traço preto as madeiras que envolvem o pavilhão da RAEM em Shenzhen. E o seu trabalho também está nos folhetos distribuídos, nos sacos promocionais oferecidos aos convidados.
O criativo de 32 anos, filho de mãe macaense e pai chinês, foi convidado pelo Instituto Cultural para continuar a ilustrar a face do stand do território durante os dias da feira. No meio das pessoas que passavam e do muito ruído, Sequeira parecia alheado e continuava a desenhar. “O truque é isto”, e mostra-nos o leitor de mp3 que o acompanha sempre. Se lhe perguntamos sobre a técnica que usa, diz que “não há”. “Vou apenas desenhando. Isto é uma espécie de freestyle, nunca tenho a certeza do que vai acontecer”, conta.
Desde quinta-feira passada que Pakeong Sequeira, ilustrador e fotógrafo freelancer – está a preencher a grande mesa redonda colocada no centro do stand de Macau. “No começo não tinha qualquer ideia, mas conforme comecei a desenhar as figuras começaram a surgir. É sempre assim, vou apenas seguindo a minha linha. Isto é mais sobre sentir que sobre pensar”, atira.

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