“Dá vontade de ficar aqui eternamente a filmar”

É um projecto que nasce como documentário mas que pode acabar “num filme de aventuras”. João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata juntaram-se para filmar “A Última Vez que Vi Macau” e descobriram o potencial cinematográfico da RAEM. A fita, que abarca a memória mas não se quer saudosista, deve estar pronta até ao final do ano.

Hélder Beja

Um realizador, João Rui Guerra da Mata (JR), que viveu em Macau nos anos 1970, antes e depois do 25 de Abril. Outro, João Pedro Rodrigues (JP), que visita o território pela primeira vez. Melhor: pela segunda, porque os cineastas portugueses que estão a rodar o documentário “A Última Vez que Vi Macau” regressaram agora à RAEM para um segundo período de filmagens.
“Aqui a noite é das coisas mais misteriosas, as ruas têm um ambiente de filme negro”, diz JP. Também é já depois de caído o sol, numa das esplanadas do Leal Senado, que encontramos o realizador de “Odete” e “Morrer Como Um Homem”, acompanhado da restante equipa, que além de Guerra da Mata conta ainda com a assistente de realização e produção, Leonor Noivo, e com Carlos Conceição, que assegura o som.
A vontade de rodar em Macau surge depois de JP e JR assinarem juntos a curta-metragam “China China” (ver caixa). “Foi se calhar o que despoletou a urgência de fazer este filme”, admite o primeiro. “Depois, o João Rui viveu em Macau quando era miúdo. A ideia é fazer um filme sobre a memória e partir um bocadinho de duas ficções: por um lado, a ficção que são as memórias de infância dele; e, por outro, do que eu conheço do cinema asiático e do cinema também americano sobre o oriente”, explica.
É difícil concretizar ideias sobre um projecto em andamento, para mais quando, como este, há uma forte dose de improviso à mistura. Ainda assim, alguns factos: a dupla já tem mais de 60 horas de material filmado na RAEM, vai ficar por cá até ao final de Março (e conta ultrapassar as 100 horas de gravações) e põe-se a hipótese de um regresso a Macau depois de uma primeira fase de montagem. O filme deve estar pronto lá para o final do ano.

Nada de saudosismos

“A Última Vez que Vi Macau” começou por ser um documentário no papel. Agora, talvez esteja a transformar-se noutra coisa. “Na verdade pensamos que é um documentário sobre pequenas possíveis ficções”, diz João Rui Guerra da Mata. “Não sei se isto vai ser bem um documentário. Mas também, o que é um documentário?”, atira JP. A pergunta é boa e fica a certeza de que esta fita não seguirá o modelo mais clássico, se lhe podemos chamar assim: “Há sempre aquela ideia de que um filme sobre a memória é uma coisa assim meia saudosista. E nós queremos fugir a isso.”
Guerra da Mata, que viveu em Macau e regressa agora mais de 30 anos depois, refere que o seu interesse é “por Macau como ele é”. “Não há da nossa parte nenhuma nostalgia em relação a Macau como era antes. Não me interessam as relíquias portuguesas ou apenas os locais da minha infância.” Ainda que estes, os lugares onde JR viveu os poucos anos da sua meninice no território, sirvam de gancho importante à história. “Cheguei cá talvez com sete anos. Foi uma época muito marcante, porque havia pouquíssimos portugueses, aprendi cantonense, foi um choque e por outro lado uma aventura.”
Para rodar, a equipa tem tomado por bases alguns lugares que JR vai reconhecendo ou estranhando: “Percursos que eu fazia quando era miúdo, escolas onde andei [Escola Primária Oficial, Colégio Santa Rosa de Lima, Liceu Nacional Infante D. Henrique], as Oficinas Navais, que era onde o meu pai [oficial superior da Armada] trabalhava, o Quartel dos Mouros [Porto Interior], onde eu vivia.” E depois “todas as ruas de Macau” que, embora aos olhos do cineasta estejam muito diferentes, “continuam a ter sítios engraçados e com pequenas histórias por descobrir”. “Às vezes quase que é preciso arqueologia para uma pessoa conseguir explicar como é que isto ou aquilo era antes”, brinca.

Filmar Macau

A este olhar de JR, de quem conheceu “uma aldeia” e agora leva com casinos colossais e toda a agitação que a RAEM concentra por estes dias, junta-se a análise forasteira dos 43 anos de João Pedro Rodrigues que por isso mesmo sabe que o filme “será com certeza um retrato pessoal de Macau”. O cineasta descobriu “um potencial impressionante para filmar” no território. Admite as influências de filmes como o clássico “Macao” (1952), do Josef von Sternberg (ver caixa), ou de trabalhos sobre o oriente como “Sans soleil” (1983), de Chris Marker, e interessa-lhe cruzar essas referências com “pequenas ficções e pequenas personagens” com que se vai deparando durante as filmagens.
“Às vezes seguimos pessoas na rua, mas por acaso. E o filme não vai ter entrevistas”, prossegue o realizador. Eleger o que mais o surpreendeu na RAEM torna-se “difícil, porque a cidade é tão heterogénea… É uma misturada tão grande de China, restos de Portugal… E o contraste entre Macau e as ilhas. A calma de Coloane…”.  A noite, no entanto, é o momento predilecto para accionar a câmara: “Parece que Macau está cheio de gente mas à noite esvazia-se. Estivemos várias noites no Porto Interior e não víamos quase ninguém. Isso cria um ambiente muito particular.”
As casas de jogos  de fortuna e azar também vão estar presentes em “A Última Vez Que Vi Macau”, até porque “no fundo, há qualquer coisa de ecos de Las Vegas aqui também”, diz João Pedro Rodrigues. “Fui directamente daqui para os EUA e passei em Las Vegas. É incrível ver como as coisas passam de lá para cá, circulam, é tudo igual em todo o lado.” Tudo ou quase tudo, porque o que cativa o cineasta português no cinema asiático de autores como o tailandês Apichatpong Weerasethakul ou Tsi Ming-liang, de Taiwan, é um lado mais concreto da vida que também se encontra em Macau. “Coisas que, aliás, fogem completamente a esse lado mais mítico e exótico que muitas vezes associamos ao oriente.”
Os últimos dias de rodagem foram passados em Coloane. “Era o sítio onde se ia à praia”, conta João Rui Guerra da Mata. Na altura não era bem praia: João metia-se nas lanchas da polícia e ia banhar-se ao largo da costa. “Agora estamos a contar fazer as ilhas de barco e recuperar todas aquelas histórias das grutas dos piratas que eram contadas nesses passeios de fim-de-semana.”

Prosseguir a aventura

As histórias de piratas que João Pedro já ouvira de João Rui deram-lhe vontade de “fazer ligações com os filmes de piratas, os filmes de aventuras do cinema clássico, e descobrir essas grutas.” A ideia não é traçar um retrato histórico mas fazer do documentário qualquer coisa festiva: “No fundo queria que este fosse um filme de aventuras e não um documentário, um filme das nossas aventuras aqui, nesse sentido um bocadinho lúdico”, confessa JP.
Na quarta-feira, quando encontrámos os realizadores junto ao Senado, o dia havia sido passado a filmar a demolição de uma casa na Barra. “Interessa-nos essa mutação”, aponta João Rui. “Há uma série de coisas ainda em construção, isto vai mudar tudo”, opina João Pedro. Perguntamos à dupla se está a par da provável demolição do Fai Chi Kei, bairro social pensado pelo arquitecto Manuel Vicente. JP soube ainda em Lisboa, por via da petição que circula na Internet. “Acho que isso é que é o incrível na China: uma espécie de coisa avassaladora em que tudo muda.” Já João Rui é mais incisivo: ” Mas quantos bairros chineses absolutamente maravilhosos havia em Macau e não foram demolidos para que se construíssem Fai Chi Kei’s?”
João Rui Guerra da Silva fala de “um território como Macau, onde tanta coisa foi destruída e também se inventou tanta outra, como a calçada portuguesa”. Aqui admite a “ironia, porque coisas como a calçada não pertenciam a esta terra”. “Nós quisemos deixar obra feita e empedrámos Macau.”
Outra das ‘aventuras’ da rodagem foi a noite do Ano Novo Chinês, que a equipa passou no templo de A-Ma. “Ficámos lá até estarmos intoxicados e surdos”, brinca JR. “O Carlos ficou particularmente surdo, por causa da captação de som. Vai ser interessante mostrar isso, a maioria das pessoas não tem a mínima noção.” O som de “A Última Vez que Vi Macau” servirá também para ‘mostrar’ muita coisa no filme. “Ainda não há uma forma definitiva [para contar o filme] e é na montagem que se vai encontrar”, preconiza João Pedro Rodrigues. “Terá de ter vozes, talvez as nossas vozes, porque o filme há-de ser uma visão pessoal, que  reflecte como nós somos agora.” Os sons terão esse papel narrativo e servirão para “criar pequenas ficções”. Mas som não quer dizer uma única voz que vai explicando tudo. João Pedro Rodrigues: “É mais se calhar ir buscar sons de filmes. O filme negro, por exemplo, o que é que tem? Tem corridas, tem tiros, tem pessoas a morrer. Talvez introduzamos alguns desses sons.”

Pecar por excesso

João Rui aponta sem hesitar a grande questão por resolver no projecto: “O problema deste documentário é que quanto mais descobrimos, mais temos para descobrir. “Entramos numa rua, vamos filmar uma coisa e de repente somos capazes de passar uma tarde inteira nessa rua. “E, ajuda João Pedro Rodrigues, “dá vontade de ficar aqui eternamente a filmar”.
Só que outras paragens ainda esperam a equipa de quatro portugueses. Hong Kong, onde já filmaram, e algumas cidades da China Continental também vão ter lugar numa fita que se espera que –  no final de uma “montagem provavelmente complicada” – tenha à volta de uma hora  e meia de duração. “Há esse lado engraçado de quando o JR vivia cá, a China era a China comunista, uma barreira intransponível onde não se podia ir. É por isso que agora queremos ir. Já visitámos Zhuhai e queremos filmar em Cantão e Xangai. Também nos interessa esse lado de uma China que muda”, expõe João Pedro Rodrigues,
A rodagem da longa-metragem – apoiada financeiramente pelo Instituto do Cinema e Audiovisual português e, por arrasto, pela RTP – tem contado em Macau com suporte da Fundação Oriente e da Casa de Portugal. “Pessoas como o Carlos Couto, a Maria Amélia, o Rui Carreiro, têm sido fundamentais para nos darem indicações de logística no que toca à produção. Se estivéssemos cá sozinhos, sem apoio nenhum, acho que era o desastre completo”, admite João Rui Guerra da Mata. E, para conseguir autorizações e filmar em alguns locais, muito tem valido o domínio do cantonense da assistente Leonor Noivo, que também viveu no território durante alguns anos.
“A Última Vez que Vi Macau” é um filme de um amigo que mostra ao outro uma terra que já não conhece. “Todas as histórias que contei ao João Pedro agora materializam-se”, acredita João Rui. “E, por outro lado, cada vez mais parecem apenas memórias ficcionadas.”

Macau como nos filmes

Os ambiente sombrios e ao mesmo tempo glamourosos de “Macao” (1952), fillme do australiano Josef von Sternberg, não são indiferentes à dupla de realizadores que está a filmar em Macau. “Partimos muito de um filme que é o “Macao” (1952), do Josef von Sternberg, uma ficção com o Robert Mitchum e a Jane Russell filmada num Macau de estúdio, que não existe. Por outro lado tem uma segunda equipa que captou imagens documentais de Macau, como se para a ficção houvesse a necessidade de confirmá-la através da realidade”, conta João Pedro Rodrigues.
João Rui Guerra da Mata viveu, nos anos 1970, no Quartel dos Mouros, que é “uma das primeiras imagens” deste clássico do género negro. JP refere que o objectivo de “A ÚItima Vez que Vi Macau” é “construir pequenas ficções com os próprios ambientes, pensando sempre no cinema e não apenas numa revisitação da memória, nostálgica e um bocado sentimental”. E o território tem história no cinema, alguma dela feita de três algarismos: 007.
João Rui Guerra da Mata recorda-se das filmagens de “O Homem da Pistola Dourada” (1974), filme do agente secreto James Bond, à data interpretado por Roger Moore. “Agora, estávamos no final da Almeida Ribeiro e a Leonor Noivo [assistente de realização], que viveu cá, disse-nos que o primeiro Indiana Jones tinha sido filmado no hotel que tínhamos à nossa frente.” Hoje, conta João Pedro, o charme da personagem criada por Ian Fleming já não se coaduna com “uma coisa quase em ruínas”.
Várias coincidências levam João Rui a querer fazer um filme sobre Macau, como esta: “A minha primeira vinda para cá foi uma epopeia, não sei quantas escalas, depois perdemos não sei quantos aviões. E chegámos de ferry exactamente no mesmo sítio onde o ferry chega no “Macao” do Standberg, no Porto Interior.” É por isso que João Pedro Rodrigues diz que o território “foi uma espécie de aventura para o miúdo” que era João Rui. “Só queríamos que essa aventura se prolongasse agora.”

A China em Lisboa

A primeira experiência de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata como co-realizadores foi na curta “China, China”, estreada em 2007 – foi também o debute de João Rui na realização, apesar de já ter trabalhado em inúmeros projectos. E como é dirigir um filme em conjunto? “Não é difícil, porque o JR tem participado na escrita de todos os meus argumentos”, responde João Pedro. “O JR é que escreveu a primeira versão do argumento [de “China China”] e eu depois trabalhei com ele. Pareceu-nos que fazia sentido realizarmos os dois.”
Sobre o filme de 17 minutos que passou no festival de cinema IndieLisboa e já arrecadou alguns prémios, o crítico de cinema João Lopes escreveu que “dá a ver uma espécie de ‘tribo chinesa em cenários lisboetas’ (o pai e o filho fascinados por filmes chineses com muitas cenas de violência, a mãe construindo mentalmente a possibilidade de um regresso)” e que “é um dos mais belos filmes surgidos, em tempos recentes, na produção portuguesa: um pequeno prodígio de contenção e inteligência”.
O filme começa com um panorâmica que vai de uma espécie de templo chinês até a um prédio em construção, passando pelo Hotel Mundial. “Esse começo simboliza o mundo”, diz João Pedro Rodrigues. “O Martim Moniz é o sítio mais cosmopolita de Lisboa, onde há todas as raças. Havia uma ideia de que estávamos em Lisboa mas ao mesmo tempo estávamos na China, era como se o filme fosse uma matrioshka, uma boneca russa.”
O trabalho a dois é diferente em Macau, porque “China, China” foi filmada numa semana. “E era uma ficção. Havia argumento, actores”, enumera João Rui. Apesar de tudo, a parceria resulta: “O João Pedro é sem dúvida mais contemplativo do que eu. Mas suponho que andamos os dois à procura do mesmo.”

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