Um furacão (anónimo) chamado Forum Macau

Quando se fizer a história dos primeiros anos do pós-transição de Macau será impossível ignorar um fenómeno chamado Forum Macau, nascido há precisamente 10 anos. O seu sucesso foi a sua morte: o anonimato.

João Paulo Meneses
putaoya@hotmail.com

Só os mais novos não se recordarão que há dez anos se vivia uma das mais intensas experiências internéticas envolvendo Macau. Basta dizer que, dez anos depois, e com a Internet muito mais disseminada, nunca mais se verificou nas páginas do Expresso uma experiência tão forte como a que se registou a propósito da criação da Fundação Jorge Álvares (FJA) e, a seguir, com o chamado Forum Macau.

O Fórum Macau nasceu em Maio de 2000 para dar continuidade às centenas de comentários surgidos na página online do Expresso, a propósito de várias notícias sobre a FJA (sendo que, rapidamente, esses comentários se transformaram numa espécie de tribunal dos últimos anos da administração portuguesa e do mandato de Rocha Vieira em particular; com uma ‘sentença’ sem dúvida negativa, tal a desproporção entre opiniões negativas e positivas).

O sítio do Expresso na Internet sofreu nestes 10 anos diversas alterações no que diz respeito à possibilidade de anónimos comentarem (introduzindo mais formas de responsabilidade), mas mesmo assim é forçoso reconhecer que, é no mínimo curioso que, tenha sido um caso de Macau aquele que mais movimento gerou (e em 10 anos aconteceu muita coisa, em Portugal e no mundo, que poderiam ter justificado mais interesse).

O caso tornou-se de tal maneira insólito que o jornalista do Expresso José Pedro Castanheira inspirou-se nele para a sua tese de graduação e publicou o trabalho em livro («No Reino do Anonimato», MinervaCoimbra, 2004). Livro de onde retirámos esta frase: «Rocha Vieira conhece momentos de glória [com o arrear da bandeira nacional, encostada ao peito]. Há quem se apresse a colocá-lo na especial galeria de heróis nacionais. O estado de graça não dura mais de um mês. Em meados de Janeiro – com o país ainda na ressaca da transferência de Macau e da viragem do século – as notícias sobre a Fundação Jorge Álvares têm um efeito devastador. Grande parte do capital de confiança e admiração, conquistado por RV, esfuma-se. A euforia dá lugar à depressão. É o desapontamento e a depressão».

Do Expresso ao Forum Macau

É impossível separar a publicação no Expresso de algumas dezenas de notícias sobre a FJA, os respectivos comentários e o aparecimento do Forum Macau (em concreto, foram 730 comentários, a partir do primeiro artigo a 15 de Janeiro de 2000, que, lembra o autor, suscitou 14 comentários; a partir daí…).

O próprio livro de Castanheira reconhece essa ligação, ao referenciar o cruzamento de textos entre os dois espaços.

É o caso de uma discussão no site do Expresso (23/9/2000) sobre o direito ao anonimato, que principia com a transcrição de uma mensagem surgida no Fórum Macau.

Outro exemplo do cruzamento de interesses e conteúdos: embora quase todos os comentadores fossem anónimos, a forma como se identificavam era muitas vezes comum aos dois espaços.

Aliás, pode dizer-se que o Forum Macau nasce no site do Expresso: «um ‘Leitor e cidadão indignado’ propõe a criação de um sítio específico ‘onde pudéssemos continuar este assunto’ e em particular ‘dar continuidade à lista de mafiosos’. E pergunta: ‘Alguém sabe como fazer?’». Em Maio de 2000 era criado um fórum específico na morada http://www.geocities.com/forum_macau, onde existiam várias sub-páginas com títulos como Documentos, Fórum ou Campanhas.

Nesse endereço podia ler-se (e ainda pode, como se verá adiante) a seguinte mensagem: «O Forum Macau surge em Maio de 2000, por sugestão de alguns comentadores dos artigos do Expresso sobre a Fundação Jorge Álvares e o ex-governador Rocha Vieira. A profusão de comentários  e o seu conteúdo, tornaram evidente que se impõe um espaço de debate onde seja possível analisar os últimos anos da Administração portuguesa de Macau»

Desactivado em 2002

e extinto em 2009

Esse site já não existe, primeiro porque o próprio serviço Geocities foi encerrado, numa fase inicial, e, depois, formalmente extinto no ano passado.

Mas já desde 2002 que o espaço de discussão chamado Fórum, uma das rubricas desse Forum Macau estava fechado, por decisão da empresa que o suportava tecnologicamente, a OberonSis. Ou seja, desde essa altura (e a partir de uma queixa feita por cidadã portuguesa de Macau, como o PONTO FINAL relatou na altura) que deixou de ser possível comentar.

Seja porque o propósito do Fórum estava esgotado («analisar os últimos anos da Administração portuguesa de Macau») seja porque, quando parecia que isso seria impossível, o tom dos comentários foi-se resumindo a insultos pessoais, cada vez mais violentos, a verdade é que o Forum morreu nessa altura.

O próprio moderador, identificado apenas como ATX (e nunca, até hoje, revelado), chegou a escrever que «por opção inicial, o espaço de debate do Forum Macau era livre e não moderado. Apesar de sucessivos apelos constatou-se que alguns participantes não respeitavam as regras mais elementares da net-etiqueta, para já não falar nas sucessivas e desesperadas tentativas de destruir o Forum Macau. Assim sendo, e porque continuamos a achar que este espaço de debate tem sentido e razão de existir, decidiu-se passar a moderar o fórum e criar novos espaços que não sejam tão permeáveis aos ataques dos “hackers”. Por outro lado, sendo previsível a continuação dos ataques, as mensagens mais interessantes serão preservadas neste espaço».

Em 2002 ATX já se tinha desinteressado.

Vantagens e desvantagens do anonimato

Não haveria Forum Macau sem anonimato, mas o anonimato matou a própria ideia.

Dez anos depois, quando o PONTO FINAL tentou avivar a memória de algumas pessoas que acompanharam esse processo, quase tudo foram recusas, a começar pelo próprio José Pedro Castanheira. Precisamente com o argumento do anonimato.

Uma excepção foi o jurista Nuno Lima Bastos, que aceitou comentar. Desde logo para lembrar a génese: «Quando surgiu, em Maio de 2000, o Fórum Macau foi um sucesso imediato,  conseguindo capitalizar a enorme popularidade que a secção de comentários do semanário Expresso vinha tendo desde o início desse ano sempre que eram ali publicados artigos sobre o último governador do território e alguns dos seus colaboradores mais directos»; mas também para elogiar a intenção de quem o criou: «alguém – que nunca consegui descobrir, com muita pena minha – pegou na ideia, pôs mãos à obra e lançou o Forum Macau. Este teve, desde logo, o mérito de facilitar sobremaneira o acesso, de forma permanente e sistematizada,  a um manancial de informação anteriormente dispersa no tempo e no espaço. Ali encontrei, aliás, diversas crónicas de jornais que me tinham passado despercebidas aquando da sua publicação original. E também me deparei com alguns textos meus, que, pelos vistos,  recolheram a simpatia do administrador do fórum…».

Elogios à parte, o jurista concede que «lamentavelmente, o nível do debate foi descambando para o insulto gratuito, chegando a um baixo nível tal que a secção acabou por ser encerrada e todos os comentários apagados – os maus, mas também os válidos, o que representou uma machadada, julgo eu, decisiva na popularidade do Forum Macau, já que, a partir daí, este caiu no quase esquecimento. Apesar disso, manteve-se (e mantém-se) online, continuando a constituir uma interessante fonte de informação para quem quiser saber mais sobre alguns episódios nada dignificantes da actuação dos derradeiros responsáveis do Macau português».

Outra das pessoas contactadas pelo PONTO FINAL, explicou assim (parte d)o seu ponto de vista: «noutros moldes poderia ter tido algum sucesso e até seria um interessante arquivo dos últimos anos, mas quando as coisas são tratadas com demasiada proximidade (e personalizadas) perdem objectividade. O cariz semi-anónimo também conduz ao desinteresse. Depois, também se vê que quase todos os textos são demasiado “recentes”, isto é, todos do pós-1999. Tinha interesse saber o que foi dito antes. Quando já todos caíram em desgraça e é mais fácil insultar e apontar o dedo, já não serve para nada».

Seja como for, o Forum Macau chegou a ser citado/referenciado em trabalhos académicos de nível superior.

Endereços que guardam o espólio

Na verdade, existem alguns endereços na Internet onde se podem ler alguns dos conteúdos do Fórum. O mais conhecido é http://www.geocities.ws/forum_macau/ mas existem outros, a que se acede por exemplo a partir de uma pesquisa mais cuidadosa (por exemplo ‘forum_macau’). Nuns podem encontrar-se apenas documentos soltos, noutros partes significativas desse espólio (são quase todos sites que alojam conteúdos gratuitamente).

É, assim, possível ler os artigos publicados no Expresso mas também diversos comentários feitos pelos leitores do jornal. Já, como adianta Nuno Lima Bastos, os textos fórum do Forum Macau desapareceram. Existem apenas nove textos, seleccionados criteriosamente («Para iniciar este arquivo dos posts mais interessantes nada melhor do que o seguinte»), ao que se percebe, tirados desse Fórum, como um «Apelo contra Jorge Rangel», uma «Carta aberta a Marques Baptista» ou, ainda,  «Pesadelo Vieirista» (mais em http://www.geocities.ws/forum_macau/forum.htm#1).

No entanto, a partir da tal pesquisa mais criteriosa, é possível outros comentários feitos pelos leitores do Forum Macau nesse fórum.

O PONTO FINAL contactou mais do que uma vez o moderador do Fórum, a partir do endereço de Hotmail que aparece na página, mas sem qualquer sucesso.