Violoncelo para o mundo, com humor americano

Dá pelo nome ‘The Silk Road Ensemble’ e tem como director artístico (e principal elemento de atracção de público) o violoncelista Yo-Yo Ma. Sobe hoje ao palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Macau para um concerto que – não espanta – já está esgotado. Ontem, Ma e alguns membros da formação falaram com os jornalistas. Ideias sobre música do mundo, o mundo da música, e os lados esquerdo e direito do instrumentista norte-americano de ascendência chinesa.

Isabel Castro

A organização avisou uma, duas, várias vezes: Yo-Yo Ma só tem meia hora para falar com os jornalistas. E nem mais um segundo. No meio de uma agenda apertada, explicou a organização, a estrela mundial do violoncelo disponibilizou trinta minutos da sua vida para falar com a imprensa de Macau sobre o concerto desta noite, integrado em mais um périplo asiático do ‘The Silk Road Ensemble’. Os media não desiludiram a organização e acorreram em força ao encontro com o (até ver) maior nome da música internacional que este ano pisa palcos da RAEM.

Yo-Yo Ma entrou na sala com 15 minutos de atraso e sem mostrar grandes pressas. Chegou acompanhado de quatro dos 12 músicos que o acompanham pelos sons da Rota da Seda, um projecto que comemorou em 1998 dez anos de existência e que se pretende que dure, pelo menos, mais uma década. As celebrações da efeméride musical prolongam-se ao longo de dois anos.

Porque a meia hora de Ma não dava grande tempo para bilinguismos, a organização avisou que o inglês seria a língua de entendimento. Servida a chávena de chá aos convidados do Centro Cultural de Macau, liga-se o cronómetro mental, os gravadores estão a postos, e ouvem-se as primeiras perguntas na sala – são feitas pela própria moderadora da sessão, que recolheu previamente as questões a colocar pela imprensa chinesa.

Yo-Yo Ma não disfarçou o espanto com estas funções acumuladas da organização, vestindo o papel de porta-voz de quem não fala inglês, e sorriu com o facto, mas não se fez rogado. E discursou sobre o que significa andar na estrada com um conjunto de músicos de origens e contextos musicais diversificados no projecto sem fins lucrativos que concebeu há coisa de dez anos. “Chegados a este ponto, conhecemo-nos todos muito bem. Somos indivíduos com diferentes contextos, mas todos nós temos curiosidade pelo outro. Depois de todos estes anos, somos muito amigos. Existe uma forte amizade entre o grupo, gostamos de tocar e criar coisas em conjunto.”

Com cinco discos gravados, ‘The Silk Road Ensemble’ reúne algumas dezenas de artistas – que vão circulando em palco, conforme a disponibilidade e a marcação das tournées. Mais do que uma formação que acontece em palco, o projecto tem uma componente de formação e educação (que não se verificará em Macau, onde está ‘apenas’ para tocar), e não se esgota num só repertório. “Temos estado a tocar novas músicas”, referiu o violoncelista da actualidade mais famoso fora da esfera estritamente erudita.

Yo-Yo Ma tem viajado muito com o ‘The Silk Road Ensemble’. Violoncelista e restantes instrumentistas foram do Mediterrâneo ao Pacífico, passando pela América, Ásia e Europa. Percorreram também países que integravam a Rota da Seda. Viagens que fazem com que o projecto seja “um processo de aprendizagem, um laboratório”. Porque trabalham com instituições de ensino e outro tipo de estruturas, “como museus”, trata-se de uma formação em constante dinâmica. “Esperamos continuar com este trabalho de laboratório durante os próximos dez anos, bem como aprofundar a nossa relação com instituições de ensino”, disse.

Fado, essa sina

Desenganem-se aqueles que pensam que hoje irão a um concerto cujo repertório assenta simplesmente na recolha de sonoridades tradicionais dos diferentes países que outrora integraram a Rota da Seda. A música do ‘The Silk Road Ensemble’ vai além da designação, embora inclua instrumentos tradicionais com um passado histórico pertinente.

Mas a Rota da Seda serve também de metáfora ao mentor do projecto que, como é bem sabido, tem a carreira feita da abordagem de múltiplos géneros e génios musicais – Yo-Yo Ma gravou António Carlos Jobim, mas também as obrigatórias ‘suites’ de Bach. Não deixou o visionário Astor Piazzolla de fora, mas tem discos de ‘classical hits’.

O violoncelista diz ser um homem curioso. E ‘curiosidade’ foi palavra que repetiu ao longo da conversa em tom animado que manteve com a imprensa local. O ‘The Silk Road Ensemble’ vem ao encontro desta vontade de desmontar o mundo, “os elos que se estendem da antiguidade ao presente”, escreveu Ma na nota ao programa desta noite. “Estes elos formam as peças de um puzzle que se combina para revelar uma imagem coerente de quem somos, de qual é o nosso lugar no mundo e das razões pelas quais agimos como agimos.”

Tudo isto traduzido em música resulta na fusão de instrumentos e inspirações que saem dos espartilhos em que se desenvolveram originalmente, para emprestarem sonoridades quer a registos mais aproximados à recolha, quer para novas composições. No Centro Cultural de Macau vão ser tocados instrumentos oriundos desta zona do planeta – como a ‘pipa’ de Wu Ma e o ‘sheng’ do também cantor de pop Wu Tong –, e outros menos comuns, como o ‘kamahncheh’ e o ‘shakuhachi’.

O sul-coreano Dong-Won Kim, responsável pelas percussões, é também um dos compositores do grupo. Explicou como se processa esta troca de sonoridades e se articulam instrumentos que obedecem, tradicionalmente, a  diferentes escalas. “Para mim, é uma grande honra ver a minha música tocada pelo Ensemble. Os músicos servem-me de inspiração. Quando toco com este Ensemble maravilhoso, inspiro-me. A minha melodia é tradicional [coreana], mas uso a escala persa e instrumentos persas. É tudo muito inspirador.”

Porque Portugal também teve a sua participação histórica nestas andanças históricas entre Oriente e Ocidente, nos intercâmbios culturais sobre os quais o ‘The Silk Road Ensemble’ se debruça, houve quem tivesse querido saber se, no contexto musical amplo em que a formação trabalha, há ou haverá espaço para a tradição musical portuguesa.

“Estava ainda há pouco a falar com o Pedro [Lencastre], que está ali ao fundo da sala. Olá Pedro!”, começou por responder o descontraído Ma. “Conhecemo-nos há um par de horas. Estávamos a falar da tradição do fado”, prosseguiu, fazendo uma leve referência às relações musicais Portugal-Brasil. “Mas o Pedro estava a falar de Malaca, onde há também um fado e uma tradição que será ligeiramente mais antiga daquela que há agora em Portugal”, contou o violoncelista, para virar o discurso para Macau.

“Uma das razões porque estamos tão contentes por vir a Macau é exactamente o seu passado histórico e a esta enorme tradição sobre a qual não sabemos nada”, admitiu. “Nunca estivemos em Goa, nunca estivemos em Moçambique e há coisas fantásticas para explorar”, tal como uma “ligação ibérica mais geral às Américas”. Tudo isto é, para Yo-Yo Ma, “cultural e educacional e traz ideias fantásticas para o nosso trabalho.”

De Piazzolla a Casals

O percurso profissional do violoncelista galardoado com 16 Grammy e, entre outras funções, Mensageiro da Paz das Nações Unidas, leva a perguntas inevitáveis. Macau também as faz, nem que mais não seja para ouvir as respostas na primeira pessoa. Quem é este Yo-Yo Ma, que tanto brilha na música erudita como se afasta radicalmente dela? Há mais do que um Yo-Yo Ma?

A resposta foi em tom de brincadeira, mas terminou com um toque de sobriedade: “O [Yo-Yo Ma] do lado esquerdo é o erudito, e o da direita é o outro. A não ser depois das seis da tarde, que é quando trocamos. É tudo música.”

Seguiram-se exemplos para fundamentar que há mais gente no mundo assim. Astor Piazzolla foi um deles, na visão muito própria do violoncelista norte-americano. “Pensamos em Piazzolla como um compositor argentino, mas ele passou muito tempo nos Estados Unidos a estudar com [a professora de composição Nadia] Boulangier, que o encorajou a escrever sobre o estilo com que cresceu, fundido com o jazz que ouviu em Manhattan”, contou Ma sobre o pai do ‘nuevo tango’. Outro exemplo do dia foi o brasileiro Egberto Gismonti, que também foi aluno de Boulangier, e cujos temas integram o repertório de vida de Yo-Yo Ma.

Tudo isto para dizer que as “combinações” são muitas. “O que torna interessante viver na nossa era é que há muitas oportunidades de conhecermos e explorarmos fronteiras, respeitando as tradições. É bom para as tradições que haja uma fusão de instrumentos, de possibilidades. Somos apenas um grupo que reflecte a era em que vivemos.”

Yo-Yo Ma tentou encaminhar a conversa para a noção de grupo – afinal a meia hora existia para se falar do ‘The Silk Road Ensemble’ -, mas a curiosidade que desperta esta estrela do violoncelo é maior. Procuram-se referências, fontes de inspiração unicamente relacionadas com o instrumento que o acompanha desde os quatro anos de idade.

“Tenho muitos ídolos”, disse. “Mas um dos meus primeiros ídolos foi Pablo Casals.” Talvez a razão já tenha sido de ordem técnica; hoje em dia não é no domínio do instrumento que o violoncelista espanhol inspira o sino-americano. “Uma das coisas que adoro é que ele dizia ‘em primeiro lugar sou um ser humano, depois sou um músico, e só então é que sou um violoncelista’.”

Sem intenções

Embora seja, de longe, o violoncelista mais famoso da actualidade fora dos circuitos aos quais o violoncelo está originalmente relacionado, Yo-Yo Ma recusa ter uma contribuição intencional para a popularização do seu instrumento. As incursões que faz por outros estilos de música que não a erudita não têm em mente a eventual captação de públicos reticentes a Bach ou a Beethoven. O facto de ter sido uma criança prodígio que cresceu entre partituras e orquestras – e que mais tarde teve de se afirmar por outras competências que não o virtuosismo precoce – também não parece ter contribuído para as suas opções de repertório, pouco consensuais entre os críticos da música erudita, que Ma está longe de ser uma versão americana de Rostropovich.

“Todos nós, neste grupo, fomos crianças prodígio, se entendermos que a criança prodígio é aquela que desenvolve muito cedo um grau de excelência na música. Dong talvez seja a excepção, porque estudou engenharia”, disse Ma, com uma gargalhada, dissertando em seguida sobre uma hipotética conversa de infância entre o músico sul-coreano e a sua mãe acerca do futuro profissional do percussionista.

“Mas qual era a pergunta?”, inquiriu o violoncelista, como que de regresso da sua deambulação pela infância de Dong-Won Kim. Reiterada a questão sobre o público que abrange com o seu trabalho alargado, Yo-Yo Ma negou ter um objectivo na essência do que faz. “A exploração do nosso mundo é uma tendência comum a qualquer músico, a qualquer pessoa”, defendeu, acrescentando nunca ter pensado em “trazer mais gente para a música erudita”.

Como todos os sítios têm uma “dinâmica demográfica diferente” – o violoncelista já sabe que, esta noite, o seu público de Macau será essencialmente jovem, facto que muito o apraz – espera que “as pessoas se interessem pelo facto de abordarmos tradições diferentes”. Quanto ao seu ecletismo musical, tem também um toque de contemporaneidade: “Tem a ver com a forma como as pessoas crescem hoje em dia. Não têm experiências só com um tipo de música. É diferente da altura em que cresci.”

Yo-Yo Ma fez questão de partilhar a pergunta com dois músicos presentes na sala, ambos nascidos na China. A tal meia hora já tinha acabado há uns 15 minutos, mas o violoncelista de voz calma não parecia ter afazeres urgentes. Wu Ma, a tocadora de ‘pipa’, concorda com a ideia de que hoje em dia já não há uma separação entre as muitas músicas – a pop, a tradicional, a ocidental. “Eu cresci com isso. Os diferentes estilos influenciam-se uns aos outros”, explicou, fazendo referências ao intercâmbio de Ravi Shankar, dos Beatles e dos U2. “Connosco é a mesma coisa… Eu toco ‘pipa’, o Wu Tong toca ‘sheng’, mas é também um cantor pop.”

Wu Tong, nascido em Pequim, é cantor pop mas já teve uma banda rock. “Cresci numa família de músicos tradicionais. O meu pai obrigava-me a tocar todos os dias e eu odiava o instrumento. O meu pai tinha um gravador e gravava os meus ensaios”, relatou, ao que se ouviu um comentário de Yo-Yo Ma, para quem o pai de Wu conseguia “ser ainda pior” do que o Ma sénior.

Wu retoma a palavra para contar que, com 11 ou 12 anos, decidiu fechar os olhos e tocar qualquer coisa que “viesse do meu coração”. Descobriu que gostava do “sheng” e foi para o Conservatório de Pequim, ao mesmo tempo que descobriu o rock. No ‘The Silk Road Ensemble’ o músico voltou a ter uma sensação semelhante, independentemente das etiquetas comerciais que se queira atribuir ao projecto. “Para nós, músicos, o que fazemos é do nosso coração.” Música que vem de dentro, com um violoncelo para o mundo, da Rota da Seda, para Macau ouvir logo à noite.

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