Fortes Pakeong Sequeira expõe a partir da próxima sexta-feira, na galeria do Centro de Indústria Criativas, uma série de desenhos a carvão com o nome “White Paper”. Falam de sonhos aparecidos em vigília e mostram um imaginário povoado de criaturas fantásticas.
Maria Caetano
É de tom amarelado o papel onde Fortes Pakeong Sequeira faz habitar as criaturas fantásticas que lhe saem das mãos pelo bico do lápis de carvão. São figuras orgânicas, feitas de osso, músculo e outros tecidos, moldados pela imaginação, que assim se mete a labor.
Quando o sono tranquilo não oferece uma noite de sonhos, Fortes diz sonhar acordado. Diz que pensa demais, diz que não é igual aos outros e que há quem o tome por louco. Que aos catorze anos escolheu a rua em detrimento de um lar pouco feliz, que pouco depois escolheu uma irmandade forjada pelo crime organizado de Hong Kong ao invés de os laços de sangue que sabia em Macau, e que tem um mau passado, hoje recordado a partir dos seus apenas 32 anos de idade, refeitos com a vida.
Fortes Pakeong Sequeira é o próximo artista convidado a expor na galeria da Creative Macau. “White Paper” o nome da mostra que é inaugurada sexta-feira e exibe dez desenhos de grande formato, outros oito mais pequenos, um manequim de boutique transformado e uma faixa de áudio também da autoria do artista. Todas as obras foram concebidas de propósito para a exposição – a segunda em que participa a título individual, depois de ter exibido em 2004 “Madmadmad” no Armazém do Boi.
“Os meus amigos julgam que sou um pouco louco. Talvez a tenha a ver com o modo como digo as coisas. Não sou um bom conversador, seja em chinês, inglês ou português. Sou uma lástima a falar, sou demasiado lento. Prefiro escrever ou desenhar”. Fortes fala desassombradamente da sua biografia, intimidade, imaginário. Mas desenha-os melhor, entende.
Vida no reverso
Em pequeno, diz ter fechado a porta e a boca a estranhos e conhecidos. E fechava-se num mundo onde existia sempre lápis e papel, até onde lhe chega a memória. Os desenhos a carvão são de sempre, ilustrações dos sonhos, aqueles que o povoam de olhos abertos ou fechados.
“Não tenho qualquer tipo de organização. Desenho consoante sinto e normalmente desenho naquelas noites em que não consigo dormir”, revela. Mas com muita naturalidade lá vai lá lembrando que Fortes não é a imagem de um artista atormentado, apesar das insónias. O que diz ver é a vida, e esta é uma vida igual à de tantos mais. Mas é vista pela imaginação no seu reverso, de fora para dentro, da forma para o que a preenche – no grafismo e no resto.
“Não são pesadelos. Não é nada de terrível. Ponho no papel o que vi em sonhos. Desenho as formas e depois imagino o que lá pode estar dentro. Se desenhar um coração, lá dentro estará uma flor porque ‘aquela rapariga’ é bonita. Ou uma cicatriz, se me magoou”. “Acho que são símbolos, imensos símbolos juntos”, diz.
Salvador Dali é o ídolo e inspiração do ilustrador macaense. Mas os sonhos não são para Fortes a reserva de um inconsciente puro, para um imaginário não trabalhado pela razão que vive acordada. Gosta de Dali porque sim: “Percebo o que ele sente, mas não sei muito bem porque gosto tanto dele”.
Além de lápis e papel, Fortes Pakeong Sequeira tem também uma borracha, que é frequentemente posta a uso. E os sonhos de que fala visitam-no durante as horas de vigília.
“Na verdade, penso muito. Não sonho tanto. É sonhar acordado. Penso demasiado. De cada vez que vejo algo novo, pela primeira vez, não lhe toco, não faço perguntas. Uso a minha perspectiva para olhar e reflectir à minha maneira”, conta.
“O meu livro de esboços fica ao lado da almofada todas as noites quando me deito. Desenho, e olhar para os desenhos faz-me escrever as minhas canções. As imagens tornam-se letras. E as letras transformam-se em imagens”, explica.
Mostrar tudo
É assim que surgem as canções de Blademark, banda local de canto-metal, onde a voz gutural de Fortes surpreende e o dramatismo da sua actuação marca os espectáculos. Fortes cresce nas canções dos Baldemark. “Falam sobre a minha vida, ou das nossas vidas”, afirma.
O tom da música é negro como as roupas dos membros da banda. O vocalista garante que não. “Parece negro. Mas são a verdade e poucas pessoas conseguem ver esse lado nelas próprias”, defende. “Poucas pessoas estão dispostas a falar sobre isso, sobre as coisas más, sobre a raiva”, acrescenta.
“Alguns dos meus amigos chineses, quando vêem um desenho com mamas e um pénis pergunta-me que raio estou a fazer. Não gostam. É esta a diferença entre mim e os meus amigos. Eles não querem falar sobre estas coisas. Na maneira de pensar chinesa, temos de falar de coisas positivas e esconder aquilo que é considerado negativo. Mas isto é a vida. Não é positivo, nem negativo. Porque não mostrar tudo?”, pergunta-nos.
Além da banda e das ilustrações, Fortes Pakeong Sequeira é designer gráfico e fotógrafo em regime de freelance. Estudou Design Gráfico no Instituto Politécnico de Macau e depois começou a trabalhar como ilustrador para designers de moda em marcas de ‘streetwear’ comercializadas no continente chinês, Hong Kong e Singapura. Mas, tudo isso foi depois, muito depois.
“Quando tinha catorze anos saí de casa. Dormi cerca de um ano no Jardim Vasco da Gama. Não voltei a casa até hoje”, conta ao PONTO FINAL, sem reservas sobre a sua vida privada. “As coisas estão melhores agora. Tomo café com o meu pai e com a minha mãe, encontro-me com a minha família. Mas em todos esses anos assisti a tanto. Estive em rixas, vendi drogas, fiz tanta coisa má. Era má pessoa”, condena-se. “Há algo do meu passado nos meus desenhos”.
“Assusta?”
Traz surpresa e intriga um passado assim em alguém de trinta e poucos anos. Fortes esclarece tudo. “Quando tinha seis anos de idade os meus pais separaram-se. Aos oito anos, a minha mãe prometeu-me que me viria buscar quando eu tivesse treze. Mas não veio. A raiva começou aí”, afirma.
Deve ter sido duro para alguém tão jovem. Catorze anos apenas. Fortes apressa-se a mostrar que até um adolescente sabe encontrar caminhos para se sustentar. Começou a trabalhar no restaurante 456 do Hotel Lisboa. “De dia trabalhava e de noite dormia no Vasco da Gama”. Sentir-se-ia seguro? “Não pensava nisso”.
Acabou por partir para Hong Kong, onde diz ter estado durante uns tempos ligado a uma tríade onde se ocupava sobretudo do tráfico de droga, que também consumia. ”Queria fazer algo para provar a mim mesmo que era capaz. Estava perdido nessa altura. Não sabia o que fazia e nem pensava no que ia acontecer”, adianta, desfiando a história de uma adolescência diferente. “No grupo, senti que tinha muitos amigos, que éramos como irmãos. Era bom”, lembra.
Foi bom, talvez, durante três anos. Fortes já não tem esses amigos. Vendeu e tomou as drogas que pôde. Deixou o grupo depois de ter sido detido pela polícia numa rixa. “Éramos quatro pessoas. O inimigo tinha catorze. Perdemos. A polícia apanhou-me e os do meu grupo já não me encontraram”, recorda. “A minha mãe soube e foi buscar-me a Hong Kong”. E foi assim o regresso a Macau, à família e à escola.
Quase duvidamos. “Distorço tudo. Mudo a forma das coisas”, diz. Mas é de desenhos e de música que fala. Na imaginação de Fortes, o que é rígido torna-se flexível, maleável. Também na banda, a voz de Fortes se molda a registo áspero e cavernoso de um timbre de baixo profundo. Não é natural. “É a prática”, que impressiona as audiências da sua banda de canto-metal.
“Inflicto a minha voz, moldo-a no computador”. Soa como um filme de terror. “Assusta?”, pergunta, enquanto dá as gravações que soarão na galeria da Creative a ouvir.
