“Macau não tem nenhuma obrigação de adoptar o acordo”

Luís Ortet, director da Revista Macau e editor, ainda não sabe se a publicação que dirige vai adoptar a nova norma. Mas sabe isto: “Macau foi esquecido e não assinou o acordo ortográfico porque também ninguém lhe perguntou se queria assinar”

Hélder Beja

O director da revista Macau adivinhou os nosso intentos. “Por acaso já estava à espera deste telefonema, mas faça lá a pergunta.” Queremos saber se a revista Macau, uma das publicações mais antigas entre as que persistem na RAEM, vai adoptar o Acordo Ortográfico. “Acabei de enviar essa questão ao Gabinete de Comunicação Social (GCS), que é a entidade proprietária da revista”, diz-nos de imediato Luís Ortet.
O jornalista acha que deve ter sido “das primeiras pessoas a levantar esta questão” junto da administração pública. “Deve começar a haver mais gente que pergunta às direcções de serviços: ‘Então e agora como é que é? Como é que a gente vai escrever?’”
O PONTO FINAL decidiu fazer a pergunta a Isabel Ho, subdirectora do GCS. “De momento não tenho nenhum conhecimento sobre isto”, disse-nos. O Acordo Ortográfico ainda está longe das esferas governativas e só se explica o total alheamento em relação ao tema. Isabel Ho prometeu, ainda assim, que tentará saber em que pé estão as coisas.  Luís Ortet, que colocou a mesma questão e está “à espera para ver qual a política que vai ser seguida”, será por certo um dos primeiros a saber.
No que toca a outras instituições públicas, como a Assembleia, o tradutor e intérprete Leo Stepanov considera que “é necessário fazer um certo esforço de uniformização da ortografia, porque há maneiras diferentes de escrever os títulos, por exemplo”.
Em declarações ao já extinto Tai Chung Pou, Stepanov lembra que “Macau funciona com base nas amostras feitas anteriormente. Tudo segue uma lógica de ‘copy-paste’”. Isso faz com que o pessoal “não se preocupe com as regras modernas” e se mantenha a “tradição histórica” da documentação administrativa. “Será difícil convencer as pessoas de que a maneira antiga já não se aplica”, augura o tradutor. A solução pode estar em aplicações informáticas que minimizem o trabalho e facilitem a conversão de textos numa fase inicial.

Macau esquecido

Soluções à parte, a posição de Luís Ortet sobre este assunto clara: “Macau não foi convidado a pronunciar-se sobre o acordo ortográfico. É uma questão de que as pessoas não têm falado, mas Macau é um território de língua portuguesa. Há vários países e há este território, onde a língua se fala no governo e portanto é uma língua oficial. Curiosamente, Macau foi esquecido e não assinou o acordo ortográfico porque também ninguém lhe perguntou se queria assinar.”
É por isso que, defende Ortet, a RAEM “não tem nenhuma obrigação de adoptar o acordo porque ninguém lhe perguntou”. O também editor da Delta Edições diz que “o esquecimento pode ter razões históricas, porque o Acordo começou a ser discutido antes da transferência de Macau para a China”. Seja como for, prossegue, “as pessoas não se lembraram que, além dos países de língua portuguesa, há um território de língua portuguesa que é Macau”. Agora, o governo da RAEM “vai ter de pensar esta questão pela sua própria cabeça, porque não está obrigado a nada e nunca discutiu com ninguém este problema.”

A maioria decide

Ortet não está “particularmente preocupado com a questão de ser a favor ou contra o acordo ortográfico”. Deve haver o acordo ortográfico ou reforma ortográfica que as pessoas queiram, assinala. “Nós, Portugal, vivemos num país em democracia, discordamos sempre uns dos outros e portanto temos de arranjar mecanismos que nos permitam perceber qual é a sensibilidade da maioria em relação a qualquer transformação ortográfica.” Tal não aconteceu e por isso o director da revista Macau não se identifica “com o debate corrente” que diz que metade está a favor e metade contra. “O que interessa é: Para onde as pessoas estão mais viradas? Para adoptar? Então siga-se isso.”
Na RAEM, como em Portugal, as alterações ao português devem levar algum tempo a chegar. Por lá, a imprensa tomou a dianteira. Em Macau, para já, ainda não há Acordo.

One comment

  1. Acho bem que não haja acordo aí (pelo menos por agora). O AO é um acordo baseado no português brasileiro e que não tem nexo do ponto de vista das regras básicas da Língua Portuguesa. As vogais mudas servem para que a vogal precedente se leia aberta, algo que se estuda na primária. Quem elaborou o AO não tinha a mínima noção de Português Standard e baseou-se principalmente no brasileiro!

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